segunda-feira, 6 de julho de 2020

Estou cansada
Bastante cansada
Cansada demais
De tanto cansaço
Levanto-me todos os dias
Sabendo que ficarei cansada
Cumprindo
Sempre cumprindo
Ouvindo e cumprindo
Fazendo e cumprindo
Regresso
Continuo cansada e cumprindo
Ninguém sabe como estou
Ninguém
Estou cansada das palavras
Dos gestos e das explicações
Cansada de dizer que estou cansada
Se não cumprisse
Não estava tão cansada
Nem haveria palavras
Nem gestos explicações regressos
Teresa Durães





Veio com o vento a uma velocidade de um furacão. Devassou a passagem onde passou, mas não em vão. Surgiram sorrisos nos lábios, cintilaram olhares e provocaram alegria. O que era passado desapareceu e transformou os dias. Pousou a cabeça no ombro; só queria descansar e aninhar. Deixou-se estar: o aroma da pele soltava-se lentamente em adormecimento puro. Minutos roubados para encarar outro dia; minutos urgentes que lhe davam vida. Pedaços de um quotidiano não vulgar. As cores preenchiam e deixou-se vogar pelo inteligível. Diz-me tu, o que é o amor?

sexta-feira, 3 de julho de 2020


Quero ser
um sino dobrado
tocando nas manhãs lentas
nos verões quentes e desertos.
 
Um monte estendido esperando a paz
na planície amarela e deserta
sem consciência do seu princípio e fim.
 
Uma toca de coelho
cheia de subtis caminhos
que intercepta com outros
criando a malha escondida.
 
A água que se infiltra
pelas fendas invisíveis.
 
A raiz que desventra o muro.

(dedicado à minha filha, escrito há tempos, parabéns filhota!)

quinta-feira, 2 de julho de 2020







Um espaço e outro, e espaços entre espaços,
e vazio entre uns e outros.
Existem raízes profundas que perfuram muros
outras tão soltas.
Existe o mar com o seu território tão próprio
e na tua lassidão, na tua insolvência,
não vês que há caminhos paralelos,
tão confusos onde nada que queira perdurar irá se absorver, absolver.
Somos corpos mas nem todos estão adormecidos.

Teresa Durães in "Teixo-Mulher, gratuito para download na loja kobo.

domingo, 28 de junho de 2020


Que a noite não acabe,
Que não me digam que não pode ser assim,
Que a lua suba no céu
E eu a vê-la e a vê-los todos,
Os amigos, os problemas.

quinta-feira, 25 de junho de 2020






Hoje não houve fantasia, hoje não houve flores e campo e árvores. Entreguei-me, vivi e sofri, mas vivendo e sofrendo faz parte da vida. Nego a minha existência e peço por outra que me é negada. Correm rios, abraço florestas e o que me sobra são as minhas mãos que já nem sabem o que fazem. Soubessem teriam evitado as correntes, mas não, insistem em novas imagens. No fim sobra um corpo cansado, estafado e não concluído.


É tarde, tão tarde que a minha licença de vida já acabou. Ignoro-a como tudo o que é inútil: o sonho, a inconsciência, a espera. Ignoro todos os sinais da noite para escrever mais uma linha, uma linha que sairá cara do meu corpo. Mas se não fossem as transgressões o que faria aqui? Por isso deambulo entre personagens e continuo acordada e não entendo porque sou diferente.