domingo, 4 de agosto de 2019


[Cezanne]

Se quando acordei não sabia para onde ia, porque respirei a manhã, experimentei o aroma a rosmaninho e senti-me mais uma vez viva, não queria dizer que estava certa em decidir ir por ali, mas fui. Peguei em tudo, comecei a caminhar sem direção nem destino, o que procurava sabia, onde estava desconhecia. Percorri os caminhos dos castanheiros até encontrar uma clareira com um lago. Sentei-me e mergulhei ao de leve com os dedos, as ninfas estariam por ali, só queria lhes perguntar por onde andava o meu amado. Perto, perto, responderam-me, tem paciência e paciência tenho tido tanto tempo ido. Mas sempre esperarei porque virá, isso sei.

sábado, 3 de agosto de 2019


[Fotografia de Luís Stuart]


Acordei numa madrugada fria, olhei para o vazio das mãos, tantas vezes bloqueadas, tantas esquecidas. Arregacei mangas, saí para os bosques enevoados, saí para recolher o dia. Enquanto desenhava na terra misteriosos círculos que nem sabia de onde vinham, cantavam a carriça, o melro-azul, o cruza-bico. Sentei-me com a brisa, queria sentir as raízes, as ervas livres. E fui floresta, caminho, gente e regressei finalmente.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019





Não sei quando aconteceu, as árvores chamaram-me, os cumes das serras gritaram e eu tão impotente fui. Fui e levei os pássaros, fui e levei os lobos, os grifos, todos o animais que queriam ir comigo. Fugimos para os bosques onde não nos encontrariam, outra terra longe desta, longe dos olhos dos predadores, longe do Ser Humano, longe de tudo. Fugimos e escondemo-nos. Até quando aguentaremos? Até quando seremos perseguidos? Dizem os pássaros, as raposas, as galinholas, os faisões e com eles os teixos em extinção. Até quando conseguimos estar escondidos?  Deixei cair a mochila, não os posso assegurar, regra dos Homens, regra dos Seres Humanos, eu que pertenço a eles.

Peguei em pedaços de pau, juntei-lhes ervas silvestres, não colhi flores nem nada que daria fruto. Acendi uma fogueira, inspirei, alarguei o círculo para os presentes. Estávamos todos, todos os que queríamos regressar, reviver, viver, sobreviver. Os antigos que conheciam, os novos que procuravam, os que simplesmente estavam. Unimo-nos como nunca antes o fizemos, unimo-nos nesta procura pela vida, pela existência, pela presença. E seremos mais do que nós, seremos para vós, para o que virá, faremos tudo para parar, seremos o instrumento que falta sem poderes, mas estaremos por todos mesmo que todos nos ignorem.

quarta-feira, 31 de julho de 2019


[Dali]




Passo a passo, ano a ano, entrelaça-se o absurdo, confundem-se as imagens. Onde estás? Gritam mil vozes ao mesmo tempo, temos emprego, temos governo, temos televisão. Fujo, mas não posso, aguento, o que é isto? Pouco a pouco fui, escorri nas paredes, gritei porque quis me ouvir e não havia ninguém, nem um nem outro. Saio, saio para a rua, não serei o que querem, terei vida, terei os meus Deuses, terei as minhas árvores num país encantado e sim, chamem-me de louca mil vezes porque mil vezes vou dizer que têm razão.


[Peter Wileman]


Depois de tanto te afastar, depois de alguém me te recordar, onde te posso encontrar? Não fui pelos nossos caminhos, tenho medo, disse-te há tanto tempo, tenho medo do tempo. Ainda esperas por mim, eu tão frágil? Sei-te em tantos lados, em tantos lados não fui. Quebro o elo e medo tenho que o elo seja quebrado.



[Paul Brent]


Tocaram violoncelo, as cordas vibraram, tocaram em imagens esquecidas, escondidas dos dias. Quis acompanhá-las, viver intensamente, retomar caminhos tão desejados, tão doridos. Mas acordei e receei de novo, desapareceu o bosque por onde corria, as escarpas íngremes, o topo da montanha onde em tempos contigo estive. Arrumei-te a um canto com medo de te amar, eu que não te esqueço. Tantas vezes te estendo a mão só para tocar nos teus dedos e recordar a tua presença. Diz-me, em que esquina te espero, estarei lá para ti, diz-me onde erro.