terça-feira, 16 de Setembro de 2014



[Dali]




Não sei de onde veio a tua presença. Simplesmente apareceste e ficaste comigo. Cresci contigo no meio das árvores, com os pés molhados no tanque, a voar nos ramos altos das árvores. Tão nova. Depois, depois tornaste-te amante, tronco sólido onde te abraçava. Contigo falava. À noite, éramos debaixo das nossas capas à volta da fogueira. Não precisávamos de conversar, tu entendias-me e eu confiava. Na mão que me escondias, sorriso paciente. Um dia disseste-me adeus, a despedida dos vinte anos que estivemos. Foste mas despi a capa inútil.

sábado, 13 de Setembro de 2014


[Almada Negreiros]





Tentei ver-te no céu. Talvez por culpa das nuvens ou por o teres abandonado, fiquei na noite densa, dessas onde todos os nossos segredos são revelados em instantes inquietos. Ridículas palavras estas, a lamentar o que não tenho nem devo nem posso. Sou uma mulher, não sou? Nestes enredos de palavras porque não sei falar, abandonei-me num rio qualquer que desaguava por ali. Secamente. Procuro-me? Que doidice, tão gerada onde o nada resigna-se. Cuspo tolices, entrego-me ao acaso, venham espadas, venham floris, estou desguardada.





sexta-feira, 12 de Setembro de 2014



[Paula Rego]



Ouve os sons na ausência da percepção.
Será o teu corpo o palco de todas as tentativas,
destruirão o resto do tempo arrastado,
pétalas do teu cabelo cairão entre os dedos.
Queres descansar desistir  flutuar.
Silhueta desgastada e esgotada.



segunda-feira, 8 de Setembro de 2014








Concêntricas cores a florirem,
não tenho para onde ir.
Demónios em olhos circundantes,
escondo-me na neve branca,

mundo secreto dos brinquedos,
de natas cacos cascos,
espaço retorcido pincelado inacabado.

 Nove anéis infernais,
para onde vais?
Nove esferas celestiais,
semente em corpo diferente.





sábado, 6 de Setembro de 2014








Fala-me das palavras escondidas,
perturbações intensamente antigas,
geradoras dos medos das sombras cambaleantes,
onde me sento respiro amo espero-te e amanheço.

Fala-me de ti
dos gestos casuais em tempos de guerra
em torno do tronco enraizado,
folhas voláteis que nem se apaixonaram.

Fala fala fala,
sê melodia escorrida
contorna-te o sol nas madrugadas eternas

porque te quero
corpo espírito em cada espaço, em nós.




Dualidades. Dez anos de obscuridade, a raiz do cabelo, tensão nos dedos que marcam o braço. Em torno deste, em torno de todo o tronco. Rasgadas as emoções reputadas de supérfluas, transviadas calcadas esquecidas. Venceram, venceram, sou um corpo perdido.




quinta-feira, 4 de Setembro de 2014



[José Faria]



Das notas brancas, de todas as nossas cores. Onde estás, agarrada ao teu próprio corpo para te encontrares. Passo largo, pulo no vazio, tu estendes-te onde alongo o meu braço. Calor suor descanso, onde estamos? Aqui, ali reconhecendo sinais de segredos partilhados? Passo largo, pulo no vazio, onde estás onde nunca te vi? Emaranhado de teias enredadas que queres afastar. Anda, passeemos entre as árvores onde a brisa acarinha, reconstrói-te enquanto as nuvens passam.  Chama cristalina.