sábado, 4 de julho de 2015


Enquanto foste novo,
eu varria as folhas desconcertantes
da murcha infância dos aventureiros.
Tinha castelos e dragões,
vencia guerras e batalhões,
mas os deuses estavam mortos,
assim disseram os vencedores.

Talvez tenhas amadurecido,
eu construí um mundo vivo
ressuscitei Deuses antigos
comunguei com o infinito.


Mas ando por aí.


O medo do nome


Estão caras as palavras,
dizes-me - não vendeste nada,
somente um vazio
das amarguras antes não proferidas,
encalhadas no lodo da solidão,
receios infundados antigos.
E fechas-te num quarto
onde a amargura não será corrompida,
temo que ficarás lá a navegar
até as ameias terem carcomido. 




Invariavelmente consumo o vazio
sem que dele recobre retorno,
tenho-me em espaço sem sombra,
itinerante na proa,
ignorante ao fim que convoca,
alheada ao tom predominante
que escorre na rua brilhante.

- Falas de voz e sou imagens,
restos de escassas paisagens,
animal coçado em falsas paragens.

Falas de ventanias,
rebento cercados em dias de melancolia
e oro às divindades das montanhas,
recolhei-me no vento e para lá da tormenta transportai-me,
sou vagem em terreno impedido.




Procurei-te nas linhas do texto e não estavas,
eras um parágrafo por escrever no emaranhado
de pontas soltas que pendem do meu corpo.
Uno, não uno,
há concêntricas vozes que me fazem te esquecer.
Queria tanto dar-te um mundo
mas repetes vozes esquecidas como se de
especiarias longínquas se tratassem.
Não te sei.
Fomos vozes antigas mas trocadas pelos rasgos
de guitarra portuguesa nunca esquecida.
“O fantástico não está fora do real”*
tão somente num acorde cuidado.







* Vergílio Ferreira


quinta-feira, 2 de julho de 2015

Deslizei no teu nome como se toda a tua história
fossem pétalas suaves entre o desfiar dos meus dedos.
Engrandeci no brilho dos teus olhos
onde todo o dia te sonho, amor que desvendo.

Tenho searas contigo,
passado e sonhos onde te deslindo
e suavemente me levo a aguardar-te.  






Abre-se o jogo,
fecha-se o cerco,
espalham-se os animais,
atira-se às feras.

Não falhar, não tombar
deixar de ser o circo,
acabar, derrubar,
lutar em nome dum deus sisudo. 




Bateram-me à porta
entrando sem convite ofertado.
A porta está sempre aberta
seja larga, seja discreta,
para as vontades das palavras.

Como sempre o faço
devagarinho tentei ler,
palavras sem nome,
gestos sem história.

Todas as frases têm palavras,
todas as palavras, um sentido
e um nome para que todas as coisas
sejam audíveis e identificáveis.

As minhas oferendas vinham sem nome.

Libertei-me de singela tradição e retribuí:
A maçãs dei maçãs,
a laranjas, laranjas dei.
- Não sei que sumo produzi.

Colhida no tempo das sombras
espero que a alma se revista
de nomes e histórias de si.