quarta-feira, 22 de junho de 2016

As mãos não acordam
para o silêncio dos dias
levando consigo pedaços
de pétalas prenhes de histórias.
Corre o rio sem barqueiros,
deslizam as margens pedindo
a sinfonia do retorno.
Corre o corpo sem alcançar
a certeza das rochas.
Corre, corre, corre
enquanto o dia finda.


sábado, 11 de junho de 2016

Ouço o cantar da madrugada
enquanto os pássaros matutinos
fazem-se anunciar.
Há no sabor da noite vozes antigas
que guiam o movimento das mãos.
Há no sorriso paz.


terça-feira, 7 de junho de 2016

"É Janeiro e a lareira está acesa, é Junho e a praia já tem gente; sento-me numa rocha, na areia, em qualquer lugar e sinto o vento. Tenho memórias nas mãos, gritos sufocados, uma dor persistente. Sei-me extremos, barco que navega pelas correntes, perdido no seu rumo, fugindo de ambas as margens por onde passeia a loucura. Quando o caminho clareia. Sei-me nesse outro lado onde ninguém vai, onde não há encontros e persiste o silêncio.

É noite, é dia, o desassossego é acompanhante, criem as malhas perdidas, resgatem o meu som. É silêncio, frases perdidas na inconstante vaga."

Teresa Durães, in "O outro lado do silêncio"

sábado, 28 de maio de 2016

Sentavas-te ao meu lado
escurecendo as sombras das nossas mãos
no silêncio de todas as palavras.
Nada mais para além
da clareira da eternidade.
Gestos lentos; há precisão
na harmonia do movimento concreto
tão antigo quanto os carvalhos.
Sabia-te pela noite fora,
hora dos mistérios insondáveis
não proferidos para não serem perdidos.

Um dia negaram-me esse meu sono
trazido de longas histórias antigas
restando-me erva seca em terra batida.
Das mãos preenchidas
restaram mortalhas alheias,
perdi-me em bosques de pedra,
construí musgo em areia
e deitei-me, esperando, a derradeira.

Mas não desististe,
infiltraste frestas em muros cerrados,
compuseste formas em copas de arvoredo,
foste longe no teu intento,
foste tu, imagem do meu pensamento.

in "Passos sem rasto", Teresa Durães

domingo, 1 de maio de 2016

Recolho as lágrimas do orvalho primaveril.
Há na noite a fragrância da liberdade dos passos,
ecos de voos sob a lua onde as asas eram raios
de verdades na plumagem. Tocam acordes de novos dias,
conquista nas mãos prendida. Vergam os olhos,
há acordes de guitarras portuguesas,
longa história em semente escondida.
Sorrio. Serei eterna.


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Deixo cair o tempo que aí vem
no regaço laço de quem bebeu
em tragos o seu fado.
Os dias foram transformados em acasos,
restos de uma longa espera,
chuva em pedaços largos.
Tenho sementes a plantar,
árvores que teimam enraizar,
um jardim a inventar.


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Passo a passo vejo as memórias
nas mãos amadurecidas. Foram frutas
outrora doces colhidas numa manhã de orvalho.
Olho-as como quem vê um caminho desbravado
até à suave brisa sob as copas das árvores
 em dias de sol e carícias.
Olho-as e tornam-se jovens, de novo,
há tantos segredos guardados
esperando virem a descoberto
traçando um caminho novo.
Há floresta infindáveis
aguardando o meu gesto.
Guardo as memórias, abro a janela,
ouço o primeiro canto e sei-me completa.