domingo, 27 de agosto de 2017

Procurei o rosto
nas planícies que percorri.
Estava pálido,
urgente de todos os advires,
urgente do cálido sol,
da água nas raízes,
preso em malhas temporais.

Disseste-me,
tudo é uma ilusão,
as palavras que vêm com o vento,
o fogo da paixão.

Não estavas certo
- sei-o bem demais.
As sombras são rostos,
o brilho da água, os seus olhos,
as margens do rio,
a multidão que aplaude.

Não estavas certo
mas certamente senti-me só.
O tempo não é a medida,
o espaço, mortal.

Não estavas certo,
certamente,
contudo perdi a força
na negação das tuas palavras.

Hoje conheço o mundo,
mais esférico que outrora
elemento frágil, só,
a despedida do agora.



sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Passo a mão sobre o tojo,
não há serpentes de água,
os mistérios tornaram-se obsoletos.

Mataram Deus sem que este saiba.

Corro as planícies, a natureza persegue-me.
Abrando o ritmo, deito-me no campo.
Hei-de percorrer os espaços traiçoeiros
mergulhar no infinito
sem que as divindades suspeitem.





segunda-feira, 10 de abril de 2017

Quando morrer
Serei um caixão único
Apodrecido antes do fogo
Purificado na noite

Até não ter nome

sábado, 8 de abril de 2017

Há um álbum que me faz voar. Vivê-lo é ser-se construtor de palavras, ter medo das mesmas, necessitá-las para a explosão inicial, perpétua, necessária.

Há trejeitos nos gestos das palavras que nos consomem.

Há morte perante a morte que nos questiona a vida.

Há um princípio e um fim. Teremos a sorte de dominarmos ambos?

Há versos que nunca caberão porque o espaço é estreito demais.
No meu quintal brincam os gatos alheios às intempérias. Todos devíamos ser assim, natureza e ar, terra e canteiros, leveza de espírito. Quiseram os Deuses que tudo fosse diferente ou tornaram-se alheios ao deambulear de corpos.

Pouco resta da terra deserta, das flores selvagens, dos homens de palavra.

Temo que sugamos a água a todas as raízes até não sobrar nada.

Temo sermos um poço abandonado sem nada nas nossas mãos, somente a descrença e ambigu

quinta-feira, 23 de março de 2017

Chove mas chove tanto que as minhas raízes apodrecem. O mar podia florir e cantar a canção de toda a sua orquestra. As folhas das árvores perenes deixariam as gotículas de água escorregarem umas para outras. Mas chove e não quero saber disso. Nem das cataratas de água, tão pouco do caudal do rio, das ausência dos miúdos do bairro. Chove violentamente e eu desejo quietude.

terça-feira, 21 de março de 2017

Solto-me angustiada,
Também extase nunca acabado
Em formas disconexas
Mas num corpo inalterado.

Queria, para além disso,
Um universo repleto de imagens
Onde o sono se confunde
Com as palavras não ditas
De vergonha de serem guardadas.

Queria um sol anunciador
Estamos em primavera, em flor,
Em experiência de odor.
Uma crença na vida
Um vaso com flôr.

Não passei de ilusão
Sobram os tempos de exaustão
Neste rasgo, neste salto
Sou poeta de versos inacabados
Esperando o regresso inalterado.

Espero ser voz
Dum fado cantado
Esperando as guitarras
Esperando mulher
Nunca terminada.

Poderei ser melodia
Um tiro mal atirado
Mas ergue-se a voz
Pois não me calo.



segunda-feira, 20 de março de 2017

Hoje parti-te em mil bocados
não que tenhas notado,
para que deixasse de ouvir
esses pedaços mal acabados.

Vi-te? Senti-te?
Que importa o mal passado,
o tempo destronado,
o lugar desocupado.

Não fui poque não era,
houvessem linhas
para te falar no passado,
no tempo das cotovias
no tempo acabado.

Tens dor, dizes
sofre o poeta,
esconde-se o romancista,
encolhe a voz
para quem faz sinfonia.

Vivi meio mundo,
outro terá de esperar.
Vi-te? Senti-te?
Não para explorar.


Dispo a minha sombra,
é sempre incómodo ver-me
com a escuridão a esconder-me os olhos.

É sempre desgatante
sermos os mesmos.

É alarmante necessitarmos da sombra

domingo, 19 de março de 2017

Somos um fruto inacabado,
ausência de luz po explorar
onde universos se dividem
e não há nada para escutar.

Sombras apenas?

No olhar, no sonhar.
Poetas perdidos
sem nada a declamar.

Poetas sobreviventes,
almas desconsoladas
ao som de uma guitarra.

Perdidos na sombra da copa,
mar que se agita em tevolta.

Poetas perdidos
em terreno desconhecido.

sábado, 18 de março de 2017

Corto em rasgos
a brisa que anteriormente se instalou
sem história, sem passado
tão pouco o persistente presente.

Corto em brasas ardentes,
desde outrora aos descendentes,
em pó ou dormentes,
em cacos ou empernes.

Corto memórias e desagrados,
futuros temerosos ou decadentes.

Corto da copa ou raiz
onde está o medo adjacente.






segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Marco os passos,
os pássaros entendem
a sombra persegue
e eu, altiva, grito
- Não levam o que é meu!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O vento rodopiou nas lendas,
trazendo a Velha da Égua,
encantamentos tão antigos
que as gentes ainda temem.

Roçam cavalos brancos
que levam o viajante incauto,
luzes misteriosas aparecem
enganando o crédulo.

Quando a lua atinge o auge
Corredores correm sete colinas,
sete pontes e montes,
sete encruzilhadas e portelas de cão,
fado sem razão.

Dizem que no velho mundo
o misterioso era sobranceiro,
em tempo de guerreiros
façanhas sobrehumanas
eram conseguidas em campanha
pela mão dos Deuses antigos.


Hoje arrojo um grito,
solto o infinito mesmo sabendo
que há teias em segredo
que sussurram em silêncio.

(foi ontem que foste?)

Hoje namoro o aroma do inverno,
pés quentes em tempo de espera,
não por ti que foste,
antes pelas Candeias,
soprarei de mansinho
quem mal venha.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Queria que fosses
testemunha do meu crescimento
mas o vento levou-te
numa rajada sem apelo.
Resta-me a mão
vazia da tua ausência.


Ontem vivi em ti,
sangue quente,
vida ardente.
Pulsavas o sopro,
marcavas o solo
estendias conforto.
Acendi três velas,
três velas só para ti
queria-te forte
mesmo longe de mim.
Marco o passo,
sonho-te eterna
estás livre.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Dou-te o meu tempo
onde escondo um abraço,
onde afago o teu pelo.
Não estás, mas as paredes
guardam silenciosamente
os teus passos para o meu regaço.


(de onde nunca saíste)



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Queria dar-te tudo,
a minha sombra,
a tela onde me reconheces,
a luz dos meus cabelos.

Não reconheceste o início
de todos os inícios.
Primordial.
Agreste.
Violento


Pensava que todas as rosas
preenchiam o teu jardim
canto do teu canto
aroma pueril.

Foste mais longe
não esperaste por mim,
dor da minha dor
flor do meu jardim

domingo, 15 de janeiro de 2017

Recolho a hora do dia. Gostava de te dizer que estou em paz mas carrego pesos que nem sei de onde vêm. Dou-te o meu olhar castanho. Tudo o que te posso dar. Voa por mim que ver-te-ei no céu azul.



Dizem: é pela alvorada que os girassóis abrem para o sol. As primeiras cores pintam os campos lembrando ao galo o despertar. A primeira luminosidade preenche o corpo de franca energia.
Os cães ladram uns para os outros. O movimento começa.

Quando vem o anoitecer todos recolhem ao silêncio deixando espaço para os animais nocturnos.

Não sei porque te conto isto, tu sabes que quando se corre o vento leva as sombras, a chuva dissolve-nos na natureza e o frio faz-nos aproximar.

Tu sabes.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O tempo arrastou-me sem piedade. Nem o vento, nem tão pouco a distância o fizeram parar. Hoje tenho os teus retratos, preciso da tua presença. Mas não te chamo, foste sem poder olhar para trás. Para mim, para os braços que teimam em querer abraçar-te.






(tenho tantas saudades tuas!)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Entrei em casa. Esta casa já não é a minha mas entrei. Tudo estava nos seus lugares, o sofá estafado, o escritório desarrumado, a cama por fazer. Reconheci tudo menos o silêncio. Não, esta já não é a minha casa, somente retalhos de vivências antigas. As de hoje, essas, estão perdidas num canto qualquer enquanto procuro a minha casa.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Levem tudo,
os velhos casacos nunca substituidos,
a cama ressequida de movimentos antigos,
as telas, histórias e pautas esquecidas.

Levem tudo, até a mim,
não regressei completa
perdi partes por aí.
Seja um fado, um hálito amargo,
um conhecimento desesperado,
sim! Levem-me. Ver-vos-ei no fim.



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Espero-te todos os dias
sabendo que és vento
na garganta de uma serra.
Ontem sonhei-te,
ou antes tivesse acontecido.
Tinhas a liberdade no olhar,
o sorriso das flores,
o calor do teu corpo.
Mas foste rasgada ao tempo,
adormeceste em mim.

(lembras-te da praia?)

O silêncio flutua
em todos cantos
marcando os teus passos,
frios como frios estão
os braços que te envolviam.

Agora falo de ti
como se longe estivesses
e eu numa espera que não vem.

(mas é onde estás)

Queria ter-te dado
palavras infinitas
mas não sou heroína,
tão pouco corajosa.

Dou-te um amor
mais longínquo-o
do que o horizonte,
tenho sonhos onde estamos
mesmo não os tendo.