segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Abro as asas e os anos devoram-se
num infinito movimento.  Reaprendi
as formas e distanciei-me das sombras.
Hoje os meus olhos estão mais límpidos
que outrora quando navegava nos novelos
dourados de construções falsas.
Fecho as asas e sereno.
Agradeço aos Deuses antigos.
Respiro as folhas das árvores,
os padrões voltam a brilhar. 


Fala-me
dos dias ensoleirados,
do tempo bem ensaiado
onde te escondes e vives.
Fala-me de controvérsias
onde o errado está certo,
onde por ti me perco
em dias tão destemidos.
Diz-me que me queres,
fonte segura do meu afeto,
segredo bem secreto.


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Cresceste onde o vento te via,
correste prados verdejantes
enquanto alguém te esquecia.
Caminhaste abismos desconcertantes
pensaste que não eram relevantes
e caíste numa madrugada fria.
No fundo, fundo
pouco ou nada existia:
- Temperos parcos, balcões vazios.
Bracejaste e nada conseguiste.
Arrancaram-te desse torpor,
explicaram a tua vida,
Tens em mãos esse terror
de duas grandes medidas.
Entre revoltas e quedas
tentaste erguer
caindo em seguida.
Cantam os pássaros num novo dia,
escutam-se os Deuses antigos,
há sombras escondidas,
reflexos do sol onde há vida.


quarta-feira, 22 de junho de 2016

As mãos não acordam
para o silêncio dos dias
levando consigo pedaços
de pétalas prenhes de histórias.
Corre o rio sem barqueiros,
deslizam as margens pedindo
a sinfonia do retorno.
Corre o corpo sem alcançar
a certeza das rochas.
Corre, corre, corre
enquanto o dia finda.


sábado, 11 de junho de 2016

Ouço o cantar da madrugada
enquanto os pássaros matutinos
fazem-se anunciar.
Há no sabor da noite vozes antigas
que guiam o movimento das mãos.
Há no sorriso paz.


terça-feira, 7 de junho de 2016

"É Janeiro e a lareira está acesa, é Junho e a praia já tem gente; sento-me numa rocha, na areia, em qualquer lugar e sinto o vento. Tenho memórias nas mãos, gritos sufocados, uma dor persistente. Sei-me extremos, barco que navega pelas correntes, perdido no seu rumo, fugindo de ambas as margens por onde passeia a loucura. Quando o caminho clareia. Sei-me nesse outro lado onde ninguém vai, onde não há encontros e persiste o silêncio.

É noite, é dia, o desassossego é acompanhante, criem as malhas perdidas, resgatem o meu som. É silêncio, frases perdidas na inconstante vaga."

Teresa Durães, in "O outro lado do silêncio"

sábado, 28 de maio de 2016

Sentavas-te ao meu lado
escurecendo as sombras das nossas mãos
no silêncio de todas as palavras.
Nada mais para além
da clareira da eternidade.
Gestos lentos; há precisão
na harmonia do movimento concreto
tão antigo quanto os carvalhos.
Sabia-te pela noite fora,
hora dos mistérios insondáveis
não proferidos para não serem perdidos.

Um dia negaram-me esse meu sono
trazido de longas histórias antigas
restando-me erva seca em terra batida.
Das mãos preenchidas
restaram mortalhas alheias,
perdi-me em bosques de pedra,
construí musgo em areia
e deitei-me, esperando, a derradeira.

Mas não desististe,
infiltraste frestas em muros cerrados,
compuseste formas em copas de arvoredo,
foste longe no teu intento,
foste tu, imagem do meu pensamento.

in "Passos sem rasto", Teresa Durães