sábado, 28 de maio de 2016

Sentavas-te ao meu lado
escurecendo as sombras das nossas mãos
no silêncio de todas as palavras.
Nada mais para além
da clareira da eternidade.
Gestos lentos; há precisão
na harmonia do movimento concreto
tão antigo quanto os carvalhos.
Sabia-te pela noite fora,
hora dos mistérios insondáveis
não proferidos para não serem perdidos.

Um dia negaram-me esse meu sono
trazido de longas histórias antigas
restando-me erva seca em terra batida.
Das mãos preenchidas
restaram mortalhas alheias,
perdi-me em bosques de pedra,
construí musgo em areia
e deitei-me, esperando, a derradeira.

Mas não desististe,
infiltraste frestas em muros cerrados,
compuseste formas em copas de arvoredo,
foste longe no teu intento,
foste tu, imagem do meu pensamento.

in "Passos sem rasto", Teresa Durães

domingo, 1 de maio de 2016

Recolho as lágrimas do orvalho primaveril.
Há na noite a fragrância da liberdade dos passos,
ecos de voos sob a lua onde as asas eram raios
de verdades na plumagem. Tocam acordes de novos dias,
conquista nas mãos prendida. Vergam os olhos,
há acordes de guitarras portuguesas,
longa história em semente escondida.
Sorrio. Serei eterna.


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Deixo cair o tempo que aí vem
no regaço laço de quem bebeu
em tragos o seu fado.
Os dias foram transformados em acasos,
restos de uma longa espera,
chuva em pedaços largos.
Tenho sementes a plantar,
árvores que teimam enraizar,
um jardim a inventar.


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Passo a passo vejo as memórias
nas mãos amadurecidas. Foram frutas
outrora doces colhidas numa manhã de orvalho.
Olho-as como quem vê um caminho desbravado
até à suave brisa sob as copas das árvores
 em dias de sol e carícias.
Olho-as e tornam-se jovens, de novo,
há tantos segredos guardados
esperando virem a descoberto
traçando um caminho novo.
Há floresta infindáveis
aguardando o meu gesto.
Guardo as memórias, abro a janela,
ouço o primeiro canto e sei-me completa.


segunda-feira, 11 de abril de 2016

Parto numa madrugada fria em inquieta melancolia
procurando o sussurrar do vento, encontrando o silêncio.

Dizem que para além das colinas
os pássaros são brilhantes,
as árvores sussurram vozes antigas,
os prados são sorrisos de flores luzidias.

Dizem que há novos dias.

Parto em passo trôpego dos tempos cansados,
quero um sopro, uma palavra,
um cantar de afagos, 
uma mão apertada.


sábado, 2 de abril de 2016

quinta-feira, 31 de março de 2016

Estás, não estás?
Nunca estiveste,
desisti do teu amor  
deixando-me ir com os pássaros
sem conhecer outro passado.
Estás, nãos estás?
Se nunca estiveste.

És, não és?
Não serás realmente.
Medo, culpa, agonia,
não quero que estejas,
sejamos pássaros desencontrados
navegando contra o vento,

não és, não haja alento.