terça-feira, 28 de outubro de 2014



"São hienas, são abutres esperando a nossa vacilação para que caiam em cima. São objectos que se dizem seres humanos que não entendo. Esses, esses à minha volta. Os outros, os que pretendem humilhar e espezinhar. Que raiva terão? Porque em vez de unirmo-nos vamos de encontrões uns contra os outros, cada um tentando cair na graça desses ditadores que não deixaram de existir. E lutam, lutam entre si esperando trepar no próximo e garantir o seu espaço no céu. Que céu? O financeiro, o do mundo do trabalho?

Acabou-se a camaradagem, somos lutadores de sumo tentando ganhar a medalha final que não sei qual é. Pregam as mãos dos que apanham às cruzes espalhadas por todo o lado. Hostilidade, desolação, acabaram-se os poemas e passo a escrever a sangue nas paredes. Não sei onde estou nem tão pouco consigo entender o que se passa à minha volta.


Começam. As cores nos pulsos, os movimentos circulares, as noites agarradas às paredes brancas que nada reflectem. Não sei o que quero nem em que acredito. Borra-se o futuro de que tantos falam e anseiam, aquele passo fundamental que nos levará ao mais misterioso dos lugares. Sou trabalhadora, sou jovem, estou velha. Quem grita? Não há marchas nem fogueiras, há gente louca que ocupa os lugares à minha volta. Ou terei enlouquecido? Por onde se perderam os fragmentos de vida?"

in "Recortes de um país moribundo", Teresa Durães 

2 comentários:

Existe Sempre Um Lugar disse...

Bom dia, texto revelador das atitudes gananciosas de algumas (muitas) pessoas que não olham a meios para conseguirem conquistar a sua ambição, infelizmente, o mundo financeiro sem valores humanos, consegue através da comunicação social transmitir valores arrogantes e gananciosos que são absorvidos por algumas (muitas) pessoas, que votam ao lado do Amorim e outros Amorins como se os interesses fossem iguais
AG
http://momentosagomes-ag.blogspot.pt/

Mar Arável disse...

Há dias em que apetece rasgar o vento