sexta-feira, 18 de outubro de 2019





Será preciso um milagre, será preciso confiar nos dados que os Deuses lançam? Não, esse é simplesmente um jogo que os Humanos gostam, não, os Deuses distanciaram-se porque não têm lugar nesta vida e esta vida é tudo o que tenho. Procuro um lugar mais perto deles e é tão difícil, tão difícil, esconderam-se desta loucura, da ganância, da estupidez humana. Como é possível não verem? E enquanto penso nisso, enquanto sofro com isso, corro para as árvores, abraço-as e espero que falem comigo. Não, não sou igual a eles, tirem-me deste ciclo que não quero, mas é impossível, sou viciada na sociedade, mato tanto quanto os restantes. E no fim do dia quando me vejo ao espelho vejo uma multidão de gente atrás de mim, uns piores, outros menos, todos responsáveis e sim, não há mais Lusitanos, não há hospitalidade, não há crença, não há propósito, não há nada. Os dias correm e todos reclamam pelo fim-de-semana como se fosse uma ponte duradoura que irá salvar o que precisa de ser salvo. E nada está a salvo.



Hoje choveu um pouco, as flores brilharam, o rosto do povo brilhou, mas não sabe o mal que faz à terra quando produzem o que não devia ser produzido nestas paragens. Todos comemos, todos somos pactuantes, mas o solo grita, as barragens descem de nível e ninguém quer saber. Três regas por dia quando não devia acontecer. Nada percebo de agricultura, mas a água evapora nas horas de calor e as árvores não bebem, bebe o sol, provavelmente mais sedento do resto do Planeta. Somos inconscientes, não queremos saber, fazemos as nossas regras ao nosso sabor e a água sofre, as barragens descem, o povo queixa-se quando é o principal culpado.
Levantei voo e fugi de todos os laranjais, estou cansada da prepotência, de todo o egoísmo porque não terei palavras para explicar aos meus filhos porque terão de morrer em breve. Porque irão, como eu. As migrações começarão e a guerra rebentará, seremos um produto do impensável, do indiscutível e perguntam-me, o que tu fazes? Tanto quantos os outros, apenas tento ser um pouco menos, não consigo viver nesta civilização tão viciada e disso tenho medo.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019





- O que fazes? – perguntam-me as vozes furiosas enquanto eu empacoto as minhas coisas. – Para onde vais? Para onde te escondes?
Tão errados, tão afastados da vida, a vida não é alcatrão, dêem-me uma árvore, duas, tentarei duplicá-las, eu que nada sei sobre isso, mas sei que a vida não é o relógio e o contrarrelógio nem tão pouco a ausência da lua.
Viram o luar nestes dias? Reparam nas sombras da lua sobre as árvores, na placidez da sua luz? Repararam que o mundo avança lentamente indiferente ao que querem, ao que pedem, ao que vivem? E assim continuará até a Terra estar farta do Homem e o expulsar.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019




Um pássaro acordou-me, pensei que era um rouxinol, mas era um verdilhão. Mal os conheço, mas ele insistiu em apresentar-se, tudo isto antes de beber o café da manhã. “Anda, está sol”, disse-me, “anda, vem respirar o ar da manhã, quando todas as cores vibram e os pinheiros mansos falam entre si. “Não, não posso, tenho tanto para fazer!”, tentei fazer-lhe ver. Mas ele bicou na janela, saltou entre uma pata e outra expressando o seu espanto, a natureza no mundo e o meu mundo fechado entre paredes.
Resolvi não hesitar e saí atrás dele que voou para longe. Mal o alcançava, custava-me correr daquele modo e comecei a pensar na minha sensatez. Até que vi homens de serras elétricas prontos para derrubarem pinheiros mansos, prontos para matarem e aniquilarem. Numa fúria aumentei o meu ritmo, atirei-me a um que num gesto mandou-me ao chão.
“Quem pensas que és para nos impedires?”
O verdilhão estava pousado num ramo e eu no chão, eram três e eu não era ninguém.
“Não sou ninguém, mas não ousais nem ferir porque tereis de me matar para o fazer.”
Eles riram-se, ligaram as motosserras e derrubaram uma a uma, três árvores enquanto me empurravam.
Vieram os camiões, vieram todos os outros homens e eu impotente, o verdilhão pousou no meu ombro e bicou a minha orelha.
“Hoje não,” segredou-me, “talvez nunca. Mas vistes a manhã.”

domingo, 13 de outubro de 2019

[Paula Rego]

Deixaram-me gritar e eu gritei. Deixaram-me amaldiçoar e eu amaldiçoei. Deixaram-me chorar e eu chorei. Nada disso me satisfez e fugi da loucura dos prédios, do betão, do alcatrão e percorri veredas, caminhos errantes, trilhos mal marcados até que me perdi e caí no chão angustiada. Os castanheiros rodearam-me, cercaram-me, não me deixaram sair dali. “O que tens?”, sussurrava o vento na sua voz, “o que andas a fazer?”, murmurava a brisa, “para onde corres sem destino?”, acabaram por perguntar, mas eu na minha angústia não sabia o que dizer. Aos poucos os arbustos aproximaram-se, com o seu aroma tranquilizador sosseguei, os esquilos desceram das suas tocas, os coelhos aproximaram-se e cheiraram-me. “Tu és o inimigo”, declararam e fugiram. “Não, não sei quem sou”, tentei dizer, mas os animais afastaram-se com medo de mim menos as árvores que continuaram imóveis circundando-me. “Quem és e o que procuras?”. “Quem sou?”, pensei ainda mais angustiada, um resto de uma sociedade que não compreendo nem quero, como poderia explicar? “Sou o que procuro,”, disse-lhes num murmúrio, “não sou vento, nem terra, nem fogo e tão pouco água, sou um ente perdido num mundo proibido para mim”. “E o que procuras, então?”, insistiram. “Quero vida, quero noção, chega de razão, chega de solidão, chega de devorar o infinito, esse quero-o num vislumbre só para saber que existe”.




O verão estendeu a mão ao outono e este entrou calmamente sabendo que era a sua hora. Estranharam os transeuntes, os ausentes, os indiferentes. Estranharam todos que não olham para o céu onde o sol se encontra, onde se vê a lua ou a copa das árvores. Os pássaros, esses, já tinham feito a sua migração e ninguém reparou nisso. O Homem com a primeira chuva consultou o calendário, verificou os dados e pensou, sim, é outono, mas não espreitou pela janela nem olhou o horizonte. As raras árvores das cidades murmuraram entre si não compreendendo porque nem todos os animais estão sintonizados, porque andam desesperados e se vingam nos restantes, os outros, os esquecidos, os indefesos, os desprotegidos. Por isso calaram-se e secaram as suas raízes e deixaram o Homem, o único animal sobrevivente, viver a sua vida contente.





[Dali]


Não, o meu maior medo é dormir, deixar a loucura à solta, tão só, tão sozinha, tão desgovernada. E, enquanto eu fecho os olhos e esqueço o mundo este aparece ainda mais feroz. Não devia ser permitido, deveríamos ter um momento para nós, um momento de paz, um refúgio da loucura que nos envolve todos os dia. Mas não, o mundo persegue-me tal como a minha sombra o faz incansavelmente.