quarta-feira, 15 de julho de 2020




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      Eram as instalações do gabinete de consultadoria da Projeção dos Estudos para o Novo Aeroporto (PENA). O luxo era idêntico à sigla com que o presentearam. Não sabia a razão da sua presença; em corredor algum existiam amostras que denunciassem. Mas ordens eram ordens e continuava nessa causa sem sentido.
A porta indicava a secção de Pessoal. Deu três pancadas. Não sabia qual o motivo de serem três; partiu do princípio de quem estava do outro lado tinha dificuldades de audição. Esperou até ouvir a habitual voz esganiçada muito em voga naquele setor. Secretária, cadeira, papéis. Olhar severo de quem se empenhava no que fazia. Nome, morada, habilitações, papel entregue que indicava a razão da sua presença. A manhã na burocracia, mas sem fitas de cores para se colocarem no pulso consoante a emergência. Fila de gente que esperava vez. O rosto que mal olhava e ignorava-a.
          - Apresente-se no gabinete 27.
          Saiu e ouviu atrás dela a porta a ser trancada. Expressões de aborrecimento das pessoas que esperavam, não se ouviam queixumes.
          - Desculpe, onde é o gabinete 27?
          Os passos aceleravam à sua pergunta e não havia voz que indicasse o caminho. Pelas paredes riscos de cor. Teriam o mesmo significado da gestão hospitalar? Nem hesitou, só podia ser um verde de erva e foi dobrando as esquinas, lendo letreiros, cruzando com quem passava até que regressou ao mesmo local. Ouviu uma sirene e gente apareceu de todo o lado causando filas para uma passagem que tinha passado despercebida. Portas que batiam, portas que fechavam, nem um sussurro, somente os sapatos altos ecoavam nos corredores e alguns tacões de homens baixos de bigode e ar empertigado.
          - Desculpe, onde é o gabinete 27?
          Um homem parou de olhar indignado.
          - Não sabe que são horas de almoço? Para que raio quer saber do gabinete 27?

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