quinta-feira, 17 de outubro de 2019





- O que fazes? – perguntam-me as vozes furiosas enquanto eu empacoto as minhas coisas. – Para onde vais? Para onde te escondes?
Tão errados, tão afastados da vida, a vida não é alcatrão, dêem-me uma árvore, duas, tentarei duplicá-las, eu que nada sei sobre isso, mas sei que a vida não é o relógio e o contrarrelógio nem tão pouco a ausência da lua.
Viram o luar nestes dias? Reparam nas sombras da lua sobre as árvores, na placidez da sua luz? Repararam que o mundo avança lentamente indiferente ao que querem, ao que pedem, ao que vivem? E assim continuará até a Terra estar farta do Homem e o expulsar.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019




Um pássaro acordou-me, pensei que era um rouxinol, mas era um verdilhão. Mal os conheço, mas ele insistiu em apresentar-se, tudo isto antes de beber o café da manhã. “Anda, está sol”, disse-me, “anda, vem respirar o ar da manhã, quando todas as cores vibram e os pinheiros mansos falam entre si. “Não, não posso, tenho tanto para fazer!”, tentei fazer-lhe ver. Mas ele bicou na janela, saltou entre uma pata e outra expressando o seu espanto, a natureza no mundo e o meu mundo fechado entre paredes.
Resolvi não hesitar e saí atrás dele que voou para longe. Mal o alcançava, custava-me correr daquele modo e comecei a pensar na minha sensatez. Até que vi homens de serras elétricas prontos para derrubarem pinheiros mansos, prontos para matarem e aniquilarem. Numa fúria aumentei o meu ritmo, atirei-me a um que num gesto mandou-me ao chão.
“Quem pensas que és para nos impedires?”
O verdilhão estava pousado num ramo e eu no chão, eram três e eu não era ninguém.
“Não sou ninguém, mas não ousais nem ferir porque tereis de me matar para o fazer.”
Eles riram-se, ligaram as motosserras e derrubaram uma a uma, três árvores enquanto me empurravam.
Vieram os camiões, vieram todos os outros homens e eu impotente, o verdilhão pousou no meu ombro e bicou a minha orelha.
“Hoje não,” segredou-me, “talvez nunca. Mas vistes a manhã.”

domingo, 13 de outubro de 2019

[Paula Rego]

Deixaram-me gritar e eu gritei. Deixaram-me amaldiçoar e eu amaldiçoei. Deixaram-me chorar e eu chorei. Nada disso me satisfez e fugi da loucura dos prédios, do betão, do alcatrão e percorri veredas, caminhos errantes, trilhos mal marcados até que me perdi e caí no chão angustiada. Os castanheiros rodearam-me, cercaram-me, não me deixaram sair dali. “O que tens?”, sussurrava o vento na sua voz, “o que andas a fazer?”, murmurava a brisa, “para onde corres sem destino?”, acabaram por perguntar, mas eu na minha angústia não sabia o que dizer. Aos poucos os arbustos aproximaram-se, com o seu aroma tranquilizador sosseguei, os esquilos desceram das suas tocas, os coelhos aproximaram-se e cheiraram-me. “Tu és o inimigo”, declararam e fugiram. “Não, não sei quem sou”, tentei dizer, mas os animais afastaram-se com medo de mim menos as árvores que continuaram imóveis circundando-me. “Quem és e o que procuras?”. “Quem sou?”, pensei ainda mais angustiada, um resto de uma sociedade que não compreendo nem quero, como poderia explicar? “Sou o que procuro,”, disse-lhes num murmúrio, “não sou vento, nem terra, nem fogo e tão pouco água, sou um ente perdido num mundo proibido para mim”. “E o que procuras, então?”, insistiram. “Quero vida, quero noção, chega de razão, chega de solidão, chega de devorar o infinito, esse quero-o num vislumbre só para saber que existe”.




O verão estendeu a mão ao outono e este entrou calmamente sabendo que era a sua hora. Estranharam os transeuntes, os ausentes, os indiferentes. Estranharam todos que não olham para o céu onde o sol se encontra, onde se vê a lua ou a copa das árvores. Os pássaros, esses, já tinham feito a sua migração e ninguém reparou nisso. O Homem com a primeira chuva consultou o calendário, verificou os dados e pensou, sim, é outono, mas não espreitou pela janela nem olhou o horizonte. As raras árvores das cidades murmuraram entre si não compreendendo porque nem todos os animais estão sintonizados, porque andam desesperados e se vingam nos restantes, os outros, os esquecidos, os indefesos, os desprotegidos. Por isso calaram-se e secaram as suas raízes e deixaram o Homem, o único animal sobrevivente, viver a sua vida contente.





[Dali]


Não, o meu maior medo é dormir, deixar a loucura à solta, tão só, tão sozinha, tão desgovernada. E, enquanto eu fecho os olhos e esqueço o mundo este aparece ainda mais feroz. Não devia ser permitido, deveríamos ter um momento para nós, um momento de paz, um refúgio da loucura que nos envolve todos os dia. Mas não, o mundo persegue-me tal como a minha sombra o faz incansavelmente.



Os olhos abrem bem abertos, as luzes sufocam o corpo, o corpo mole, a cabeça gira, a vida entra em remoinho que mais ninguém vê, o início da loucura, o início do início. Não, não sou eu, são esses corpos que se movem livremente pensando que são senhores de si, resguardo-me, fujo, não os quero, essa liberdade que dizem serem a verdade, essa rebelião em nome das suas intenções que pensam serem puras. Não, fecho os olhos, escondo-me de novo, não à mentira, ao desengano, não à ignorância que deixei de suportar, não, irei dormir de novo, não, irei acordar e viver contra esta maré de loucos.

sábado, 12 de outubro de 2019




Quiseram-me aniquilar, apagar a minha existência porque os meus bosques são diferentes e eles contêm pássaros de todas as cores onde o Homem está interdito. Fechei horizontes dos outros, levantei espinhos e resguardei carvalhos antigos, teixos quase extintos, sobreiros onde não são violados, pinheiros altivos. As águias levantaram voo picado, os grifos rodearam a presa e zelaram por toda a natureza. Os lobos apareceram com a peeira, levantaram fronteiras, defenderam o território e não deixaram atravessar para além. Os andorinhões espalharam o alarme e as restantes árvores ficaram atentas. Mas o rio subiu, as águas revoltaram-se, espraiaram nos prados inundando o espaço ocupado nas aldeias afugentando todos os que restavam e eu deitei-me nas ervas descansada.