Sexta-feira, 9 de Março de 2012



* fotografia Teresa Durães


Estupidificar e não pensar. Passar a pedra pedra sem que exista a mais hábil mão que me possa transformar. Descanso eterno. Até ao beijo

Terça-feira, 6 de Março de 2012






Perguntaram por mim????

Domingo, 4 de Março de 2012

[Dali]




A voz do silêncio insinuando-se, multiplicando-se, devorando o vazio. A loucura realçada marcha sem hesitar roubando espectros, apoderando-se dos corpos, dominando as certezas existentes. São os catraios das ruas aclamando a invasão, berrando gritos de alarmes não acreditados. E caem no chão os incrédulos, esqueletos sugados de ideais. Sobram restos, pedaços inanimados.

Quinta-feira, 1 de Março de 2012



Há no silêncio das fotografias
O cantar do mar
Odor a maresia.

Há palavras que não precisam de ser ditas.

Há gestos inacabados que destroem vidas
Recorro insistentemente ao mar que tudo purifica.

Há tempos inúteis passados
Mãos que prendem
Sem nada entenderem

Solta rasga destrói laços
Derruba o inútil
Mergulha no aconchego


*fotografia de Teresa Durães

Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

Nunca me importei de não ter irmãos. O meu pai, Andero, chefe dos chefes dos castros, nunca mais se casou após a morte da minha mãe durante o meu parto. Aliás, cedo começou a dedicar todo o seu tempo aos outros e deixando nada para mim. Talvez por isso tenha tido uma liberdade que nenhuma rapariga costuma ter. Não sendo um rapaz, com necessidades de treinar para guerreiro, fui criada pelo meu populus em geral e por nenhum em especial.

Sempre que podia fugia do jugo dos mais velhos. Enquanto as raparigas ajudavam nos campos e teares, eu aprendi sozinha a arte da caça, nadar na lagoa perto de nós e procurar bagas e cogumelos comestíveis. Por vezes desaparecia durante alguns dias sem que Andero desse por isso. Dormia debaixo do braço de Ataegina e deixava que os dii da montanha protegessem-me. Levei uma infância bastante solitária pois os rapazes da minha idade desprezavam-me pelos meus cabelos de rapariga e as raparigas, pelos meus modos de rapaz. Mas nada disso me incomodava, eu era livre, comungava com os Deuses a toda a hora e desenvolvia as minhas aptidões sem governo.

A arte de cavalgar não era nenhuma novidade para mim. Desde que me lembro, visitava as cavalariças para estar com os cavalos e mimava-os com cenouras roubadas na nossa cozinha, fazia-lhes festas e contava histórias do meu dia-a-dia. Os tratadores riam-se de mim mas ajudaram-me a aprender a montar. Cedo deixei de necessitar deles, saía com a minha montada preferida, Erlis de seu nome, e vasculhava a montanha pelos caminhos mais ousados, sentindo-me feliz. Enquanto ela pastava, aproveitava para caçar um coelho, preparava uma fogueira e assava-o encantada no meu reino.

A loucura reina entre Suevos e Visigodos. Liuva, rei visigodo, resolveu dividir o seu reinado com o irmão Leovegildo, ficando este com a Hispania. Talvez com o fim de tornar o seu mais forte, este entregou Sevilha ao seu filho Hermenegildo. Instalou-se em Toledo elevando-a a cidade real. Mas Leovegildo não pensou que a mulher do seu filho, Ingunda, o convertesse ao Cristianismo, aliando-se, assim, ao rei suevo Miro e aos romanos, seus inimigos.

Não só os reinos conquistadores estão instáveis como o catolicismo passou da humildade e obediência para a intolerância. O que era uma doutrina de pura fé passou a ser instrumento para os descrentes e ambiciosos. Leovegildo, ariano, viu as malhas tecidas pelo seu filho enrolarem à sua volta mas conseguiu dar um passo à frente – reuniu um exército para surpreender os suevos que iam de encontro a Hermenegildo. Cercou a cidade até que este fosse obrigado a fugir, capitulando nas mãos do pai.

Não é fácil para nós, povo conquistado, resistir às vagas de desertores de exércitos que apenas pretendem pilhar e violar as nossas mulheres, nem tão pouco sobreviver pois cada vez menos é possível comercializar os nossos produtos. As estradas estão instáveis, diminuem o número de castros que resistem e somente pouco, como nós, que vivem em terras altas, nas montanhas, lugar pouco apetecível para conquistas, conseguem manter as antigas tradições. Os monges invadem todos os lugares querendo espalhar a sua fé e, ao contrário de outrora, deixaram as subtilezas e partiram para as ameaças.