terça-feira, 17 de dezembro de 2019



Hoje citei cem vezes o meu nome em voz alta e cheguei à conclusão que era o mesmo de há cinquenta anos atrás. É estranho dizê-lo e não ouvi-lo de outra pessoa, mas mesmo assim fi-lo, não o fiz em frente a um espelho, isso seria interferir na experiência de que o nome era o meu e não o de outrem.

Hoje olhei-me ao espelho cem vezes e tentei perceber se a imagem refletida coincidia com a do cartão de cidadão, à parte da estranha imagem cinzenta com que nos presenteiam, descobri que sim, era eu mesma, a Teresa, mais velha, mais cabelos brancos, com os filhos adultos, mas sim, era eu.

As minhas mãos têm mais rugas, talvez seja a parte do corpo que me faz confusão, nãos os cabelos ou a cara, antes as mãos. Antes tinham muita força, levantavam as crianças, faziam várias tarefas ao mesmo tempo e agora não, são simplesmente mãos.

Quando era miúda pensava que as minhas mãos não mostravam trabalho e olhava-as lisas, não calejadas, sabia lá que mais tarde tudo seria diferente. Transformaram-se em mãos que ligam aos braços, à coluna e a um passo de cada vez.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Chove, mas chove tanto que é difícil de ver o exterior. Sei que estou quente, sozinha, mas não solitária, estou com a minha música, as minhas palavras que para mim são a minha fala. Porque nem falo muito ou o que falo não tem qualquer préstimo, limita-se ao razoável entre pessoas. Ainda não consegui o meu sossego total nesta confusão de obras em casa e tanta papelada a tratar só para que o Estado saiba onde estou, perco-me em tanta papelada irracional que não há poesia que sobreviva, não há momentos de reflexão, não há cinco minutos a apreciar, não há fotografias da paisagem magnífica à minha volta. Não há nada.

Chove, mas chove tanto que é difícil de ver o exterior e eu quente penso na irracionalidade da vida atual, eu que procuro o descanso, procuro conhecer como se planta uma horta, como se conhece a terra e se respira a própria terra e nesta loucura da vida urbana que nos persegue por todo o lado penso, quando me deixarão em paz, a sós, comigo e comigo, com os Deuses que aqui vivem, com a simplicidade que a vida tem para nos oferecer? Porque mais nada quero.

Levantei-me de manhã, ter de ir à cidade é um pesadelo, eu citadina há cinquenta anos e só pertenço ao campo há menos de um mês. Quando era miúda e as férias de verão se aproximavam ia sempre um mês para a quinta dos meus avós. Fazia a mala com quinze dias de antecedência e sonhava todas as noites que lá estava. Era a liberdade total, as árvore, os animais, o cão que tomava-o como meu. A minha avó obrigava a dizer uma prece ao anjinho da guarda, conceito que desconhecia, mas deslizava a lengalenga e os lençóis cheiravam a sabão lavados no tanque e corados ao sol. No início não havia eletricidade, essa veio muitos anos depois, as sombras dos candeeiros de petróleo metiam-me medo, mas enfiava-me debaixo das encobertas, todos sabem que debaixo delas nada nos acontece.

Acordar e sentir o sol e o campo à minha espera, apanhar amoras maduras, ajudar a dar de comer às galinhas e coelhos, correr por entre o milho fingindo que me perdia e arrancar um cacho de uvas da videira era tudo o que queria.

Quando regressava a Lisboa quase chorava, tinha sonhos durante muitas noites que continuava a lá estar, sonhos que duravam meses e acordava angustiada. Mas vinha a escola, os amigos e eu sempre gostei de estudar. Adiava as saudades e ainda hoje as adio porque os tempos não regressam.



(há quase um mês que ando a tratar de burrocracia, a minha casa nova está em obras, ando sem tempo para nada, peço desculpa a todos)

domingo, 8 de dezembro de 2019



Gosto de rever os meus, mas já não são meus. Goste de visitar os amigos, mas também não são a minha casa. Todos temos de ter o nosso tempo e ele não é sobrecarregado com os outros a tempo inteiro. As raízes têm de ter tempo para ocupar o solo, saberem procurar água e nutrientes e nenhuma outra árvore estará lá para dizer. As pedras nascem sós e vivem uma eternidade, recolhem histórias do tempo e vivem sob o sol e a chuva, vivem com o desgaste do vento tal como nós. Dizem que não têm vida, talvez não as tenham escutado nem posto as mãos sobre elas para com elas conversar.

Dizem, somos diferentes disso tudo, digo, não é verdade, pertencemos a este todo, não, simplesmente não o entendem. Não só os animais vivos, os sencientes que há pouco tempo lhes deram importância, algo que sabia desde que me conheço, têm de ter a nossa consideração. Uma pedra antiga é tão viva como nós, um castanheiro fala-nos da sua vida e cada folha, cada erva tem a sua própria existência tão igual à nossa.

Não, não me venham dizer que há uns mais iguais que outros, Lenine disse o mesmo.  

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019





Chegou ao pé de mim segurando uma muleta, outra pessoa onde os anos pesam e o isolamento também. Os filhos distantes, certamente não a abandonaram, mas estão longe. Recordou os seus anos vividos em África até ter de fugir sem nada, mais uma história que ouvi de tantas. Escorreram lágrimas, “Não pense nisso, já foi há tanto tempo!”, “Não costumo pensar, mas quando falo não aguento”. E ouvia, as suas terras, a sua vida, a sua casa que foi invadida.
- Volte! – Dizia-lhe o sócio – Corremos com os que se apoderaram das suas coisas!
Mas não voltaram, como era possível? E dizia-me, só víamos chegar militares, não paravam de vir, o meu marido ignorava e eu dizia-lhe, anda, vamos deixar algum dinheiro em Portugal.
- Não, os bancos só nos roubam!
E ficaram sem nada como todos os outros, desprevenidos, não acautelados apesar da senhora ter insistido.
- Trouxemos uma angolana connosco, nem sabíamos do pai dela, ela era miúda e ficou tão entusiasmada! Demos-lhe outro nome. Gostas de Filomena? O nome dela era tão difícil de pronunciar!
A Filomena veio e nunca quis regressar, o filho ainda lá foi há pouco tempo, mas o tempo passa e nada é igual.
- Tínhamos gado, deve ter fugido todo.
E eu pensei, a guerrilha de certo que se apoderou dele, mas nada disse.
- Destruíram tudo, mas a terra era deles, nós é que a ocupámos, não deveria ter sido assim.
Não, não deveria, mas os governos fazem tudo ao contrário e não são só os nossos!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019





(Dali)


Noutros tempos, noutros mundos, tu e eu acarinhando o tempo sem que este passasse, uma função inexistente, somente na mente dos distraídos. Noutros tempos e noutros mundos sempre juntos vivendo até ao começo do dia onde a realidade nos separaria, onde apenas nos uniríamos em versos travessos, em romances escritos só com o fim de te encontrar e em cada um que escrevo tu estás lá porque nesta vida não vieste.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019



(às 7h30 da manhã)


Mudei-me, da cidade para o campo, de uma casa limpa para uma cheia de obras por fazer por isso desapareci daqui. Um café pela manhã olhando oliveiras, o frio que chega pela noite, a confusão de papéis a tratar, o Estado adora isto e tenho a certeza que esqueci qualquer coisa apesar de todas as listas intensas que fiz. Hoje nem sala tenho porque está tudo uma confusão, mas felicidade de aqui estar no sossego, longe do barulho, do desassossego é tão grande que todos esses pormenores acabam por ser indiferentes.

Não, hoje não há poesia ou textos poéticos, há uma ode às oliveiras, aos caminhos recônditos.

- Não se isole!

Não existem telemóveis, internet? E, claro, viagens para ver os filhos de vez em quando, ou eu ou eles. Agora eu porque aqui não consigo receber ninguém no meio de tanta pedra caída da parede derrubada.

Porque partilho isto? Não deveria ser um assunto só meu? Porque não o deverei se uma aventura deve ser contada e esta é uma aventura, uns dias sem eletricidade e a velas, uma casa de banho exterior (que horror!) enquanto as outras não são feitas, mas tudo faz parte de uma experiência de vida e eu estou a tê-la.

Sair das grandes cidades é sair de Portugal, do Portugal que conhecemos e é tão estranho. Claro que em breve a novidade será o quotidiano, mas até lá vou conhecendo Portugal.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019


Chegar a casa e ter simpatia e acolhimento, não sabia que existia. “Tome, leve um caldo verde, gosta de paio? Tenho aqui umas azeitonas também e o horário do padeiro. Se precisar seja do que for contacte-nos, temos de ser uns para os outros”.
Em quase cinquenta anos de vida nunca tinha ouvido tais palavras nem tamanha hospitalidade, sim, a senhora vem conversar comigo, mas tenho paciência para a ouvir, sempre tive tempo para ouvir anciões, têm histórias maravilhosas de tempos idos. Têm uma certa solidão no olhar e o que é uma meia hora para mim? Ela desceu uma rua com uma canadiana para saber se a Teresinha estava bem, para poder ter um dedo de conversa. E dei-lhe, pouco mais posso dar a não ser o que faz falta, companhia. E o que é uma meia hora da minha vida a gente que pede tão pouco?



(peço desculpa a todos por não visitar as V. páginas, a minha vida parece um furacão)

quinta-feira, 28 de novembro de 2019


Hoje voei pelo campo, apanhei bagas e descansei num tronco de uma árvore. Foi um voo afoito, procuram por mim os caçadores, os rapazes com as fisgas, os loucos. Tenho as madrugadas para ser livre enquanto os Homens dormem, enquanto a natureza respira. Não sei quando isto começou, perde-se a memória nas fugas, nos esconderijos, na sobrevivência. Amanhã recomeçará tudo de novo, a espera, a incerteza, o medo. Preciso de continuar para sobreviver, esconder-me, procurar, não sei quanto tempo aguentarei, estou só, estou escondida.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019




Os meus livros?
O primeiro “NAVIA”, a ingenuidade de um primeiro livro que não foi revisto pela editora e nem me apercebi.
“Recortes de um país moribundo”, um livro que adorei escrever, um pouco pesado, talvez.
“O Voo da ave”, um livro histórico na altura de Martinho de Dume, sec. VI, quatro anos de pesquisa. Tive opiniões muito contraditórias.
Depois vieram três de poesia, “A fadiga das ondas”, “Teixo-Mulher”, “Passos sem rasto”, à medida que se escreve a escrita evolui. “Passos sem rasto” foi um poema para um grande amor.
Fartei-me de editoras e comecei a publicar em ebooks, Ed. Autor, as editoras nada fazem pelos escritores. Agora sinto-me livre e saíram:
- “7 espadas acima”, textos poéticos, adorei escrever, criei um universo de deuses, os “7 espadas acima” e eu e a minha cadela vivemos as páginas
- “diz-me tu, o que é o amor?”, o que é o amor? Eu não sei, aqui escrevo diversas formas de amor.
- “O encantamento do vento” e “O cetro do Guardião”, da saga “Os Castros”, são dois livros de fantasia baseados em mitologia portuguesa e no tempo dos lusitanos. O terceiro há de sair brevemente.
O que é escrever? Para os outros não sei, para mim é vida!

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Ontem a minha cadela teve uma ninhada, ou talvez não tenha sido ontem porque os cachorros têm quatro meses e a mãe já não quer nada com eles. Eles que comam por aí, eles que vivam por aí porque chegaram à idade de se desenvencilharem e o tempo da maternidade acabou.
Ontem umas andorinhas tinham posto ovos num ninho e foi lindo ver as suas crias a rebentarem-nos e saírem, a pedirem comida e serem alimentadas bico no bico e a experimentar o seu primeiro voo até que a mãe as enxotou e seguiram o seu caminho. Pensando bem talvez não tenha sido ontem.
Ontem uma leoa teve filhotes, eram tão giros a brincarem até que um dos machos enfrentou o leão dominador e foi expulso da comunidade, não, não foi ontem.
Ontem tive filhos, eram uns bebés tão lindos, talvez não tenha sido ontem porque o primeiro foi embora cedo e o segundo a seguir, seguiram as suas vidas e nem os expulsei como as cadelas, pássaros, leoas o fazem.
Ontem a natureza chamou as crias que passaram a adultos de hoje, já nem sei porque confundem-se os dias e a liberdade chama os seus.
Hoje, tenho a certeza que foi hoje, os filhos foram, eu fui da minha mãe e ela da sua.


* Chamaram-me de Alien num outro texto por ter dito que os laços de sangue nada significam. E, para mim, laços de sangue não existem, existe natureza. Foi um exercício filosófico mal interpretado, mas não estamos aqui para servir os loucos?  A natureza chama, a natureza larga e todos somos natureza, estjam à vontade para contestar.

terça-feira, 5 de novembro de 2019





Perguntam-me, porque acreditas no invisível? Não tenho resposta a dar, talvez porque escrevo e nas entrelinhas os Deuses falam comigo, talvez no meu dia-a-dia fora do betão, fora da calçada portuguesa onde todos caminham de cabeça baixa sem verem o sol ou a chuva, antes num aparelho qualquer eletrónico formulam a vida.

Vivo como todos os outros, cumpro como todos os outros, calcorreio como todos os outros e por vezes a minha cabeça ainda baixa estará porque não é fácil viver, contudo procuro, procuro sem nunca esquecer que não é aqui que quero estar, não é assim que quero viver e liberto as minhas dúvidas em estranhas linhas que não serão lidas e tão pouco me importa porque a minha liberdade está na minha escrita, aceite ou não, são apenas pedaços meus compreendidos entre mim e mim.

domingo, 3 de novembro de 2019





Vejo gente, muita gente, que enterra, espezinha e nem percebe. Vejo um vento diferente que me mostra outros lugares que não são decifráveis para quem não os vê. Vejo caminhos perdidos que não foram tomados porque não os viram e eles estavam lá. Vejo tanto de tanto, vejo gente e com essa gente vêm árvores, abrigo e carinho. Vejo cascatas por descobrir e tantos segredos por descobrir. E essa gente tem regras diferentes como eu, sentimos árvores, a chuva, uma ruína, um fruto numa árvore. E sei-me que com essa gente quero estar.




Eram unidos e desunidos ao mesmo tempo, eram jovens e não questionavam a sua vida, viviam como podiam na agressividade, no abandono, no esquecimento. Eram tão novos, foram divididos, mutilados, delimitados até terem tido coragem para romper a bolha onde viviam. Uns primeiros, depois os restantes, os últimos pela força da vida. Eram tão jovens e nem todos questionavam porque era aquela a vida. Alguém questionou e saiu do círculo vicioso, viu outros horizontes sem viajar, viu vida simples, finalmente achara o sossego, tudo o que procurava. Uma face numa nuvem.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019



[Dali]

Prendem-me neste pedaço de terra quando tudo é uma explosão na minha cabeça, não para, não acaba, continua sem nexo sem a consiga travar. Prendem-me de mão atadas enquanto procuro refúgio e a cabeça gira sem se fixar, a loucura invade e não a consigo frear. Somente os passos indefinidos estão soltos e sem saberem para onde se dirigir mas continuam numa luta insana até travarem, travarem a cabeça, soltarem as mão e recordar o corpo onde está. Desespero pela sobrevivência, pelo término da desordem, pelo fim da derrota que me gira a cabeça, ata as mãos e fazem que os passos não saibam para onde vão e no fim caio estafada no chão desejando um outro dia que chegará esperando que toda a insanidade se vá.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019







A noite chegou, estava quase na hora de nos unirmos em conjunto, quase na hora dos  dois mundo se unirem, quase a hora de sermos um todo. Agarrei na mão de Tangii, uma mão forte que sempre me segurou, enquanto meu pai fazia o apelo aos Deuses para que nos ouvissem. A fogueira ardia, as labaredas lambiam o ar e as sombras dançavam entre nós. Estávamos todos unidos e unidos com a natureza, com Ataegina de um lado e Endovellico do outro, a noite em que se uniriam, a noite da ligação entre tudo. Pedíamos pouco, pedíamos que este tempo de escuridão não fosse agreste, que não nos levasse os nossos filhos, os anciões, que resguardasse as sementes e os nossos rebanhos. Que nos desse força até a luz vencesse de novo. E assim comemorámos mais um ano, unidos pelas nossas mãos, pela nossa união.






Subi o monte só para chegar mais perto dos Deuses, comigo uma trouxa de oferendas, não queria nada para mim, apenas honrar o dia de Endovellico. Com ele estavam todos os meus amigos desaparecidos, os humanos e não humanos. Com ele estava uma parte mim sempre difícil de esquecer e por isso acendi uma fogueira,  queimei ervas, deixei bolotas e castanhas junto a uma pedra e esperei toda a noite, refleti toda a noite, revi toda a noite nos que estavam no Outro Mundo, nesse onde um dia irei também e os encontrarei. Nem todos os que relembramos existiram nesta vida connosco, somos mais do que esta simples existência, um universo que se multiplica e eu precisava de paz, de amor e tive tudo isso porque os deuses acolhem quem os procura e sempre vivi com eles.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019







Deste-me a mão talvez com medo de a perder. Deixei que os teus dedos se encostassem aos meus, era um encontro nosso, um encontro íntimo no meio da multidão, mas o que tinha para te dar não era o encontro das nossas mãos no meio da multidão. Queria-te mostrar o miradouro de Santa Catarina onde talvez visses o que os meus olhos veem ou talvez fosse eu que não te compreendesse. Como poderia saber quem está em falta? Eu, pela falta da realidade ou tu por não veres os meus universos? Mas continuámos de mãos dadas como se nada acontecesse, como se a vida fosse resumida àquele contacto ínfimo e perguntei a mim mesma se seria o suficiente este lapso de tempo em que nos encontrávamos. Porque gostava do teu ombro e do teu silêncio mas também amo a floresta mais do que a cidade no fim do seu dia. 

terça-feira, 29 de outubro de 2019








Procuraste-me noutro dia pensando que estava disponível para ti, só para ti. Mas falaram-me as árvores onde não tens canto porque não as ouves e ridicularizas tudo o que não conheces. Ah! Se percebesses o meu mundo talvez não arrancasses rosas do meu quintal nem esmagavas as ervas daninhas, nem tão pouco te risses de mim quando te digo que as pedras sabem mais do que nós. mas para ti tudo é razão, como se a razão explicasse a beleza do amanhecer que não queres ver porque prefere dormir e ignorar a vida como ela é. Tens a tua vida, eu tenho a minha e não entendes que há universos paralelos que não se encontram. Talvez nem entendas que haja mais do que a nossa existência singular, mas não serei eu que to direi, terás de descobrir por ti, não passo de uma brisa nos anos acumulados da nossa existência, mas não me importo, enquanto for brisa as folhas de uma árvore tremerão com a minha passagem e saberão que por lá passei.

sábado, 26 de outubro de 2019








Atravessei um campo doloroso só para ali chegar, queria vida e vida queriam-me negar, tudo em nome da burla, em nome do aproveitamento, em nome da ganância. Para calá-los, para silenciá-los e conseguir respirar dei-lhes tudo, dei-lhes a minha sanidade, dei-lhes a minha loucura, dei-lhes tudo o que me pediram e pediram o máximo só para eu poder respirar. Tudo poderia ter sido diferente não fosse a minha necessidade de voar para longe, de esconder-me da escumalha.
São tantos os que habitam por aí, os que se aproveitam, os que não nos deixam, nós os que queremos apenas viver e nada mais, colam-se, pegam-se e sugam, sugam o sangue, o sopro.
Não, deixei de acreditar no ser humano, não os quero perto de mim, quero árvores e ervas, essas cujos nomes desconheço, mas nada de mal me fazem, antes, convidam-me, abrem-me os braços e dizem-me, anda para aqui.