terça-feira, 10 de março de 2020




[Cezanne]


Sei-me agricultora desde muito cedo, só tinha duas sementes, frágeis como todas. Como inexperiente semeei-as o melhor que pude, reguei-as, árvores diferentes, quantidade de água díspares, sol dissemelhante, tudo desigual. Para uma contava aventuras, feitos dos antigos, para outra decidi falar de horizontes alcançáveis mesmo quando pensamos que não conseguimos. Veio a primavera e começaram a dar flor, primeiro uma, depois outra, ano após ano cresciam e da flor veio o fruto e do fruto a esperança que fortalecessem. As minhas sementes fizeram-se árvores eu, espantada, fiquei espasmada com a minha obra. Mas a primeira árvore, todas as vezes que colhia os seus frutos, azedavam na minha boca, só na minha. Desesperada comprei estrume, pedi a um especialista para a verificar e tudo o que me entregaram foram folhas de medo, medo das minhas mãos.

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