segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

sábado, 15 de fevereiro de 2020


[Klee]

Um dia um dos Deuses dar-nos-á as mãos e retirar-nos-á uma parte de nós mesmos entregando-nos um segredo escondido, tão escondido que sementeiras passarão sem que as flores apareçam. Mas desse segredo virá uma outra paisagem, tão diferente, tão completa como a primeira e tão difícil de pintar como todas elas o são.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020


[Dali]

Não sei onde se fecham as portas, sei de infernos que subitamente aparecem, mas também se vão. Sei de flores que crescem, botões que resistem, sei de um céu que permanece mesmo nas alturas em que os meus olhos escureciam e não acreditavam que para além das nuvens existem rastos de raios. Nem sempre as linhas são certas e certo é o presente que nos engana, não há fio de prumo que nos leve de bruços, somente descidas tempestuosas e a espera prolonga-se até o céu clarear mesmo que demore anos a acontecer.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020


[Dali]

Onde as flores despontam, onde as ervas vingam, onde as oliveiras respiram encontro-te uma e outra vez. Tem os olhos escondidos por entre as folhas prateadas, os ramos finos que escondem o teu corpo. Vigias-me sorrateiramente como amante sempre presente, sinto o teu calor na pequena brisa que vem ao meu encontro. Não preciso de te ver para sentir as tuas mãos nas minhas, a pele retém a memória, os lábios estão quentes e os meus passos são apressados sempre que percorro o caminho porque sei que lá estarás.

À noite, quando as estrelas estão escondidas nas brumas do inverno, quando a minha vela acende por ti, a chama treme ligeiramente. São as paredes brancas a anunciar a tua sombra.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020




“Desta vez é certo”, dizia um dos poemas do livro “365 Histórias de Encantar”,
- Desta vez é certo! – Enquanto abria pela primeira vez a caixa do berbequim e tentava montar o punho auxiliar.
Para que serviria aquela palheta amarela? Não me parecia que a broca encaixasse na ranhura.
Abro o manual, há sempre um manual complicado, nada explícito, sem  bonecada necessária com as instruções passo a passo como eu preciso. Não, não mostra como se põe o punho e quando dou por mim está tudo desmontado. Olho de novo para aquele instrumento estranho, não pode ser difícil, tenho visto o meu amigo a utilizar aquilo tantas vezes e nunca o vi meia hora à volta de um berbequim.

Olho de novo, será tipo lego? Tento encaixar o orifício com cuidado pela parte da frente, vá lá, entrou, agora é só montar tudo de novo e rezar para que não sobrem peças. Só falta encarar a parede, a bucha e o parafuso.
A broca sabia qual era, não estava tão mal quanto pensava. Faço um ponto na parede, ligo aquela coisa barulhenta quando apercebo-me que tem duas velocidades. Afinal não li o manual como deve ser. Furo, furo, a broca fica na parede, tiro-a, coloco-a de novo, furo até que tento pôr a bucha com a ajuda de um martelo.
- Uma já estraguei. – Resmungo com os meus botões enquanto furo um pouco mais, coloco outra e dou-lhe uma martelada. A seguir o parafuso.
Admiro a minha obra de arte maravilhada. Ainda bem que a parede vai ser pintada porque devia ter colocado um pano quando usei o martelo.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020


[Dali]

A casa em obras, os pedreiros, o eletricista, os homens das janelas, todos vieram no mesmo dia. Lá em baixo o barulho de paredes a irem abaixo, de instrumentos barulhentos, pó, pedras, um caos que está a implicar comigo.  Deito-me debaixo do édredon tentando fugir, a cabeça lateja, o meu gato aconchega-se ao meu corpo, a divisão entre tudo acabado e o sossego. Acabo por sair da cama, desço, estou a mais, subo, sento-me, tento ouvir música e afastar a mente disto, desta confusão que parece não ter fim. A pilha de folhas por corrigir continua ao meu lado, os erros acumulados, e hoje não tenho concentração.

São todos simpáticos, os pedreiros, o eletricista, os homens das janelas. Não conheço todos os nomes, a minha memória perde-se, mas já me chamam pelo nome.

- Ó D. Teresa, vamos desligar a eletricidade.
- Ó D. Teresa, dá-me um café?

A casa está um caos como acontece quando há obras, não sei onde ponho as coisas; descanso o olhar nas oliveiras que me rodeiam e espero sempre não ter de ir à cidade abastecer-me, não quero ver mais gente. A minha civilização concentra-se neste portátil, num telemóvel e basta-me. Basta cinquenta anos de capital, de gente apressada, de gente com expressão triste e olheiras no rosto como provavelmente também eu andei.  

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020


[Gilles]

O negro do céu, a chuva persistente, nada lá fora é convidativo e recolho-me. O frio continua apesar da chuva, olho o monte de folhas que tenho para corrigir, insisto, desisto, procuro um meio fácil de não pensar, volto a considerar até que venho escrever estas linhas na esperança que o cinzento desapareça, na esperança de embalar e ressuscitar. Preencho o cérebro de pautas de música, vejo telas, procuro a arte que em mim não encontro e desespero com as mãos tão presas. O corpo encharcado em café, três voltas na sala, três vezes sentada, três vezes desesperada.
Tenho todo o sossego, tenho todo o espaço, por onde espreita o sol que me aquece as mãos e me devolve o sorriso? Onde caem os reflexos dos dias solarengos? E neste dia tão triste, neste dia tão acabrunhado não vejo mundos escondidos nem tão pouco consigo falar comigo. Fecham-se as portas vedando a chuva, as janelas quebrando o frio e levanto-me três fugindo dos mistérios da vida.