sexta-feira, 28 de agosto de 2020

 Fala-me

de todos os segredos
que se esconderam de mim,
a magia de uma árvore,
a tagarelice de uma pedra,
de uma erva que se sente diferente.
Fala-me dos tempos idos,
quando saltava de pedra em pedra num riacho.
Fala-me de todas as vezes que conquistei uma árvore.
Fala-me para que recorde,
fala-me de todos os meus sonhos
para saber que não esqueci nenhum.
Mas fala-me.
Teresa Durães

terça-feira, 25 de agosto de 2020

 Ontem apanhei figos como outrora o fazia na quinta dos meus avós, trepava os troncos, comia um ou dois e guardava o resto. Mas esse era o tempo em que as feridas saravam depressa e a pressa não existia, apenas trepava as árvores para comer.

Agora estou num corpo que dizem ser o meu, olho-me no espelho no fim do dia e vejo olhos cansados, cansados por ter lutado contra o vento durante o dia.


Teresa Durães

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

sei que estás aí
tão perto que quase te toco
tão longe que não te ouço
tão perto e longe
tão diferente

e enquanto o sol brinca connosco
a nossa existência brilha

Teresa Durães

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

 
[Dali]

Foi numa noite ou num dia qualquer que me julgaste sem tão pouco teres visto o meu jardim, resolveste empurrar a tua raiva das insónias para que as lê-se e fosse mais uma vez a emoção encapotada. Nem esperaste que o sol tivesse dado o seu ciclo, apenas pisaste as flores por terem as cores que têm. Não, não percebi e agora só espero as chuvas de estrelas.


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Esta historia tem uns 20 anos, não mais, não menos. Era uma vez um condutor de um TIR cujo camião avariou e ali teve de ficar até vir o mecânico que apareceu pouco depois. Mas havia uma peça para trocar por isso foi a S. buscá-la. A história não teria interesse nenhum se uma árvore não tivesse começado a conversar com ele, coisas simples, coisas do dia a dia, coisas que os patrões exploram. Mas nada desta história tem de político porque a árvore nem sabia o que era isso, contou-lhe sobre os pássaros nos seus ninhos, como tinham voado enquanto o condutor fez o mesmo falando sobre os seus. Até que este teve fome, foi buscar uma sandes de presunto e uma míni. Sentou-se ao lado dela e foi falando, foi dizendo da sua vida enquanto a árvore falava sobre a sua existência.
E nada disto teria interesse se a árvore não o passasse a conhecê-lo e ele a ela.

Teresa Durães

sábado, 15 de agosto de 2020

 Atravessa, anda, caminha devagar

Corre, para, continua, trava. Aperta.
Solta os cabos e desliza pelo caminho
sem garras ou falhas que façam tropeçar,
sempre a avançar e não parar, não olhar,
o ritmo sobe, não penses, prossegue
como se todos os gestos fossem a força do momento.
Para lá desse estado está o que esperas,
que cada pedaço lançado seja o final alcançável

Por isso atravessa, anda,
caminha, corre, para, continua,
estende a mão e agarra.



Teresa Durães

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

De repente os poetas deixaram de falar de amor, o amor existe com ou sem máscara, com ou sem vida, vive o amor de todos os tempos, de todas as épocas e por isso julgam-me louca e louca sou e declarei até ao fim dos dias, o amor não tem época, tem intensidade.

Sei de um povo que me despreza,

Sei de que os Deuses estão comigo

E enquanto se gladiam eu vivo,

Vivo sufocada

Vivo no ser que sou,

No vento, nas árvores, nas plantas

Porque nada sou.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Diz-me tu,
Onde para a vida?
Diz-me sem preconceitos,
Onde a morte liberta?

Diz-me, diz-me tudo o possível
Cansar todos os dias
Cansar as palavras tão gastas
Diz-me tu, onde está a poesia?

Diz-me apenas
Onde está a paisagem de outrora?
Diz-me apenas,
Porque as rãs não vão para o rio?

E penso, penso, penso
Não sei onde está outrora
Não sei onde termina o dia,
Numa lua cheia?
Diz-me apenas,
Sigo a luz e depois
o que faço quando termina?

Faltam-me correias para prender o tempo,
Falta-me a força para o vencer
Falta-me a coragem parar o prender.

E do tempo que me domina
Eu tento criar, viver,
Envelhecendo cada dia.

E um dia serei pó,
Pó deitado numa raiz de árvore
E regressarei à vida





domingo, 2 de agosto de 2020

Sei de um mundo onde podemos estar e ser, rir com prazer, sei de um mundo onde receber é um texto poético e nesse mundo quero viver.


quinta-feira, 23 de julho de 2020



Deixei este mundo, não tinha mais tatuagens

domingo, 19 de julho de 2020

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Escrevo silenciosa em casa, a TV sempre desligada, mas o rádio grita números, grita tanta coisa que o desligo. Este confinamento mostra tão inseguros que somos, tão sociáveis que somos, tão amáveis que éramos.
O vírus não é algo vivo, mas penetra na mente das pessoas o que nunca deveria acontecer, as dúvidas, o medo, o desespero de quem tem consciência e não vai visitar os seus idosos. Mas eles morrem, morrem contaminados, fazem números em estatísticas e talvez a satisfação de um Segurança Social falida há muitos anos.
E vão a correr os incautos não percebendo que amor agora é distância. Que raio de amor é este?, quase pergunto todos os dias, eu que aqui só vejo oliveiras, mas os meus estão lá entre os infetados, os meus estão expostos se não tiverem cuidado e fecham-se em casa.
Não gostaria de morrer com falta de ar, mas pensar que não veria mais a expressão dos filhos desgasta-me.

quarta-feira, 15 de julho de 2020




(gratuito para download na loja kobo.com)



      Eram as instalações do gabinete de consultadoria da Projeção dos Estudos para o Novo Aeroporto (PENA). O luxo era idêntico à sigla com que o presentearam. Não sabia a razão da sua presença; em corredor algum existiam amostras que denunciassem. Mas ordens eram ordens e continuava nessa causa sem sentido.
A porta indicava a secção de Pessoal. Deu três pancadas. Não sabia qual o motivo de serem três; partiu do princípio de quem estava do outro lado tinha dificuldades de audição. Esperou até ouvir a habitual voz esganiçada muito em voga naquele setor. Secretária, cadeira, papéis. Olhar severo de quem se empenhava no que fazia. Nome, morada, habilitações, papel entregue que indicava a razão da sua presença. A manhã na burocracia, mas sem fitas de cores para se colocarem no pulso consoante a emergência. Fila de gente que esperava vez. O rosto que mal olhava e ignorava-a.
          - Apresente-se no gabinete 27.
          Saiu e ouviu atrás dela a porta a ser trancada. Expressões de aborrecimento das pessoas que esperavam, não se ouviam queixumes.
          - Desculpe, onde é o gabinete 27?
          Os passos aceleravam à sua pergunta e não havia voz que indicasse o caminho. Pelas paredes riscos de cor. Teriam o mesmo significado da gestão hospitalar? Nem hesitou, só podia ser um verde de erva e foi dobrando as esquinas, lendo letreiros, cruzando com quem passava até que regressou ao mesmo local. Ouviu uma sirene e gente apareceu de todo o lado causando filas para uma passagem que tinha passado despercebida. Portas que batiam, portas que fechavam, nem um sussurro, somente os sapatos altos ecoavam nos corredores e alguns tacões de homens baixos de bigode e ar empertigado.
          - Desculpe, onde é o gabinete 27?
          Um homem parou de olhar indignado.
          - Não sabe que são horas de almoço? Para que raio quer saber do gabinete 27?





Descalço as botas,
- A vida é dura com elas.
Liberto-me do seu peso,
Da sua consciência
E serei um pássaro sem peso.
Até amanhã,
Onde as voltarei as calçar.

terça-feira, 14 de julho de 2020



Abracem, mas não abracem,
Beijem ,mas não beijem,
Desconfiem dos vossos, dos outros
De todos, da humanidade.
Abracem, mas não abracem,
Beijem, mas não veja
Porque há muito tempo
Nenhuma arma foi apontada para vós
Pelos vossos, pelos outros, pelos conhecidos.~

Teresa Durães
Agarro a minha cadela. Sinto o pulsar do coração por debaixo do pelo e acaricio-a. 7 vezes calma, 7 vezes segura. 7 vezes viva num mundo que já não existe.
Corremos na praia, em prados esquecidos, nos topos das montanhas libertas de luzes e ruído. Somos ondas, ervas, rochas, somos todos os desígnios.
Quando anoitece e os Deuses já se retiraram para mais um dia, deitamo-nos ao relento onde sussurro histórias das estrelas, amores e traições, epopeias e tragédias. Ela espeta as orelhas, quase jurava que me entendia. Ela sabe, já há pouca vida.
Estendo-me ao comprido. Patas em cima, cabeça na minha barriga. Tento imaginar um mundo sem ela, um mundo estéril, um mundo triste, uma aceitação difícil.
Abraço-a. Tenho medo. Tenho tanto medo de a saber sem vida. Por favor, 7 espadas acima.
Teresa Durães in "7 espadas acima", gratuito para download na loja kobo.com


segunda-feira, 6 de julho de 2020

Estou cansada
Bastante cansada
Cansada demais
De tanto cansaço
Levanto-me todos os dias
Sabendo que ficarei cansada
Cumprindo
Sempre cumprindo
Ouvindo e cumprindo
Fazendo e cumprindo
Regresso
Continuo cansada e cumprindo
Ninguém sabe como estou
Ninguém
Estou cansada das palavras
Dos gestos e das explicações
Cansada de dizer que estou cansada
Se não cumprisse
Não estava tão cansada
Nem haveria palavras
Nem gestos explicações regressos
Teresa Durães





Veio com o vento a uma velocidade de um furacão. Devassou a passagem onde passou, mas não em vão. Surgiram sorrisos nos lábios, cintilaram olhares e provocaram alegria. O que era passado desapareceu e transformou os dias. Pousou a cabeça no ombro; só queria descansar e aninhar. Deixou-se estar: o aroma da pele soltava-se lentamente em adormecimento puro. Minutos roubados para encarar outro dia; minutos urgentes que lhe davam vida. Pedaços de um quotidiano não vulgar. As cores preenchiam e deixou-se vogar pelo inteligível. Diz-me tu, o que é o amor?

sexta-feira, 3 de julho de 2020


Quero ser
um sino dobrado
tocando nas manhãs lentas
nos verões quentes e desertos.
 
Um monte estendido esperando a paz
na planície amarela e deserta
sem consciência do seu princípio e fim.
 
Uma toca de coelho
cheia de subtis caminhos
que intercepta com outros
criando a malha escondida.
 
A água que se infiltra
pelas fendas invisíveis.
 
A raiz que desventra o muro.

(dedicado à minha filha, escrito há tempos, parabéns filhota!)

quinta-feira, 2 de julho de 2020







Um espaço e outro, e espaços entre espaços,
e vazio entre uns e outros.
Existem raízes profundas que perfuram muros
outras tão soltas.
Existe o mar com o seu território tão próprio
e na tua lassidão, na tua insolvência,
não vês que há caminhos paralelos,
tão confusos onde nada que queira perdurar irá se absorver, absolver.
Somos corpos mas nem todos estão adormecidos.

Teresa Durães in "Teixo-Mulher, gratuito para download na loja kobo.

domingo, 28 de junho de 2020


Que a noite não acabe,
Que não me digam que não pode ser assim,
Que a lua suba no céu
E eu a vê-la e a vê-los todos,
Os amigos, os problemas.

quinta-feira, 25 de junho de 2020






Hoje não houve fantasia, hoje não houve flores e campo e árvores. Entreguei-me, vivi e sofri, mas vivendo e sofrendo faz parte da vida. Nego a minha existência e peço por outra que me é negada. Correm rios, abraço florestas e o que me sobra são as minhas mãos que já nem sabem o que fazem. Soubessem teriam evitado as correntes, mas não, insistem em novas imagens. No fim sobra um corpo cansado, estafado e não concluído.


É tarde, tão tarde que a minha licença de vida já acabou. Ignoro-a como tudo o que é inútil: o sonho, a inconsciência, a espera. Ignoro todos os sinais da noite para escrever mais uma linha, uma linha que sairá cara do meu corpo. Mas se não fossem as transgressões o que faria aqui? Por isso deambulo entre personagens e continuo acordada e não entendo porque sou diferente.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

"- Quem és tu? – Perguntei na defensiva. – Estavas a espiar-me? És amigo do Lorii e vieste atrás de mim?
O rapaz olhou-me nos olhos, uns belos olhos castanhos.
- O meu nome é Cutii e tu és a Pruma, não és?
- Sim, sou, filha de Frecha e Tandii do Castro do Planalto. Como sabes?
- Estás longe de casa. – Reparou o rapaz.
- Estou aqui no Castro do Vale como convidada. – Respondi com voz sumida.
Ele observou as mãos.
- Não é boa altura para estares aqui, sabias?
Enruguei a testa por aquela declaração sem sentido.
- És tão novo, como sabes dessas coisas e porque dizes isso?
Cutii suspirou e voltou a olhar-me.
- Sou mais velho do que tu pensas, talvez da tua idade. – Respondeu suavemente.
Sorri condescendendo.
- Não, não é possível.
- Ah! Ninguém te explicou nada, filha de Frecha e Tandii. – Respondeu Cutii amavelmente. – Só não entendo porquê."
Teresa Durães in "A maldição do rio", saga "Os castros", #4, ainda não disponível

sábado, 20 de junho de 2020

Uma Ave que veio parar a uma cidade
levada por uma corrente de vento amena
diferente
cedo caiu do ninho
não encontrou mais o caminho
sobreviveu porque aconteceu
perdeu-se no meio dos prédios
ruas e confusão.


Voou, voou, voou
entre fascinada e horrorizada
encantada e pasmada;
espreitou cantos e recantos
conheceu e aprendeu
afastou-se do que não gostou
piou contra o que lhe desagradou
sozinha cantou.

Apanhou uma brisa fresca
planou, planou, planou
avistou uma estátua e pousou.

Teresa Durães in "Do livro das aves, um breve conto"

sexta-feira, 19 de junho de 2020






Morreu hoje um grande romancista, Carlos Ruiz Zafón, espanhol, (Barcelona, 25 de setembro de 1964, 19 Junho 2020) vítima de cancro.


Deixou muitas histórias por escrever.


Mandei para um concurso um conto sobre pandemia, a minha. A minha não existiu, a dos meus filhos, sim, e forte, jovens adultos que querem viver e mudar o mundo. A minha foi ervas para arrancar, compreender o campo e seguir como se tudo estivesse bem. Agora saio para os mesmos sítios, mas está muito mais gente. Gente despreocupada, gente que não pensa, gente que convive porque precisa. Eu fico pelo telemóvel, mas imagino a ânsia dos jovens, os primeiros que pensarão de uma forma diferente sobre a vida. Não nós, os cinquentões, mais e menos, nós conformamo-nos dentro do possível.
E o vento voltou, a juventude voltou e namorou, testemunhou um caminho que já não se percorria há meses e voltou a beijar.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Hoje é dia de Portugal, mas eu acrescento mais símbolos, todas eles que deviam ser neste dia (e um sinal a ser obedecido com consciência).

Hoje é dia de Portugal, não temos chances de uma vida melhor, não temos chances de um emprego melhor ou uma segurança social melhor. Mas podemos ser cordiais como sempre fomos, há milénios, podemos ser o povo que somos sem misturar-se com outros, podemos ser o povo que distribui, que recebe com um sorriso. Por favor, Portugal, não mudes mais!

Hoje é dia de Portugal, é o meu dia? Porque não quero racismo, sexismo, violência doméstica, xenofobia, bulling no trabalho como sofri, nem tão pouco julgarem a sexualidade de cada um.

Dizem-me, hoje é dia de Portugal. É o meu dia como portuguesa ou apenas de um pedaço de terra com fronteiras? Porque se for o meu dia como portuguesa quero muito, quero que salvem este país das barbaridades como o lítio, quero bosques e não eucaliptais, quero lobos a circularem e terem de comer, os fogos matam tudo e nenhuma chama quero ver. Sim, este é o meu dia de Portugal, tanto poderia dizer, apenas isto agora.




LEONOR

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.
Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.
Luís de Camões


Tomara


Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...
Vinicius de Moraes




Sim, enquanto sussurro-te,
enquanto encosto os meus lábios suavemente no teu pescoço
ouço-os a conspurcar
todos os nossos gestos,
- Beijavam-se desenfreadas
aquelas cabras com o cio. Putas!
Toco-te com gentileza,
tenho medo que desapareças
no meio de tanto ódio,
tenho medo do medo que tens.
Dizem, sois livres,
tendes o vosso arco-íris,
a vossa bandeira,
o casamento.
Não amor, dá-me a mão,
não chores,
não,
não passearemos de mão dada pela rua
nem apregoarás a nossa união.
Não teremos filhos, mas caminharemos
nas vielas secretas de todas as cidades
onde te poderei beijar, respirar e estar.



Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.
Nelson Mandela


"Vi chuva a cair e as árvores ficaram viçosas, vi água a escorrer e os rios engrossaram. Vi vida e a vida que escolhi. Podia ter sido o dia de ontem não fosse a chuva lembrar-me que a natureza tanto oferece.
Hoje vi uma esperança de amanhã. O que quero para além das minhas ervas, para além das minhas árvores, para além dos pássaros, da vida?
Agacho-me e apanho ervas, os fogos não tardarão e tenho de ter tudo limpo, necessito de arrancar flores belas e por elas choro. Mas poderão ser a morte de tanto e tenho de sacrificar uns pelos outros (...)"




  Hoje é dia de Portugal e eu apenas peço, salvem as espécies em extinção, fauna e flora. Não se esqueçam de nenhum deles, eles sobrevivem no limite por isso repito, salvem as espécies em extinção, fauna e flora.


 Abraço-te intensamente. A noite está no seu término, em breve serás apenas uma recordação.
Deito-me espreitando o teto. Talvez já tenha vivido muitas vidas diferentes e chegou a hora de vestir uma pele. Talvez continue desapegada.
Sei que te esperarei na próxima noite quando o mundo adormecer suavemente. Então, poderemos viver umas horas na confidência das estrelas, no segredo dos animais noturnos escondidos sob o luar, ténue luz guardadora das confidências dos amantes. Tenho tanto para te dizer e tão pouco tempo para partilhar. Queria-te comigo nos raios solares onde poderíamos correr descalços sobre a terra sentido o passado para além da História. Talvez nos encontrássemos num tempo anterior a todos os tempos, antes de todas as coisas, no tempo das espadas forjadas pelos Deuses, 7 espadas acima das colinas, 7 espadas acima dos vales. Agarraríamos as mãos numa dança louca, eu que não gosto de dançar, dançaríamos a dança estonteante das flores cantantes, dos sobreiros e castanheiros. E descansaríamos no cair da noite quando as corujas brancas se preparam para a caçada e lançam os seus gritos de predadores. Seríamos felizes.
Teresa Durães in "7 espadas acima"




Dizes-me que prossiga
não duvide de mim própria.
Há nas tuas palavras
a confiança desaparecida.
Tanto que quero a agarrar,
ensaio desejos,
procuro no vazio as palavras certas
para que a traga de volta

Tentarei o voo cumprindo
o planar sobre esse passado
que envolve o futuro.

Teresa Durães, in "A fadiga das ond



"Acordei sobressaltada sem saber o que estava a acontecer, era noite cerrada, a fogueira ardia alto. Telgio estava à porta do abrigo de tronco na mão a arder com Perdida ao lado a ladrar, à sua volta olhos amarelos no escuro, uivos e rosnadelas, lobos, uma alcateia.
Levantei-me assustada e fui até ao pé dele, a visão era aterradora, só via bocarras e dentes, dentes capazes de esmigalhar ossos só com uma dentada. Aquele que devia ser o líder era o maior de todos, o seu pelo era formidável, a sua cabeça enorme era uma mescla de castanho e preto apesar de ao redor da boca ter cor branco-sujo, o seu corpo era castanho com manchas pretas, longas pernas castanhas escuras, as orelhas triangulares relativamente pequenas, mas sabia que ouviam melhor do que os cães. Os olhos oblíquos, amarelados, ameaçadores.
Telgio tentava que se afastassem com o fogo, por vezes recuavam, por vezes os lobos avançavam, sempre querendo chegar perto de nós para sermos as vítimas nas suas bocas. Perdida ladrava, ladrava, querendo defendermos, mas ao pé deles não passava de um pequeno ser."

Teresa Durães, "O centro do guardião"


Não foi há muito tempo, a solidão tocou alguém e pensava que o ia salvar dela. Não quis ter uma conversa amena, só se queixava e não procurava árvores. Aliás, não procurava nada para além de uma loucura muito própria. Ouves? Não ouves? O que queres de mim? Da solidão desesperada tenho medo, seja a minha ou de outrem, mas as árvores continuam ao nosso redor, hoje vi andorinhas, domingo vi grifos e provavelmente amanhã verei de novo a minha amiga rã da fonte aqui quase em frente. Ela não sabe que gosto dela, esconde-se, mas sabê-la lá é dar vida à vida. Ouve-me, tu que não o fazes, viste a lua? Sentiste o vento? Porque neles estão todos os segredos.

Teresa Durães

(imagem da net)



A depressão tem cura, pode demorar, mas tem. Algumas acabam por ser crónicas e é necessário tomar medicamentos para o resto da vida para equilibrar. Mas, por favor, não baixem os braços e se não conseguem ultrapassar (depressão é uma doença do foro mental, como qualquer doença precisa de tratamento) peçam ajuda a um médico

terça-feira, 9 de junho de 2020






Lembras-te quando conheci? Dormias no carro, a garrafa de whisky a teu lado e era noite cerrada.
- Carlos? – Chamava o inglês com uma pronuncia estranha.
Acordaste só para dar cigarros e assim soube de ti, Carlos.
Eras estranho, nem sei em que sentido deveria dizer, passavas o tempo com palavras simuladas que eram para ti uma verdade religiosa e final. Do que dizias muito ouvi, em muito acreditei, em muito desiludi-me contigo, em muito deixei de acreditar na tua brisa.
Darias um livro, sabias? Um dia escrevi-o, mas deitei-o fora. Porque tu não te resumias às verdades verdadeiras, também quando te esquecias eras amigo quando a bebedeira não estava no auge.
Um dia morreste de cirrose e nem ao funeral fui, não me avisaram. Restas-me estas memórias e outras, no tempo em que acreditávamos que podíamos mudar o mundo, com ou sem whisky.

Teresa Durães

quinta-feira, 4 de junho de 2020



Era só uma pessoa, uma pessoa qualquer. Um dia perguntaram-lhe o que esperava para viver. Ela riu-se e viu a sua conexão à terra, nova no seu amor, a experimentar um mundo que parecia já não existir. Pelos dedos na terra castanha, pelo toque no caule, não, só conhecia um amor assim que se complementava com este. E ambos amava-os.

Teresa Durães

quarta-feira, 3 de junho de 2020

        Havia uma altura onde existiam dois castigos: os nossos e o dos objetos. Os objetos tinham tantos direitos quanto um ser-humano e por isso tinham os deveres do humanos. Ou quase. Eram trafulhas se de brinquedos falamos, impertinentes se ouvíssemos os tapetes e estes ainda faziam com que caíssemos se pudessem. Esta era uma pena grave.
          As pessoas não são de fiar, mas nem os objetos. Primeiro estes últimos irritavam-se por chamá-los de “objetos”: consideravam ofensivo pois tinham vida como tudo no mundo incluindo as pedras. Um dia chamei a um de “coisa”, uma cómoda, atirou-me com a sua perna de madeira e andei quinze dias a coxear. Claro, como os juízes não viram, esta não sofreu nada, apesar dos meus apelos no tribunal.
        - Não há provas. – Declararam mesmo tendo visto a nódoa negra na perna. – Qualquer um poderia ter feito isso ou mesmo a senhora caindo num sítio qualquer.
           E o processo foi fechado.
          Conheço as manhas da maioria: o colchão que se punha aos pulos para tentar atirar-me para o chão, nessa altura o tapete deslizava, caia e levantava-me para ir à casa de banho, mas nem aí: o espelho fazia caretas, a sanita resmungava, o lavatório ficava sujo de propósito.
          Até há pouco tempo nunca tinha visto uma manifestação das escadas, mas uma bela manhã tornaram-se invisíveis – o que seria uma grande pena, mas mais uma vez ninguém viu para além de mim. Fiquei aflita, como poderia descer para o r/c? Pensei friamente, fiz uma corda com os lençóis, desci e encontrei a janela que tinha sempre aberta. Estava por demais irritada, mas não podia fazer nada, sempre que um Humano dava um pontapé numa cadeira era atirado para a prisão por dois anos e para os objetos tinham sempre uma desculpa.

segunda-feira, 1 de junho de 2020





Fogem, fogem, mas não sabem para onde. Tudo são planícies por desbravar, um mundo diferente por descobrir. Morrem as correntes que moveram políticos, cortam-se amarras dos movimentos, tudo está diferente e, contudo, ninguém o presencia.
Formaram-se grupos para entendimento, governos provisórios que não entenderam que nada era repetido e o que foi já tinha acontecido. Juntaram-se os jovens, os que tudo perderam, aqueles que não terão o que já tinha acontecido e de mocas na mão, olhos agressivos e fartos dos mesmos discursos avançam. Mas não agridem, levantam-nas, ameaçam, fazem-se homens e gritam.
- Não, não somos vós que não nos deram um futuro. Terão a vossa sorte, velhos, não nos peçam ajuda.
E saem, saem para procurar abrigo como se fazia há mais de dois mil anos, caçam como se fazia há mais de dois mil anos e deixam os outros morrer porque são os seus assassinos.

domingo, 24 de maio de 2020





Não consigo imaginar o que é para ti os dias de hoje, talvez se recordar os tempos idos, mas nada é igual. Tens vinte e dois anos e eu cinquenta, tens uma vida para conquistar e eu dela já a fiz a minha.
Um dia disseram-te, não saias à rua, não namores, não estejas com os teus amigos. Ainda impuseram, não vás ao ginásio onde praticavas para tentar ir para a Faculdade de Desporto. Tudo de um dia para outro, ou talvez não tenha sido assim, mas com a tua idade não há outra forma de se ver a vida.
Choravas ao telefone, “acabaram com a minha!” e eu não tinha palavras para te responder porque sim, acabaram de um momento para o outro o teu desejo de singrar na vida, o que se faz na tua idade.
- Anda, vem para ao pé de mim. – Pedia-te mesmo sabendo que vivo numa terra sem nome num Portugal desconhecido onde não há vírus nem máscaras nem distâncias.
- Anda, aqui podes correr, aqui podes ser o que eras antes.
Mas não quiseste e ficaste na tua casa sozinha. Claro que sabia que não era bem assim, as tuas amigas apareciam e ias ter com elas. Não havia confinamento nessa cidade onde vives porque o teu corpo é demasiado jovem para poder aceitar as exceções tão raras na vida – sim, nunca vivi nada assim.
Sabes que onde moro somente há oliveiras e trabalho na horta e tu não querias, querias a existência antiga como se fosse possível parar o mundo só para que avançasses.
- Mãe, quando isto acaba? Para o mês que vem?
Não respondia, que poderia dizer eu que só semeava favas e de nada disso percebia exceto que os dados como certos não os eram.
- Mãe, como vou para a faculdade assim? Como treino, como estudo?
Continuava muda, eu que tanto te queria dizer, aconchegar-te no meu colo onde não cabes e falar – há de passar.
Há de passar quando? Ninguém sabe e a minha filha de 22 anos precisa dessas respostas urgentes porque é o presente dela, não um futuro estranho ou um passado de tanta aniquilação da natureza que a vão fazer compreender.
- Mãe, os meus músculos estão-se a perder, não consigo estudar, o que faço?
O que fazes? Vai para a rua e corre, faz com que os teus passos marquem a diferença, mas fá-lo, por ti, pela tua geração confusa com o que se passa. Sim, afinal o que se passa? A mãe natureza descobriu que estamos a mais e temos de aniquilar alguns?
- Mãe, é Páscoa, dizem que não posso sair! – Chorava de novo.
- Não te importes, sai à mesma, vai correr, vai fazer exercício, vai fazer com que não enlouqueças nestes diz estranhos . Esteve cá uma amiga minha e sentámos-nos a dois metros de distância.
Nada disso era permitido, mas eu fingia que não ouvia, fingia que tudo o que ela fazia estava correto, mas só repetia.
- Tem cuidado, queres ser atleta, o Covid pode danificar os pulmões.
- Mãe? Mãe? O que faço então? – Continuava a chorar.
Teresa Durães