domingo, 27 de Julho de 2014






Nos teus olhos resguardo os meus,
pétalas luxuriosas em arqueado
onde entrelaçam ao mãos inquietas
onde se deslumbra as suaves curvas
espelho do espelho
carvalho enraizado
amor aconchegado num vaso.


sexta-feira, 11 de Julho de 2014




A terra molhada, sal nos meus lábios
ternura do vento
enquanto te via no meu abraço.
Protegeste-me
enquanto bebia a vida de um trago
esfarrapava os dias num sorvo
descobria as teias entrelaçadas que desconhecia.

Hoje meço a distância dos teus olhos embebidos nos meus.
Estremeço, não há passos que te alcancem,

fugiste-me no sonho, encontrei-me à deriva.



terça-feira, 24 de Junho de 2014





Dói-me o corpo dos punhos fechados,
retesa o tecido as palavras comidas,
o sangue sedento de chão
e o caminho de então não passa de uma ressurreição.

Comem as larvas
ideias vazias
tropeça nos dias
existência finda e não reclamada

Galgam os pés
em tropeços de lama
aprisionando esses trampolins

acabando sem descanso
AdeusJá gastámos as palavras pela rua, meu amor, 
e o que nos ficou não chega 
para afastar o frio de quatro paredes. 
Gastámos tudo menos o silêncio. 
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, 
gastámos as mãos à força de as apertarmos, 
gastámos o relógio e as pedras das esquinas 
em esperas inúteis. 

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. 
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; 
era como se todas as coisas fossem minhas: 
quanto mais te dava mais tinha para te dar. 

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. 
E eu acreditava. 
Acreditava, 
porque ao teu lado 
todas as coisas eram possíveis. 

Mas isso era no tempo dos segredos, 
era no tempo em que o teu corpo era um aquário, 
era no tempo em que os meus olhos 
eram realmente peixes verdes. 
Hoje são apenas os meus olhos. 
É pouco, mas é verdade, 
uns olhos como todos os outros. 

Já gastámos as palavras. 
Quando agora digo: meu amor
já se não passa absolutamente nada. 
E no entanto, antes das palavras gastas, 
tenho a certeza 
que todas as coisas estremeciam 
só de murmurar o teu nome 
no silêncio do meu coração. 

Não temos já nada para dar. 
Dentro de ti 
não há nada que me peça água. 
O passado é inútil como um trapo. 
E já te disse: as palavras estão gastas. 

Adeus. 

Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa” 

quarta-feira, 11 de Junho de 2014

Dia 13 de Junho, sexta-feira, entre as 15h e as 18h, estarei na Feira do Livro, Lisboa, para apresentar o meu último romance "O voo da ave":



"Ano de 565 d.c.. A Gallaecia está numa calma aparente desde que Teodomiro, o Rei Suevo, abraçou o Deus cristão; a presença de Martinho de Dume na sua corte foi a causa.
Para mim, Cabura, que pertenço a uma tribo da Montanha, e que sempre vivi no Castro com a minha gente, preservando a tradição, honrando a Natureza e os Deuses, é-me difícil entender os forasteiros e as suas estranhas formas de pensar.
Não tardará muito que nem as Montanhas ficarão isoladas do resto do território. Até ao momento em que cá virão. Porque virão. Não sei se devo temer ou não, o Homem é livre na sua relação com os Deuses mesmo que os esqueça. 
Cada caminho que se toma tem um trajecto diferente do primeiro. Por uma acção vai o populus. O fardo que se leva é maior e maior é a decisão. Com a decisão escolhe-se o fim. Um dia o círculo fecha-se. O voo da ave assim o diz."

terça-feira, 3 de Junho de 2014

Estou cansada,
dos galhos cambaleantes
em árvores ressequidas,
do fraco respirar
de estrelas desconhecidas.

Cansada das mãos tristes,
do recolher compulsivo,
da estagnação do amanhecer.


Procuro a tua mão mas não tenho a minha.

segunda-feira, 31 de Março de 2014

Cansada



Estou cansada,
cansada das imagens enroladas nas teias,
dos padrões interrompidos e corrompidos.
Das ruas escuras,
da fadiga das ondas sobre as rochas,
do passo à frente sem chão definido.

Onde estão os aromas a manhã,
vivos e arrojados,
relembrando que as árvores são sementes resistentes,
que a luz irrompe da negrura do espaço vazio?

Um toque,
uma valsa,
um desígnio.
Espaço preenchido pela mão cheia.
Letras dançantes cantando histórias.

Essas, as que pressentimos


in "A fadiga das ondas"