quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Acreditei nos pássaros quando voaram em círculo por cima do pinheiro manso que plantara. Um bom augúrio, uma dávida dos Deuses. O vento soprava de norte, o sol estava no seu apogeu, estávamos no início de mais um ciclo.

Todas as noites acendia uma vela para que me lembrasse dos tempos que viriam. Casaria com o homem que amava e iria viver com ele para terras distantes.

Ninguém esperava a guerra que estalara, talvez  a leitura do voo das aves tenha sido descuidada, os padrões ignorados.

Fiquei com a vida em suspense. Era impossível deslocar-me com tamanha carnifícia, sobreviver era um acto heróico.

A minha vela permanecia acesa. Cada dia com mais intensidade.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Maggie


Eu sei que ela gosta de mim e da Ema, a minha grande amiga pastor alemão. Mesmo quando chega a casa, cabisbaixa e sem palavras. Eu ladro-lhe, não pode andar assim. Por vezes ela fica furiosa e eu limito-me a acompanhá-la um passo atrás.

A Ema sabe sempre o que fazer. Ficar em silêncio quando chega de expressão fechada, lambê-la para se alegrar quando o permite.

Por vezes é tudo uma festa e as três brincamos no quintal como se fôssemos cachorros. Nessa altura ela lembra-se de nos dar banho e escovar. Não gosto de ambos.

A Ema já me explicou que ela tem variações de humor mais acentuadas do que os outros humanos. Ela nunca o diz, tem vergonha.

Eu gosto de acalmá-la, dormir encostada num lado enquanto a Ema faz outro tanto. Colar o meu focinho ao nariz dela e lamber a face que nunca tem lágrimas.

Queria poder dizer-lhe que não se esquecesse que o momento em que acorda é a altura do meu maior sorriso. Sim, os cães sorriem.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Sopras a manhã de mansinho
agitando as rosas do meu quintal.
Da noite, o perfume do silêncio
onde escutámos os nossos verbos.
Hoje acalmas o vento,
a chuva recolhe no céu cinzento,
eu distancio-me em pensamento.
Porque se esconde o tempo
girando em novelos,
rodopiando em segredo?

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Enrolo-me nas palavras de ontem. Tenho como fado conseguir perseguir o caminho das estrelas. Mas a noite vem e perco-me em expressões mil vezes contadas. O mar, esse, desbrava o caminho sabendo que estou ausente.

- Há doçura nas pétalas virgens,

há o inevitável, o desagrado, o tempo acumulado como castanhas à espera de serem assadas. Há. O ritmo, as sombras, cem mil vezes a mesma pergunta.

Deito-me observando a noite. Os bandos de pássaros desapareceram. Eu e as estrelas. E todas as forças que nos desenham.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

O sol inunda o meu quintal. Há no brilho a face da deusa antiga. Entrego-me ao calor, tenho sede dos dias onde os caranguejos evitam os pés na água cálida.

Queria que não fosses mais do que um brilho no canto do meu amor. Regressar a casa onde te encontro. Falar-te das ondas invernais que desafiam a terra. Do canto das andorinhas primaveris sobre os telhados de Lisboa.

Queria não ser uma sombra que se arrasta à espera que os ramos das árvores rocem o meu rosto.

Tenho esperado em todas as madrugadas, aquietado gestos inúteis, para que descubra o caminho na floresta que me abraçará.

domingo, 2 de outubro de 2016

Ontem era escuro, tu e eu apenas divagando em espírito. Com asas formei-me, em voos rasantes cresci, em ti aprendi os verbos. Era uma vez uma cascata salpicando verdades escondidas que só nós dois partilhávamos. Os meus segredos ficaram lá onde te encontro. Sei que somos amantes antigos, para além de todos os tempos, árvore e sol, mar infinito. Sei que estás sempre ao meu lado, a pele na pele, rosto com rosto. Ninguém sabe de nós, somente o vento que tudo escuta. Agarro na tua mão para esconder a minha. E nas pedras gravamos a nossa presença.




Quase quase em ti
Num mergulho em águas profundas
Renascer nas tuas palavras
Contigo regresar a casa.