segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Chove, mas chove tanto que é difícil de ver o exterior. Sei que estou quente, sozinha, mas não solitária, estou com a minha música, as minhas palavras que para mim são a minha fala. Porque nem falo muito ou o que falo não tem qualquer préstimo, limita-se ao razoável entre pessoas. Ainda não consegui o meu sossego total nesta confusão de obras em casa e tanta papelada a tratar só para que o Estado saiba onde estou, perco-me em tanta papelada irracional que não há poesia que sobreviva, não há momentos de reflexão, não há cinco minutos a apreciar, não há fotografias da paisagem magnífica à minha volta. Não há nada.

Chove, mas chove tanto que é difícil de ver o exterior e eu quente penso na irracionalidade da vida atual, eu que procuro o descanso, procuro conhecer como se planta uma horta, como se conhece a terra e se respira a própria terra e nesta loucura da vida urbana que nos persegue por todo o lado penso, quando me deixarão em paz, a sós, comigo e comigo, com os Deuses que aqui vivem, com a simplicidade que a vida tem para nos oferecer? Porque mais nada quero.

Levantei-me de manhã, ter de ir à cidade é um pesadelo, eu citadina há cinquenta anos e só pertenço ao campo há menos de um mês. Quando era miúda e as férias de verão se aproximavam ia sempre um mês para a quinta dos meus avós. Fazia a mala com quinze dias de antecedência e sonhava todas as noites que lá estava. Era a liberdade total, as árvore, os animais, o cão que tomava-o como meu. A minha avó obrigava a dizer uma prece ao anjinho da guarda, conceito que desconhecia, mas deslizava a lengalenga e os lençóis cheiravam a sabão lavados no tanque e corados ao sol. No início não havia eletricidade, essa veio muitos anos depois, as sombras dos candeeiros de petróleo metiam-me medo, mas enfiava-me debaixo das encobertas, todos sabem que debaixo delas nada nos acontece.

Acordar e sentir o sol e o campo à minha espera, apanhar amoras maduras, ajudar a dar de comer às galinhas e coelhos, correr por entre o milho fingindo que me perdia e arrancar um cacho de uvas da videira era tudo o que queria.

Quando regressava a Lisboa quase chorava, tinha sonhos durante muitas noites que continuava a lá estar, sonhos que duravam meses e acordava angustiada. Mas vinha a escola, os amigos e eu sempre gostei de estudar. Adiava as saudades e ainda hoje as adio porque os tempos não regressam.



(há quase um mês que ando a tratar de burrocracia, a minha casa nova está em obras, ando sem tempo para nada, peço desculpa a todos)

domingo, 8 de dezembro de 2019



Gosto de rever os meus, mas já não são meus. Goste de visitar os amigos, mas também não são a minha casa. Todos temos de ter o nosso tempo e ele não é sobrecarregado com os outros a tempo inteiro. As raízes têm de ter tempo para ocupar o solo, saberem procurar água e nutrientes e nenhuma outra árvore estará lá para dizer. As pedras nascem sós e vivem uma eternidade, recolhem histórias do tempo e vivem sob o sol e a chuva, vivem com o desgaste do vento tal como nós. Dizem que não têm vida, talvez não as tenham escutado nem posto as mãos sobre elas para com elas conversar.

Dizem, somos diferentes disso tudo, digo, não é verdade, pertencemos a este todo, não, simplesmente não o entendem. Não só os animais vivos, os sencientes que há pouco tempo lhes deram importância, algo que sabia desde que me conheço, têm de ter a nossa consideração. Uma pedra antiga é tão viva como nós, um castanheiro fala-nos da sua vida e cada folha, cada erva tem a sua própria existência tão igual à nossa.

Não, não me venham dizer que há uns mais iguais que outros, Lenine disse o mesmo.  

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019





Chegou ao pé de mim segurando uma muleta, outra pessoa onde os anos pesam e o isolamento também. Os filhos distantes, certamente não a abandonaram, mas estão longe. Recordou os seus anos vividos em África até ter de fugir sem nada, mais uma história que ouvi de tantas. Escorreram lágrimas, “Não pense nisso, já foi há tanto tempo!”, “Não costumo pensar, mas quando falo não aguento”. E ouvia, as suas terras, a sua vida, a sua casa que foi invadida.
- Volte! – Dizia-lhe o sócio – Corremos com os que se apoderaram das suas coisas!
Mas não voltaram, como era possível? E dizia-me, só víamos chegar militares, não paravam de vir, o meu marido ignorava e eu dizia-lhe, anda, vamos deixar algum dinheiro em Portugal.
- Não, os bancos só nos roubam!
E ficaram sem nada como todos os outros, desprevenidos, não acautelados apesar da senhora ter insistido.
- Trouxemos uma angolana connosco, nem sabíamos do pai dela, ela era miúda e ficou tão entusiasmada! Demos-lhe outro nome. Gostas de Filomena? O nome dela era tão difícil de pronunciar!
A Filomena veio e nunca quis regressar, o filho ainda lá foi há pouco tempo, mas o tempo passa e nada é igual.
- Tínhamos gado, deve ter fugido todo.
E eu pensei, a guerrilha de certo que se apoderou dele, mas nada disse.
- Destruíram tudo, mas a terra era deles, nós é que a ocupámos, não deveria ter sido assim.
Não, não deveria, mas os governos fazem tudo ao contrário e não são só os nossos!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019





(Dali)


Noutros tempos, noutros mundos, tu e eu acarinhando o tempo sem que este passasse, uma função inexistente, somente na mente dos distraídos. Noutros tempos e noutros mundos sempre juntos vivendo até ao começo do dia onde a realidade nos separaria, onde apenas nos uniríamos em versos travessos, em romances escritos só com o fim de te encontrar e em cada um que escrevo tu estás lá porque nesta vida não vieste.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019



(às 7h30 da manhã)


Mudei-me, da cidade para o campo, de uma casa limpa para uma cheia de obras por fazer por isso desapareci daqui. Um café pela manhã olhando oliveiras, o frio que chega pela noite, a confusão de papéis a tratar, o Estado adora isto e tenho a certeza que esqueci qualquer coisa apesar de todas as listas intensas que fiz. Hoje nem sala tenho porque está tudo uma confusão, mas felicidade de aqui estar no sossego, longe do barulho, do desassossego é tão grande que todos esses pormenores acabam por ser indiferentes.

Não, hoje não há poesia ou textos poéticos, há uma ode às oliveiras, aos caminhos recônditos.

- Não se isole!

Não existem telemóveis, internet? E, claro, viagens para ver os filhos de vez em quando, ou eu ou eles. Agora eu porque aqui não consigo receber ninguém no meio de tanta pedra caída da parede derrubada.

Porque partilho isto? Não deveria ser um assunto só meu? Porque não o deverei se uma aventura deve ser contada e esta é uma aventura, uns dias sem eletricidade e a velas, uma casa de banho exterior (que horror!) enquanto as outras não são feitas, mas tudo faz parte de uma experiência de vida e eu estou a tê-la.

Sair das grandes cidades é sair de Portugal, do Portugal que conhecemos e é tão estranho. Claro que em breve a novidade será o quotidiano, mas até lá vou conhecendo Portugal.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019


Chegar a casa e ter simpatia e acolhimento, não sabia que existia. “Tome, leve um caldo verde, gosta de paio? Tenho aqui umas azeitonas também e o horário do padeiro. Se precisar seja do que for contacte-nos, temos de ser uns para os outros”.
Em quase cinquenta anos de vida nunca tinha ouvido tais palavras nem tamanha hospitalidade, sim, a senhora vem conversar comigo, mas tenho paciência para a ouvir, sempre tive tempo para ouvir anciões, têm histórias maravilhosas de tempos idos. Têm uma certa solidão no olhar e o que é uma meia hora para mim? Ela desceu uma rua com uma canadiana para saber se a Teresinha estava bem, para poder ter um dedo de conversa. E dei-lhe, pouco mais posso dar a não ser o que faz falta, companhia. E o que é uma meia hora da minha vida a gente que pede tão pouco?



(peço desculpa a todos por não visitar as V. páginas, a minha vida parece um furacão)