segunda-feira, 18 de junho de 2018

A sala caiada. A noite, coberta. Não estavas lá - era o tempo para mim. Uma harmónica preenchia o vazio das paredes. As paredes, grossas e antigas. A ausência de flores como se não existisse lugares bravios.

Vivi acordes nunca antes experimentados tendo sempre a esperança que de longe me tivesses ouvido. Preenchi as paredes, pintei o caminho para mim e desejei que as estrelas iluminassem o estreito carreiro entre nós.


Sei que as tuas palavras eram para serem um bálsamo. Não foram, foram atiradas para o vento que não alcanço. Tolhi o corpo sentindo-me atraiçoada. Todos os invernos diluíram no mar para serem esquecidos.

Tanto tempo que te vivi.

Hoje tenho uma vela que não acendo. Restam-me recordações que deslizam nos meus dedos sem querer recordar.
Tantas as noites em que estivemos sós, perdurando confidências e carícias. As estrelas iluminavam-nos tornando a noite quente um refúgio para os sentidos. Estendemos o carinho pela a areia branca onde nos sentávamos. Vi o céu, conheci o amor, ouvi o mar e soube que a espuma branca apagava os nossos passos na areia. Eras um refúgio onde descansei.


Ontem vi-te após tantos anos. Sei que procuravas na minha expressão toda a comunhão que tivemos. Contudo, como poderia estender a mão tal ramo que procura o sol? Os meus dedos não são galhos, o meu corpo, tronco. E a minha vida deixou de ser natureza.


Recordas-te da minha infância? Eras a voz da minha imaginação como se fosse possível amar-te sem te encontrar. Cresci vendo-te desenhado nos cadernos de capa preta onde os meus mistérios repousavam. Mais tarde rasguei-os em fúria, arrebatando esses anos longínquos. Queria ser livre, precisava de matar o passado.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Foram intensos os dias que passamos juntos, tu, a brisa, eu, um caule desprotegido. Mas amamo-nos, vivemo-nos como se fosse possível parar o tempo. Mas envelheci, a crença de outrora vacilou com o novo mar que a costa desconhece. Fosses o meu semi-deus poderíamos prolongar os dias, estendê-los numa suave areia. Porque a minha humanidade não consegue te reter.

Sei de um dia em que o brilho do sol se projetará no mar de verão e tu recordarás as minhas mãos.
Consegui pegar na tua mão. Não te sei dizer como tive coragem. Segurei-a até perder a razão de a reter.

Em ti crescem flores, estendem-se ramos e no teu abraço encontro as melodias a crescerem.

in "O sopro", Teresa Durães