quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Onde esconderam as estrelas?
Não as vejo,
perderam-se no negro do céu,
abismo da noite.
Disseste-me que não seria assim,
acreditei mas não as vejo.
Sento-me debaixo de uma árvore
ouvindo o breve
murmurar das folhas
negras contra o negro.
Onde colocaste as minhas estrelas
que não as vejo?
Outrora iluminavam caminhos,
mostravam regatos noturnos,
olhos de aves
que observavam o meu olhar.
Outrora vigiavam-me,
vigias-me tu, dizes,
não te vejo.
Nem vejo as estrelas da noite
debaixo da árvore onde me sento
a ouvir as aves que não vejo
no murmurar das folhas
que se movem negras contra o negro
do abismo da noite.
Disseste-me que não seria assim. 

Teresa Durães in "Passos sem rasto"

quarta-feira, 7 de agosto de 2019



(o vídeo seleccionado foi pela música, uma música dos rebeldes italianos durante a II guerra Mundial, agora utilizado na série La casa de papel, uma música dos rebeldes que vão para a guerra e que dão a sua vida por uma causa. Bella Ciao) 

Acordei dum sonho, não sabia onde estava, a água alagava tudo, a gente gritava e fugia e eu longe na serra impotente. Foram vozes que ouviram o perigo, mas calaram-se, foi gente que soube e calou-se. Tentei chamá-los, venham, venham por aqui, mas era tarde de mais, o mar levava-os, a água subia e tudo consumia. O tempo, inclemente, devorava o resto dos Homens que fugiam, tinha passado o tempo do arrependimento. Não, não culpem os Deuses, não culpem ninguém se não vós próprios porque enquanto viviam as vossas vidas facilitadas o mundo gritava e ninguém o quis ouvir.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019


[Miró]

Não quis pensar mais em ti, arrumei as malas e parti, não conseguia sentir as marés, fugiam de mim todas as luas. Perdia-me e precisava de devolver aos olhos os caminhos de outrora. Pousei as malas no chão numa rua qualquer, chovia e não me importei, tudo tinha de ser desmontado, ignorei o espaço, a noite, a chuva. Deixei as malas na rua, corri livre, corri até ao Cais das Colunas onde gritei, cheguei!

domingo, 4 de agosto de 2019


[Cezanne]

Se quando acordei não sabia para onde ia, porque respirei a manhã, experimentei o aroma a rosmaninho e senti-me mais uma vez viva, não queria dizer que estava certa em decidir ir por ali, mas fui. Peguei em tudo, comecei a caminhar sem direção nem destino, o que procurava sabia, onde estava desconhecia. Percorri os caminhos dos castanheiros até encontrar uma clareira com um lago. Sentei-me e mergulhei ao de leve com os dedos, as ninfas estariam por ali, só queria lhes perguntar por onde andava o meu amado. Perto, perto, responderam-me, tem paciência e paciência tenho tido tanto tempo ido. Mas sempre esperarei porque virá, isso sei.

sábado, 3 de agosto de 2019


[Fotografia de Luís Stuart]


Acordei numa madrugada fria, olhei para o vazio das mãos, tantas vezes bloqueadas, tantas esquecidas. Arregacei mangas, saí para os bosques enevoados, saí para recolher o dia. Enquanto desenhava na terra misteriosos círculos que nem sabia de onde vinham, cantavam a carriça, o melro-azul, o cruza-bico. Sentei-me com a brisa, queria sentir as raízes, as ervas livres. E fui floresta, caminho, gente e regressei finalmente.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019





Não sei quando aconteceu, as árvores chamaram-me, os cumes das serras gritaram e eu tão impotente fui. Fui e levei os pássaros, fui e levei os lobos, os grifos, todos o animais que queriam ir comigo. Fugimos para os bosques onde não nos encontrariam, outra terra longe desta, longe dos olhos dos predadores, longe do Ser Humano, longe de tudo. Fugimos e escondemo-nos. Até quando aguentaremos? Até quando seremos perseguidos? Dizem os pássaros, as raposas, as galinholas, os faisões e com eles os teixos em extinção. Até quando conseguimos estar escondidos?  Deixei cair a mochila, não os posso assegurar, regra dos Homens, regra dos Seres Humanos, eu que pertenço a eles.

Peguei em pedaços de pau, juntei-lhes ervas silvestres, não colhi flores nem nada que daria fruto. Acendi uma fogueira, inspirei, alarguei o círculo para os presentes. Estávamos todos, todos os que queríamos regressar, reviver, viver, sobreviver. Os antigos que conheciam, os novos que procuravam, os que simplesmente estavam. Unimo-nos como nunca antes o fizemos, unimo-nos nesta procura pela vida, pela existência, pela presença. E seremos mais do que nós, seremos para vós, para o que virá, faremos tudo para parar, seremos o instrumento que falta sem poderes, mas estaremos por todos mesmo que todos nos ignorem.