segunda-feira, 16 de dezembro de 2019


Levantei-me de manhã, ter de ir à cidade é um pesadelo, eu citadina há cinquenta anos e só pertenço ao campo há menos de um mês. Quando era miúda e as férias de verão se aproximavam ia sempre um mês para a quinta dos meus avós. Fazia a mala com quinze dias de antecedência e sonhava todas as noites que lá estava. Era a liberdade total, as árvore, os animais, o cão que tomava-o como meu. A minha avó obrigava a dizer uma prece ao anjinho da guarda, conceito que desconhecia, mas deslizava a lengalenga e os lençóis cheiravam a sabão lavados no tanque e corados ao sol. No início não havia eletricidade, essa veio muitos anos depois, as sombras dos candeeiros de petróleo metiam-me medo, mas enfiava-me debaixo das encobertas, todos sabem que debaixo delas nada nos acontece.

Acordar e sentir o sol e o campo à minha espera, apanhar amoras maduras, ajudar a dar de comer às galinhas e coelhos, correr por entre o milho fingindo que me perdia e arrancar um cacho de uvas da videira era tudo o que queria.

Quando regressava a Lisboa quase chorava, tinha sonhos durante muitas noites que continuava a lá estar, sonhos que duravam meses e acordava angustiada. Mas vinha a escola, os amigos e eu sempre gostei de estudar. Adiava as saudades e ainda hoje as adio porque os tempos não regressam.



(há quase um mês que ando a tratar de burrocracia, a minha casa nova está em obras, ando sem tempo para nada, peço desculpa a todos)

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