terça-feira, 17 de março de 2020



Hoje fui ao supermercado, faltavam uma coisinhas cá em casa. Calcei umas luvas descartáveis e fiz-me à estrada. Olhei de um lado para o outro à procura do tal vírus, não o via em lado nenhum, mas sabia-o matreiro. Atirei as compras para dentro do carrinho, corri para o carro, entrei, acelerei, fui apressada para casa antes que ele me perseguisse. E se já estivesse lá dentro? Tirei a correr as compras, fechei o carro, selei-o, coloquei avisos em todo o lado – Cuidado, foi à Vila!, e de luvas arrumei as compras. Até que as deitei para o lixo, selei-o, incinerei-o, tomei banho de álcool, lavei a roupa toda a 90 graus e estafada adormeci no sofá.

Depois fui comprei uns óculos especiais, com uns filtros. Custaram-me imenso dinheiro, foi numa loja que não posso fazer publicidade. Éramos poucos, muito poucos. Comprei a versão 5.1, o máximo que tinham. Só permitem ver as últimas sondagens do Covid-19, as declarações da DGS e rir com os amigos. Não é que funcionam?


(Não, não se sentem no sofá a sofrer de antecipação, pensem em coisas alegres até isto passar, se algum ente/amigo adoecer, esperem o melhor)

quarta-feira, 11 de março de 2020


[Klee]


Se de alto me ergui, se de alto lutei, se de alto conquistei foi tudo por ti e por ti o farei. Contudo foste embora e aceito-o, aceito os caminhos diversos, aceito a diversidade mesmo que as minhas mãos fiquem frias.

terça-feira, 10 de março de 2020




[Cezanne]


Sei-me agricultora desde muito cedo, só tinha duas sementes, frágeis como todas. Como inexperiente semeei-as o melhor que pude, reguei-as, árvores diferentes, quantidade de água díspares, sol dissemelhante, tudo desigual. Para uma contava aventuras, feitos dos antigos, para outra decidi falar de horizontes alcançáveis mesmo quando pensamos que não conseguimos. Veio a primavera e começaram a dar flor, primeiro uma, depois outra, ano após ano cresciam e da flor veio o fruto e do fruto a esperança que fortalecessem. As minhas sementes fizeram-se árvores eu, espantada, fiquei espasmada com a minha obra. Mas a primeira árvore, todas as vezes que colhia os seus frutos, azedavam na minha boca, só na minha. Desesperada comprei estrume, pedi a um especialista para a verificar e tudo o que me entregaram foram folhas de medo, medo das minhas mãos.


[kandinsky]

Não sei que loucura tomou o mundo, as pessoas, os enganos. Olho à minha volta, sei que quem vende recebe e quem cultiva apenas tem em poucos momentos o que colhe porque de um momento para o outro tudo se vai e as mãos ficam vazias.


[kandinsky]

Não, não tens de dizer nada, nem deverias ter feito essa pergunta, não sei em que caminho nos dividimos, não sei onde te perdi, foi por aí num equívoco qualquer, num episódio meu que não conseguiste aceitar, uma personagem que não sou eu nem da minha escrita e por mais que grite, por mais calma que esteja tu sempre pensarás em mim naquele dia, naquela cama, naquele momento. Não tens culpa nem eu, há tanto na vida onde não existe uma razão, mas ainda não compreendeste isso e não sei se um dia conseguirás. Entretanto olho o teu retrato, relembro toda a minha luta, todas as vezes em que me calei só para te proteger, na face que dei para te salvar de amarguras e tu escolheste um caminho de enredos e enganos onde não poderei falar ou gritar, essa é a tua escolha e sei que morrerei primeiro antes de descobrires a margem onde ancoraste.

segunda-feira, 2 de março de 2020



Estou a ficar louca e não sei, vejo flores a dançar e não é o tempo delas, vejo árvores a cantar e não há coro para elas, vejo ervas entrelaçadas a fazerem uma carpete para a minha sala, vejo andorinhas fora de época e penso, onde estou, em que planeta fui parar, que distância percorri porque nada do que vejo é real, somente as raposas sabem a minha triste realidade e escondem-se dos Homens com medo da sua extinção.


[Isabel Magalhães]

De repente a música rebenta com o quotidiano desenhando palavras que gritam nas paredes brancas,
- Vem,
alicia-me e eu vou por túneis escondidos, vou sem saber para onde, vou numa louca procura pelos caminhos escondidos que nos dão a magia que me está a faltar, vou desesperada porque o céu está negro e preciso de bosques, de castanheiros, de erva nunca antes tocada. E danço, danço desenfreada, a insânia toma-me, a vida toma-me, os Deuses tocam-me e quero-me assim até estar saciada.