sábado, 20 de julho de 2019


"De todo o lado, sinos e telhados. O frio construíra uma nuvem gelada em torno da união das pequenas janelas que sobressaíam dos amarelos, verdes e azuis dos edifícios. O vento gelou-lhe o nariz, as mãos escondeu-as nos bolsos. Sinos e sinos, a cidade parecia que enlouquecera. Luís pôs o braço em cima dos seus ombros e puxou-a para si.
- Aqui não há engarrafamentos nem pressas. Subimos à época medieval onde a igreja é mais importante e o centro. Onde Deus impõe a sua presença para que nunca O esqueçamos. Certo? Errado? Deus não existe e apenas fomos alienados? Ou será a nossa pressa que nos leva a ignorar? Escute os sinos, Ana, sinta cada vibrar, ouça a conversa que surge entre eles. Feche os olhos, concentre-se no som, só no som. Esqueça esta paisagem, esqueça tudo à sua volta, o vibrar ao longe, o metal frio, os diferentes sons reproduzidos. Um, outro, vários, de todo o lado. É impossível negar que lhe é indiferente porque os ouve e os sente vivos, como se o seu badalar não fosse produzido por seres humanos, mas por autorrecriação. Mas os sinos que ouve são várias vozes, não uma só. Um deus multiplicado em vários."

"diz-me tu, o que é o amor?". gratuito https://www.kobo.com/pt/pt/ebook/diz-me-tu-o-que-e-o-amor

quinta-feira, 18 de julho de 2019



Acredito que Portugal pode-se manter num país ecológico se todos nos envolvermos. Recuso baixar os braços, não será a mim que afectará, morrerei antes disso ou estarei velha demais para me preocupar com a subida do mar e da temperatura. Digam-me, terei netos? Irá resistir a nova geração? Digam-me, porquê tudo isto? Digam-me, porque encolhem os braços e recusam-se a ver o que está a acontecer?

Não, desta vez não é Helena de Troia que gritará, nem eu, são os cientistas. O que querem da vossa vida porque não entendo a vossa posição?

Enquanto estão sentados nas vossas cadeiras, as uvas amadurecem um mês antes, a água escassa, os pássaros estão aflitos, as abelhas em extinção, os ursos polares procuram refugio nas populações, quantos mais gritos precisarão?

https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=alertalitiopeticao&fbclid=IwAR0zvHeigbwE1pXjiCcjq_5Dpv0zjDGuTmGIJi8SVFiZZQcGrNv4QKMhpsQ


(uma das coisas curiosas dos blogs é que sei quem visitou a minha página e ignorou o meu apelo. Cada um tem o direito da sua opinião, mas terão de saber que serão os assassinos de todos nós porque nada fizeram.

as uvas estão maduras dentro de uma semana, só deveriam estar em Setembro. 
40% do gelo da Gronelândia derreteu.
Os pólos estão a derreter.
Os animais a morrer.
Para que serve um poema se ninguém estará vivo para ler?)

terça-feira, 16 de julho de 2019



[Fotografia de Luís Stuart]

Não, não posso carregar mais o mundo, não, não aguento, tenho de respirar os carvalhos, tocar nas suas folhas e sentir a sua textura, sentir os Deuses e saber que a natureza ainda existe.
Não, estou cansada da placidez do Homem, da vontade de gritarem que têm poder. O que serão quando o céu se revoltar e o mar se cansar de estar no mesmo sítio e invadir as planícies? O que farão os aclamados heróis? Chorarão como todos nós, fugirão como todos, mas serão os assassinos de todos nós.


#PortugalSemMinas

https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=alertalitiopeticao&fbclid=IwAR1AQjxhbJJwbp_GPn28Ovl9T2nSIHVWF_T5kaZ-Ycxxg8c3QMdOnOMLG_A



Tenho uma amiga no Algarve que me disse, as uvas estão maduras dentro de uma semana, só deveriam estar em Setembro. 

40% do gelo da Gronelândia derreteu.

Os pólos estão a derreter.

Os animais a morrer.

Até quando vão ficar inconscientes?



terça-feira, 9 de julho de 2019



“O cetro do Guardião”, Saga “Os castros”, #2,Teresa Durães

Um novo livro ou encaixotar a tralha que tenho em casa porque me vou mudar? A escolha não foi muito difícil, ignorar o presente como se tudo acabasse por se resolver. Papéis para aqui, papéis que caducam, meses que passam, bancos e compradores, não quero saber disso, entrego-me à fantasia, à mitologia portuguesa, à magia.

A minha filha diz que só escrevo coisas do passado que ninguém quer saber. O livro passa-se na época dos castros, dos lusitanos, considerando a sua estrutura social, os seus costumes, a sua religião. Mas é um livro de literatura fantástica, o segundo livro da saga “Os castros” sendo o primeiro “O encantamento do vento”. Este relata a segunda geração.

O que seria da nossa vida sem os encantamentos e as aventuras fantásticas em luta pelo bem, em luta pelo que está certo? Não sei, sei que vagueio por bosques, sinto o aroma dos pinheiros, vejo as folhas castanhas, colho fetos onde me deito e sinto-me feliz.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

[fotografia de Luís Stuart, edição Teresa Durães]

Outrora amei-te lá, lembras-te? Corremos a serra tão bem nossa conhecida, saltámos de rocha em rocha, mergulhámos os pés nos riachos, sabíamos estar perto dos Deuses por isso percorremos os caminhos em S. João d'Arga, sentimos a brisa, deitámo-nos na relva como em milénios foi feito e amámos sob o olhar da lua, selámos a nossa união mais uma vez, nesta vida como em tantas outra o fizemos.

Agora pedem pedras, vamos dar pedras, pedem água e água vamos dar.

Nunca mais nos encontraremos neste lugar sacralizado, não neste, teremos de procurar outra serra onde o intocável permaneça, onde os Deuses não precisem de se esconder.



(* a exploração do litium, para além de ir abrir uma cratera na serra, irá desviar cursos de água e contaminá-la
Petição pública https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT93607&fbclid=IwAR21HCPonCu1iJNas4yma7pOyBqE-j_DsankkoY_MyCzT_rBn5dRHIK0PS4)

quinta-feira, 4 de julho de 2019




[David Wiles]

Quando voguei nas estrelas e entreguei-me ao universo soube que havia mais para além de mim, para além de todos nós. Espreitei a noite, as corujas sussurraram-me, os roedores caçaram, a natureza equilibrou-se. Entreguei-me aos sons, aos reflexos, a todas as cores brilhantes que se destacavam na noite.

Queria paz, tive paz, queria solidão, solidão tive, consegui abraçar toda a existência, de tão grande que era subjugou-me as palavras, a música, as cores.

Fiquei presa às pedras que ligavam os dois mundos, aguardava a busca do Homem pelo infinito, guardava as insígnias que retificavam o mundo, esperava a procura pela magia e confiava no ser que sempre vingou pela arte.

Perguntava, onde estavam os filósofos e os pensadores? Onde paravam as religiões?  Onde buscavam os adoradores da natureza que não acreditavam que esta tinha alma?

terça-feira, 2 de julho de 2019

[Tela de Silvestre Raposo]

Hoje voei pelo campo, apanhei bagas e descansei num tronco de uma árvore. Foi um voo afoito, procuram por mim os caçadores, os rapazes com as fisgas, os loucos. Tenho as madrugadas para ser livre enquanto os Homens dormem, enquanto a natureza respira. Não sei quando isto começou, perde-se a memória nas fugas, nos esconderijos, na sobrevivência. Amanhã recomeçará tudo de novo, a espera, a incerteza, o medo. Preciso de continuar para sobreviver, esconder-me, procurar, não sei quanto tempo aguentarei, estou só, estou escondida.