terça-feira, 23 de abril de 2019

A casa das corujas


          
            A casa das corujas, altiva, branca como as habitantes da chaminé da cozinha. As memórias dos dias antigos onde em garoto passava o longo verão com os avós. Representação da liberdade. Total. Devaneios solitários por entre a vinha; os pés descalços do pequeno citadino que, quando chegava, as pedras pequenas afiadas rasgavam a pele nova. A pouco e pouco já nem se lembrava e o neto da aristocracia rural facilmente era confundido com os outros: dos filhos dos jornaleiros que rodeavam as mães enquanto estas, de sol a sol, trabalhavam a terra cantando para passar o tempo.
            Pele tisnada ao fim de uns tempos, calções remendados, infiltrava-se nas outras quintas para roubar fruta – tinha mais sabor, dizia. O da aventura de ser livre nas tardes quentes onde a brisa não soprava e os adultos não o tinham de baixo de olho.
        Os da terra troçavam dele. Não tinha habilidade para trepar árvores, diziam. Tão pouco distinguia rãs de sapos. O que percebia de pássaros? Por acaso teria uma fisga com ele? Ele, num ataque de fúria, demonstrava a sua valentia (que não tinha), mas recusava-se matar animais. Bárbaros. Como o que faziam aos cães; mantinham-nos presos todos os dias à casota e isto o ano inteiro. Coitados dos bichos que nem festas levavam. Os avós faziam o mesmo alegando que serviam de guarda e para mais nada. Ele fechava as mãos em violência, mas calava. Não se podia contrariar os mais velhos, tinham-lhe ensinado. Sabiam mais sobre os mistérios da vida e ele apenas tinha de aprender. Velhos, mas detentores do conhecimento e moral. Calava, mas roubava carne da mesa às escondidas e dava ao infeliz animal. Festas e mais festas durante a sua permanência. Durante a sua estadia nada lhe faltaria. Só não podia passeá-lo, o avô avisara-o em tom severo lendo o pensamento que tentara ocultar. Sem sucesso.
            As noites deslumbravam-no. Estrelas e tantas estrelas. Todas acompanhadas pelo cântico dos grilos. Ao longe a água que caía no tanque e um ligeiro coaxar (de uma rã ou sapo?). Quando o calor era totalmente insuportável passavam um pouco de tempo no alpendre a conversar. Os avós falavam sobre as terras, as colheitas que em breve seriam feitas, as previsões para as vindimas. Ele escutava atentamente como se percebesse a conversa dos adultos. De galinhas ia entendendo; bastava dar-lhes de comer e no fim do dia verificar se tinham ovos. Os coelhos estavam fechados durante a noite e dia; diziam que eram felizes com um punhado de erva.  
            Ou não. Talvez assim não fosse. Nem os porcos no curral ou as vacas na leitaria. Afinal os animais estavam encarcerados o tempo todo para a engorda com exceção do cão que não passava de instrumento de guarda.
            Pela primeira vez o garoto percebeu que a liberdade da casa das corujas não passava de uma ilusão. Seriam todos os paraísos assim? Mesmo aquele que o padre da aldeia tanto apregoava quando falava na ressurreição de Cristo? Não sabia, afinal era novo demais para questões complicadas e foi deste modo que modificou o seu comportamento.
            Nunca mais andou descalço nem se misturou com os filhos dos jornaleiros. O absurdo estava em querer ser quem não era. Tinham razão os miúdos do campo: não era ligeiro, não conhecia os pássaros e jamais mataria um. Fez festas aos coelhos, ao cão e alimentou as galinhas. Do porco e das vacas não se aproximou. A verdade é que tinha medo, não estava acostumado.
         Assim que soube que o vinham buscar para regressar à cidade aproximou-se de todas as gaiolas. Num profundo pesar por ir de novo para o seu cativeiro, abriu a porta dos coelhos e deixou-os sair. As do galinheiro. Pocilga. Leitaria. E no fim, depois de ter a certeza de que nenhum animal se iria ferir, o cão (que numa louca correria desapareceu dali para fora).
            Nunca mais voltou à casa das corujas. O pai, indignado com o seu ato, colocou-o de castigo. A mãe tentou que a pena fosse abrandada. Mas ele, ele que os tinha soltado, com nada se importou. Escutou todas as recriminações, as descrições do prejuízo causado. Aguentou os castigos infligidos.
Os anos passaram e esqueceu a casa. Retomou os estudos, a vida da cidade, o seu próprio caminho. Mais tarde, depois de passar os devaneios próprios da adolescência, acertou na namorada e quase esteve para casar. Não se concretizou, afastou-se. Ainda viajou, trabalhou, conheceu muitas realidades. Boas, más e outras que são simplesmente indiferentes. Entretanto, o mundo deu as suas voltas sem querer saber das tragédias humanas até que retornou à cidade onde por lá ficou a viver e a trabalhar numa atitude solitária. Um homem novo habituado ao silêncio e ao pensamento.
Até ao dia em que foi ao funeral dos avós.
          Entrou na Casa das Corujas. Parecia estar tudo na mesma não fora a procissão de gente que aparecera para dar o último adeus.
            Estava um cão preso a uma corrente. Lembrou-se do que tinha feito quando era miúdo. Sorriu, o tempo passara e não era o mesmo. A ilusão dos tempos, prisões e liberdades transformaram-no, mas continuava a sentir-se num cativeiro e tinha o mesmo olhar do animal encurralado, resignado, por mais sítios longínquos que tivesse visitado.
            Entrou na casa. O seu corpo esticara e os olhos apanhavam dimensões diferentes das paredes brancas, os móveis mantinham o mesmo perfume e juraria que os verões nas noites quentes teriam o mesmo som. Do coaxar das rãs, já aprendera. Reparou que alguns dos miúdos de outrora estavam presentes com rosto de homens. Apertou-lhes a mão em sinal de reconhecimento, mas acabou por ficar quieto a um canto enquanto os seus pais e os tios faziam as honras da casa herdada.
Era noite quando tudo terminou. As tias que mal as reconhecia e a respetiva prole reuniram-se na mesa de jantar onde os avós costumavam vigiar as suas maneiras muitos anos antes. A pouco e pouco notou as vozes a subiram de tom até ao ponto do desentendimento total. Olhou para a mãe, distante, em jeito de pergunta. Aproximou-se e apercebeu-se. Começara o festim dos abutres. A herança, a disputa.
            Saiu sem que ninguém desse por nada. Já tinha entrado no carro para voltar a casa quando olhou para o cão. Estaria na lista da distribuição dos pertences da herança? Será que ninguém se tinha lembrado que o animal estava a sofrer também pela perda dos donos? Lentamente aproximou-se. O cão. cujo nome desconhecia, ao vê-lo aproximar-se, não se mexeu. Ganiu apenas. Fez-lhe uma festa e em troca recebeu uma lambidela. Retirou-lhe a corrente e colocou-o no carro. Partiu.

6 comentários:

  1. Amei este texto!
    Não sei porquê, ou talvez saiba, fez-me lembrar José Luís Peixoto.
    Ainda bem que ele libertou e levou o cão.
    Tinha de ser!

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  2. Para ler em voz alta
    estes vagarosos instantes
    mais vermelhos
    que os nossos lábios

    Bj

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  3. Fantástico seu blog
    e adorável sua escrita.
    Aguardo sua visita
    no Espelhando.
    Bjins
    CatiahoAlc.

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  4. gostei muito de ler o texto
    escreves muito bem, mas isso tu sabes

    beijo

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  5. Uma estória tão bonita para reviaitarmos um tempo e um lugar que foram nossos. Tão longe? Sempre à mão se o quisermos. Afinal, tudo se repete em nós e nos outros que nos substituem.
    É sempre um prazer a leitura deste sítio, Teresa Durães.
    Dias de luz e um Bj.

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  6. Uma história muito bem narrada. Gostei do garoto que optou por ser ele próprio e do homem em que se tornou. Parabéns, minha Amiga Teresa!
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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