quarta-feira, 23 de outubro de 2019






Todos os dias olho o céu, por vezes encoberto, por vezes aberto. Procuro um sinal de uma ave que me diga em que direção seguir e espero, espero, espero que seja para breve o próximo caminho a trilhar. Tanto tempo entre paredes de betão, eu que quero voar também sem restrições. Digam-me, porque me amarram as mãos? Porque me prendem na insanidade do quotidiano quando nada disto me diz respeito? E corro, corro como louca à procura da razão sem a ver, procuro debaixo das pedras, nos caminhos invisíveis e vejo apenas pedras da calçada cem mil vezes calcorreadas. Ponho música onde a ouço como uma louca de tão grande o desespero, na arte encontro-me, nos poetas, nos escritores, nos pintores, não nesta insanidade que me rodeia e tento respirar não conseguido.

terça-feira, 22 de outubro de 2019


Não entendem, compreendo, compreendo mais do que é necessário, querem a vida como ela se apresenta, não querem se se transforme num pesadelo. Compreendo perfeitamente, quem o quer? Eu gosto de deitar-me à noite e ver a um filme calmamente, mas enquanto o faço largo CO2 no ambiente, enquanto vos dirijo estas palavras largo CO2 na atmosfera. A nossa pegada ecológica vais mais além do que pensamos, iremos ter uma guerra pela água, migrantes irão/virão e sim, esta noite irei ver um filme porque não passo de um inseto nesta loucura chama civilização.




Saí para a rua sufocada, na estrada buzinavam automóveis, em todo o lado betão. Corri, corri, corri e apanhei o comboio para Sintra. Nada era o que era, mas trepei aos caminhos escondidos até chegar às minhas pedras, ao meu refúgio. Queria tanto dizer que tudo permanecia como sempre, que as motos não devastavam o lugar, que os automóveis não devastavam o lugar, mas seria mentia e mentiras não conto.
Embrenhei-me por caminhos antigos, por aqueles que os turistas não conhecem e não levam a nenhum lugar especial, simplesmente a natureza livre dos outros onde poderia reencontrar os meus Deuses, esses que ninguém acredita, mas para mim não é importante.
Só queria o caminho das ervas, o caminho da paz, o caminho longe de motores e gente que não preserva, não o respeita e nem compreende. Não consegui nada disso, são demasiados, aniquilam sem saberem o que fazem e chamam de desporto.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019




Voei toda a noite porque estava desesperada. Uma ave como eu não é notívaga, os predadores estavam por aí, mas não consegui parar. Não me procuravam, talvez os rastejantes, nenhuma ave pensaria que eu iria percorrer o caminho da lua. Mas precisava de encontrar o meu caminho, um lugar apenas que para mim fosse seguro, um refúgio, quase como um lar. Sei que teria de dormir pela madrugada quando devia estar desperta, sei que o mundo seria virado do avesso por o ter provocado. Mas a necessidade de fugir era tão grande que voei pela noite fora. Queria tanto a paz do caminho até que encontrei uma reentrância numa das pedras antigas. As pedras não falam, disseram-me, que disparate, tudo o que pertence à natureza tem voz, presença, vivência e a pedra disse-me, deixa-te estar, eu protejo-te. Sei da loucura dos Homens e de eles eu fujo, enquanto não descobrirem as maravilhas da natureza estarei segura.




Ontem esqueci-me do amanhã, apanhei marmelos, cozinhei-os e fiz marmelada para uma época. Não sei se esse tempo existirá, mas o frigorífico estará cheio para quem queira me visitar. Falo com os meus filhos como se todos os amanhãs existissem, provavelmente teremos mais vinte anos, eu serei velha, eles não, os bebés de hoje pouca idade terão. Ninguém se importa, talvez nem eu devesse, talvez ignorasse e vivesse o mais simplesmente que conseguisse, apagar as notícias, ignorar os apelos, ignorar tudo o que é tenebroso e viver uma vida simples. Provavelmente o farei, não consigo lutar contra um mundo ignorante ou que o prefere assim, talvez devesse cultivar a minha alface, as minhas árvores de fruta e esperasse sentada as intempéries. Algo em mim não me deixa e penso, porque te desgastas? Dorme, vive como os outros, adormece os dias e eles passarão, talvez nem nada aconteça na tua vida, somente nas dos teus filhos.

sábado, 19 de outubro de 2019






Enquanto sonhamos, enquanto sentimos o tronco de um carvalho, enquanto visualizamos um voo de um grifo eu liberto as minhas asas e vou ao seu encontro. Não sei se me querem encontrar, o meu odor a predador é tão intenso, de tão forte que é escondem-se os animais das florestas, as árvores encolhem-se. “Não!”, suplico, “Não, quero ser um deles, mas a eles pertenço.” Prendo-me a pedras, sinto o seu pulsar e sei que terei paz, a paz de mais de mil anos pois elas foram testemunhas da nossa vivência, da minha. Sussurro-lhes, salvem-me e deixem--me voar, sei que também destruo, não sei viver de outro modo, nada disso quero, por favor ajudem-me.”
As pedras na sua língua tão antiga que se perderam nos séculos, aqueceram-me, “deixa-te estar, repousa em cima de mim como os pássaros o fazem, como os habitantes dos bosques o fazem. Anda, descansa, talvez haja solução, não para ti nem para os teus, faremos de nós uma lembrança do que tudo aconteceu e quando o planeta se irritar nós permaneceremos. Talvez voltes como um pássaro depois de todo o acontecimento, pousarás aqui e dir-te-ei, és sempre bem-vinda.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019




O clima aquece, os países do Sul estão habituados. Irá morrer gente no Norte, gente essa que nunca sentiram o solo seco e a falta de água, gente que não sabe o que são condições difíceis. E vivem as suas vidas como se nada se passasse, os responsáveis, os criminosos, os que que pensam em economia, mas quando a água faltar não haverá diferenças, haverá guerra, e guerra teremos. Não nós, pobres portugueses que estamos sempre na míngua da chuva, não os países do Sul que esperamos a chuva a cada ano. E por isso digo, vós, os condenáveis, vós que tendes tudo e tudo quereis, o que farão? Nada mudarão na vossa vida mesquinha, mas não se livrarão do que o planeta vos presenciar, porque sim, não irão ficar incólumes.