[Gilles]
O negro do céu, a chuva persistente, nada lá fora é convidativo e recolho-me. O frio continua apesar da chuva, olho o monte de folhas que tenho para corrigir, insisto, desisto, procuro um meio fácil de não pensar, volto a considerar até que venho escrever estas linhas na esperança que o cinzento desapareça, na esperança de embalar e ressuscitar. Preencho o cérebro de pautas de música, vejo telas, procuro a arte que em mim não encontro e desespero com as mãos tão presas. O corpo encharcado em café, três voltas na sala, três vezes sentada, três vezes desesperada.
Tenho todo o sossego, tenho todo o espaço, por onde espreita o sol que me aquece as mãos e me devolve o sorriso? Onde caem os reflexos dos dias solarengos? E neste dia tão triste, neste dia tão acabrunhado não vejo mundos escondidos nem tão pouco consigo falar comigo. Fecham-se as portas vedando a chuva, as janelas quebrando o frio e levanto-me três fugindo dos mistérios da vida.




