terça-feira, 17 de setembro de 2019





Posei em ramos, viajei pelo meio de rios, construí ninhos e procriei. Levantaram voam e viajei pelas montanhas, vi grifos à distância, águias reais a caçar e fugi delas, apenas procurava a morada que queria para mim no meio de tanto arvoredo. Outros pássaros cantaram para mim, outras árvores ofereçam-me abrigo e por elas voei, cantei melodiosamente e segui caminho. Não sabia para onde ia, onde estava o bosque secreto onde iria pousar, onde o mágico tocaria as minhas penas, onde o impossível tornar-se-ia a minha vida e voei, voei, voei porque sabia que conseguiria.
Uma alma nova foi à procura de uma mais velha, nela nada descobriu, apenas raiva, consumismo, egoísmo. A alma nova que só queria conversar e não conseguiu, saiu e foi ver o mar, viu montes e descobriu árvores que antes nunca tinha visto. Deitou-se no meio das ervas e respirou fundo, a indiferença do mundo era tão terna que nada mais precisava dele.
Hoje o horizonte adormeceu e desapareceu do céu. Acordei estremunhada à sua procura e apenas encontrei árvores aborrecidas pois o sol não aparecia. Gritei uma, duas, três vezes, de nada serviu, sobrou-me uma bruma onde nada se destingia. Voltei a gritar, mas a voz perdeu-se no vazio como se não tivesse mais nenhum lado para ir. Recolhi-lhe, não era dia para mim.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019






Esta noite olhei a lua e com ela todos os reflexos no mundo dos Homens. Precisei de me afastar, a guerra continua, ambos os lados se gladiam, uns tentam superar os outros e não param para conversar. Bons homens morreram, mulheres ficaram viúvas e crianças sem pais. Mas a guerra vai continuar enquanto eu olho a lua e decido se desço a encosta e entro na refrega. Gostava de saber por quem luto e se as suas razões são as minhas, mas no meio de tanta mortandade todos tentamos apenas estar vivos.

domingo, 18 de agosto de 2019






Era um verão quente e já todas as espigas de milho tinham sido cortadas. Esperávamos a festa da desfolhada, um beijo para quem encontrasse o milho-rei, um futuro promissor. Esperava-se à noite o folclore, mas as o milho tinha de ser debulhado na eira onde em redor nos encontrávamos. Os pés livres dos sapatos apertados, as saias rodadas de qualquer maneira, contavam-se anedotas enquanto a pele era descascada. Quem teria o milho-rei e o seu amante? Riamo-nos enquanto os homens estavam nas tabernas, riamo-nos da sua imbecilidade, todas mulheres, todas donas do seu destino. Riamo-nos porque éramos donas dos nossos destinos mesmo sem o milho-rei.

sábado, 17 de agosto de 2019



[Fotografia de Luís Suart]



Era como se tudo se tivesse passado ontem ou tinha mesmo. Os passos eram iguais, as perguntas, as frases, os sorrisos. Por isso não consegui ouvir mais, saí dali, fugi dali, corri dali. O que me ofereciam? Flores arrancadas do solo, o prado de sempre como se fosse ficar imutável. Esqueceram-se das máquinas escondidas que um dia entrarão mesmo que lá não estejam. Esqueceram-se que outrora éramos terra e vida, árvores e vento, água e sede, fogo e luz.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019





Ontem era ontem e decidi que não seria mais hoje. Peguei na enxada, esperei que as minhas costas aguentassem, eu tão citadina, abri um buraco para plantar um castanheiro. Não sei se o irei ver crescer na minha vida, será o meu testemunho para as restantes árvores, será a minha homenagem aos Deuses que me acompanham. Morrem os bosques aos poucos, morre a minha existência com eles, os Dii fogem para longe, longe e não regressarão. Os Deuses retornarão às suas moradas e não poderei senti-los entre os ramos, entre as ervas. Sento-me no chão, queria tudo como dantes, no tempo em que passeava na quinta dos meus avós e o mais aterrador era uma tempestade. Mas o ontem não se repete e eu planto um castanheiro na esperança de tudo se remediar.