quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

[Paula Rego]





Hoje o compasso, o espaço de espera,
o negro como fundo em pedra,
ventre atolado de esperas,
decadente em todas as perdas.

Nasce corvo maldito,
dobrado será o seu instinto.




terça-feira, 28 de Outubro de 2014



"São hienas, são abutres esperando a nossa vacilação para que caiam em cima. São objectos que se dizem seres humanos que não entendo. Esses, esses à minha volta. Os outros, os que pretendem humilhar e espezinhar. Que raiva terão? Porque em vez de unirmo-nos vamos de encontrões uns contra os outros, cada um tentando cair na graça desses ditadores que não deixaram de existir. E lutam, lutam entre si esperando trepar no próximo e garantir o seu espaço no céu. Que céu? O financeiro, o do mundo do trabalho?

Acabou-se a camaradagem, somos lutadores de sumo tentando ganhar a medalha final que não sei qual é. Pregam as mãos dos que apanham às cruzes espalhadas por todo o lado. Hostilidade, desolação, acabaram-se os poemas e passo a escrever a sangue nas paredes. Não sei onde estou nem tão pouco consigo entender o que se passa à minha volta.


Começam. As cores nos pulsos, os movimentos circulares, as noites agarradas às paredes brancas que nada reflectem. Não sei o que quero nem em que acredito. Borra-se o futuro de que tantos falam e anseiam, aquele passo fundamental que nos levará ao mais misterioso dos lugares. Sou trabalhadora, sou jovem, estou velha. Quem grita? Não há marchas nem fogueiras, há gente louca que ocupa os lugares à minha volta. Ou terei enlouquecido? Por onde se perderam os fragmentos de vida?"

in "Recortes de um país moribundo", Teresa Durães 

sexta-feira, 24 de Outubro de 2014






Sábado passado, um bicho, sem ser convidado, entrou para dentro de mim. O insolente ainda teve o descaramento de se desmultiplicar e tudo atacar. Eram dores de costas, suores frios, a cama transformou-se em água benta. Hoje decidi que era hora de expulsá-lo, a ele e à sua prole. Urgências, pulseiras de cor, raio-x e trapalhadas. Comprimidinho debaixo da língua, o soro que caía irritantemente enquanto o meu nariz torcia-se debaixo de uma máscara. Um broncodilatador, disseram-me. E eu só queria um cigarro.





quarta-feira, 22 de Outubro de 2014


[Dali]








Odor a dor,
impotência nos rituais certeiros,
levanta o muro, levanta o cerco,
corre corre, teme temendo,
foge do quotidiano, há hostilidade no vento,
rajadas de partículas contraditórias,
saque do ego sem glória, 
em paisagens subterrâneas, curvas desconexas
numa linha só.



quarta-feira, 15 de Outubro de 2014






De tão longe que estás,
morrem lentamente os dedos que outrora te dava,
nesse tempo de palavras fáceis
que trocávamos quando as estrelas chegavam e o vento abrandava.

Porque era sempre assim, como as árvores que cresciam firmemente ano após ano.

Sei que sou um Teixo-Mulher,
solitário de folhas venenosas,
esbarrado nas profundezas de quaisquer memórias.

Quero reaver-te
mesmo tendo de barganhar a minha não-existência.





sábado, 11 de Outubro de 2014





* Deusa dos Olhos do Sol, placas de xisto gravadas da região de Évora



Hoje sou o nada preenchido
do vazio ridículo que nos cai sobre as mãos.
Sem pétalas, sem gotículas de humidade,
sem tão pouco a brisa que contorna o rosto,
máscara branca sobre branco
onde se perdem as dimensões
transformando-nos paredes inexistentes.

Não há esquecimento,
nunca o há,
a tábua rasa desconhece o ponto quente
que a marca lentamente.

Esses orifícios?   

Deusa dos Olhos do Sol que me protegem
enquanto o assento não é assentado




quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

[Dali]




Silenciosos cânticos longínquos,
balas perdidas em pacificação furtiva,
desvio do interior que já vai sem asas.

Madrugadas vazias sem esplendor
em cores desvanecidas.