domingo, 13 de outubro de 2019






[Dali]


Não, o meu maior medo é dormir, deixar a loucura à solta, tão só, tão sozinha, tão desgovernada. E, enquanto eu fecho os olhos e esqueço o mundo este aparece ainda mais feroz. Não devia ser permitido, deveríamos ter um momento para nós, um momento de paz, um refúgio da loucura que nos envolve todos os dia. Mas não, o mundo persegue-me tal como a minha sombra o faz incansavelmente.



Os olhos abrem bem abertos, as luzes sufocam o corpo, o corpo mole, a cabeça gira, a vida entra em remoinho que mais ninguém vê, o início da loucura, o início do início. Não, não sou eu, são esses corpos que se movem livremente pensando que são senhores de si, resguardo-me, fujo, não os quero, essa liberdade que dizem serem a verdade, essa rebelião em nome das suas intenções que pensam serem puras. Não, fecho os olhos, escondo-me de novo, não à mentira, ao desengano, não à ignorância que deixei de suportar, não, irei dormir de novo, não, irei acordar e viver contra esta maré de loucos.

sábado, 12 de outubro de 2019




Quiseram-me aniquilar, apagar a minha existência porque os meus bosques são diferentes e eles contêm pássaros de todas as cores onde o Homem está interdito. Fechei horizontes dos outros, levantei espinhos e resguardei carvalhos antigos, teixos quase extintos, sobreiros onde não são violados, pinheiros altivos. As águias levantaram voo picado, os grifos rodearam a presa e zelaram por toda a natureza. Os lobos apareceram com a peeira, levantaram fronteiras, defenderam o território e não deixaram atravessar para além. Os andorinhões espalharam o alarme e as restantes árvores ficaram atentas. Mas o rio subiu, as águas revoltaram-se, espraiaram nos prados inundando o espaço ocupado nas aldeias afugentando todos os que restavam e eu deitei-me nas ervas descansada.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019




Sentes? Não sentes? O que sentes? A brisa, o sol, a copa das árvores, a erva daninha, a aborrecida da mosca, o que sentes? O que está para além de ti? Nada, dizes-me, porque para ti o mundo acabou entre prédios, entre horários, entre gente que se isola. Não os leve a mal, fazem o que tu fazes. Vem, pega na minha mão, caminharemos por caminhos secretos que só estarão escritos, vem e posso mostrar-te outra realidade, vem, queres vir ou ficar nesse mundo cinzento? Não queres vir, continuas no caminho da calçada, tens de sentir a tua escolha que não é a minha, a ti entrego-te a mão, mas não o meu espírito. Se vieres posso dar-te a conhecer as ervas, somente as ervas.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019




Construam castelos de areia e não esperem pelo mar, desenhem figuras no ar e não esperem pelo vento que leva as sementes para outro lugar. Porque se querem amor procurem dentro de vós, dentro dos outros, procurem para onde a brisa passa e as folhas se tocam.



Lança-te, acorda estonteado, nada desapareceu, a indiferença dos dias deu-te apenas um espaço de tempo para viveres um pouco mais e amanhã será igual como ontem, como ontem será igual ao teu amanhã e assim continuarás até que pares, que atravesses, que consigas encarar um castanheiro de duzentos e perguntar-lhes, como resististe? Não estive na mão dos Homens, responde-te, anda, senta-te à minha sombra, anda, sente os espinhos do meu fruto porque esses sempre os terás.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019


                                                              (Tela de Silvestre Raposo)



Talvez queiram aparar as minhas penas para me deformar, talvez queiram amarrar o meu bico para não gritar, talvez queiram amarrar as minhas asas para não voar, mas hei-de de compor-me, hei-de gritar, hei-de de voar e estenderei as minhas asas num voo magnifico onde apenas todos os pássaros me verão e esquecerei quem viver abaixo de mim.



N.A - Durante anos o meu avatar foi uma caturra, Silvestre Raposo pintou esta tela para mim e ofereceu-ma, a caturra representa o que sou, um pássaro livre, sim, com crista e refilona, com bico que magoa, com todos esses defeitos, um avatar que esteve comigo durante mais de 15 anos)