quarta-feira, 15 de julho de 2020





Descalço as botas,
- A vida é dura com elas.
Liberto-me do seu peso,
Da sua consciência
E serei um pássaro sem peso.
Até amanhã,
Onde as voltarei as calçar.

terça-feira, 14 de julho de 2020



Abracem, mas não abracem,
Beijem ,mas não beijem,
Desconfiem dos vossos, dos outros
De todos, da humanidade.
Abracem, mas não abracem,
Beijem, mas não veja
Porque há muito tempo
Nenhuma arma foi apontada para vós
Pelos vossos, pelos outros, pelos conhecidos.~

Teresa Durães
Agarro a minha cadela. Sinto o pulsar do coração por debaixo do pelo e acaricio-a. 7 vezes calma, 7 vezes segura. 7 vezes viva num mundo que já não existe.
Corremos na praia, em prados esquecidos, nos topos das montanhas libertas de luzes e ruído. Somos ondas, ervas, rochas, somos todos os desígnios.
Quando anoitece e os Deuses já se retiraram para mais um dia, deitamo-nos ao relento onde sussurro histórias das estrelas, amores e traições, epopeias e tragédias. Ela espeta as orelhas, quase jurava que me entendia. Ela sabe, já há pouca vida.
Estendo-me ao comprido. Patas em cima, cabeça na minha barriga. Tento imaginar um mundo sem ela, um mundo estéril, um mundo triste, uma aceitação difícil.
Abraço-a. Tenho medo. Tenho tanto medo de a saber sem vida. Por favor, 7 espadas acima.
Teresa Durães in "7 espadas acima", gratuito para download na loja kobo.com


segunda-feira, 6 de julho de 2020

Estou cansada
Bastante cansada
Cansada demais
De tanto cansaço
Levanto-me todos os dias
Sabendo que ficarei cansada
Cumprindo
Sempre cumprindo
Ouvindo e cumprindo
Fazendo e cumprindo
Regresso
Continuo cansada e cumprindo
Ninguém sabe como estou
Ninguém
Estou cansada das palavras
Dos gestos e das explicações
Cansada de dizer que estou cansada
Se não cumprisse
Não estava tão cansada
Nem haveria palavras
Nem gestos explicações regressos
Teresa Durães





Veio com o vento a uma velocidade de um furacão. Devassou a passagem onde passou, mas não em vão. Surgiram sorrisos nos lábios, cintilaram olhares e provocaram alegria. O que era passado desapareceu e transformou os dias. Pousou a cabeça no ombro; só queria descansar e aninhar. Deixou-se estar: o aroma da pele soltava-se lentamente em adormecimento puro. Minutos roubados para encarar outro dia; minutos urgentes que lhe davam vida. Pedaços de um quotidiano não vulgar. As cores preenchiam e deixou-se vogar pelo inteligível. Diz-me tu, o que é o amor?

sexta-feira, 3 de julho de 2020


Quero ser
um sino dobrado
tocando nas manhãs lentas
nos verões quentes e desertos.
 
Um monte estendido esperando a paz
na planície amarela e deserta
sem consciência do seu princípio e fim.
 
Uma toca de coelho
cheia de subtis caminhos
que intercepta com outros
criando a malha escondida.
 
A água que se infiltra
pelas fendas invisíveis.
 
A raiz que desventra o muro.

(dedicado à minha filha, escrito há tempos, parabéns filhota!)

quinta-feira, 2 de julho de 2020







Um espaço e outro, e espaços entre espaços,
e vazio entre uns e outros.
Existem raízes profundas que perfuram muros
outras tão soltas.
Existe o mar com o seu território tão próprio
e na tua lassidão, na tua insolvência,
não vês que há caminhos paralelos,
tão confusos onde nada que queira perdurar irá se absorver, absolver.
Somos corpos mas nem todos estão adormecidos.

Teresa Durães in "Teixo-Mulher, gratuito para download na loja kobo.