domingo, 28 de julho de 2019


Fogem, fogem, mas não sabem para onde. Tudo são planícies por desbravar, um mundo diferente por descobrir. Morrem as correntes que moveram políticos, cortam-se amarras dos movimentos, tudo está diferente e, contudo, ninguém o presencia.
Formaram-se grupos para entendimento, governos provisórios que não entenderam que nada era repetido e o que foi já tinha acontecido. Juntaram-se os jovens, os que tudo perderam, aqueles que não terão o que já tinha acontecido e de mocas na mão, olhos agressivos e fartos dos mesmos discursos avançam. Mas não agridem, levantam-nas, ameaçam, fazem-se homens e gritam.
- Não, não somos vós que não nos deram um futuro. Terão a vossa sorte, velhos, não nos peçam ajuda.
E saem, saem para procurar abrigo como se fazia há mais de dois mil anos, caçam como se fazia há mais de dois mil anos e deixam os outros morrer porque são os seus assassinos.

quinta-feira, 25 de julho de 2019


"Olhei na direção onde devia estar o Guardião, não estava lá nada, Telgio tinha razão, não conseguia perceber o que estava a acontecer quando vi um guerreiro enorme a aproximar-se.
Telgio, de imediato, desembainhou a espada apontando para o colossal guerreiro que se pusera à nossa frente.
- Guarda essa espada, rapaz, desfaço-te num instante se quiser. Além disso, não estou aqui para lutar. – Resmungou o guerreiro.
- Não sei se o conseguirias, mas o queres então? – Perguntou Telgio sem nunca descer a guarda.
- Já te disse, guarda a espada. – disse de maus modos.
- Posso ao menos saber com quem estou a falar? - Telgio não se mexeu.
- Estás a falar com o Guardião, – o guerreiro fez um ar furioso – e estão nos meus domínios por isso guarda já essa espada antes que te desfaça."







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"Deixei de ter passado ou futuro, somente existia. A pouco e pouco fui perdendo a noção do corpo e a minha mente deslizava por águas calmas e seguras. Somente um eu desconhecido que parecia que estava a reencontrar-se, cheia de nada, cheia de tudo, um complemento da existência. O espaço perdera o seu significado, os pensamentos eram ruídos, sentir, vento, calor, frio, a Deusa que me acarinhava e sorria. Pedras saltitando num lago, uma folha a mexer-se com a brisa, o suave cantar das ondas do mar, o chilrear de um pássaro. O início e o fim do mundo numa dança intemporal. Pó, eu era um grão tão pequeno dentro da grandiosidade existente, mas ao mesmo tempo abrangia como se fosse possível tocar um pouco por todo o lado.
Já não era eu, era de novo pequena, num descampado, uma trovoada intensa sobre mim, cheia de medo a gritar, eu de novo adulta. O tambor ritmado, depois, um espaço subitamente silencioso, somente uma luz difusa e nada mais. Nada mais. Repousei.
Peter encaminhou-me de novo para a carrinha, abriu a porta, deixou que entrasse e entrou também. A minha mente ainda girava com as sensações da noite, mas Peter começou levemente a acariciar-me e a murmurar palavras encantadas que começaram a sossegar-me. Acariciou os meus cabelos ao de leve enquanto, com a outra mão desenvencilhava-se das roupas que estava a usar. Quando mais nenhuma restava olhou-me fixamente e sempre, sempre murmurando, foi-me acariciando até que o meu corpo começou a ter espasmos de antecipação.
- Hoje é a noite em que os Deuses se unem na grande dança que são os ciclos de vida. Hoje é a noite em que a noite vai-se sobrepor à luz, o feminino vai imperar sobre o masculino e eu serei o teu consorte."

quarta-feira, 24 de julho de 2019







Ontem fui ao monte para colher frutos, apesar de ser início de verão estavam todos maduros. Enchi um cesto, há muito tempo que não os tinha fresco, dariam para umas compotas para o inverno. Os fogos haveriam de chegar, a sede aumentar, a fome a acrescentar, talvez não conseguisse fazer mais pelos demais, talvez só tivesse o suficiente para mim e os meus animais.

Resguardei-os onde pensava ser o melhor sítio escondido para os bandos salteadores que iriam aparecer, sobreviver era a regra, reparei o meu arco e as flechas, as armas de fogo tinham as munições gastas, as galinhas foram roubadas, restava-me pouco para sobreviver.

Não sei porque continuava esta luta, talvez o instinto de sobrevivência, talvez a minha teimosia, corria para as árvores para salvar comida, para a horta, para os bosques. Não iria continuar mais tempo, a sós nunca, o mundo estava largado ao acaso, a lei do mais forte imperava e eu não era um deles.

Escavei um abrigo, um refúgio que fosse defensável. Por quanto tempo?

domingo, 21 de julho de 2019


[Anta de Adrenunes, Sintra]


Tentei tudo, o grito, a marcha, o poema. Tentei e fui vencida. Quantas palavras engolirei para ver que as uvas maduras pertencem a setembro e não agora?  Quantas escadas subirei para ver o extremo do mundo, erguer a minha bandeira e esperar o milagre que não virá? Descerei ao inferno, dez círculos infernais sem saber se existirão as dez esferas celestiais. Percorrerei as treze pedras da Regaleira e esperarei no Adrenunes que os Deuses regressem. Ninguém virá, eu sei, os Deuses abandonaram-nos cansados da nossa existência. E eu com eles.  

sábado, 20 de julho de 2019




[Dali]

Olho em redor, queria não ver a loucura humana, vejo-a em todo lado, grito, quero salvar os meus filhos, grito, deixem-me em paz. Mas paz não tenho, ponho música nos ouvidos, talvez consiga voar para longe, ser livre, alcançar o sossego dos mundos por desbravar. Digo e repito, porque não me deixam em paz, desliguem a televisão, desliguem o mundo, desliguem a imbecilidade que me rodeia, não, não sou especial, sofro com isto e não quero, quero heróis e heróis não existem, quero luta e luta não existe, quero ser e ser não posso.

Digo, deixem-me, deixem os meus filhos, deixem-nos viver, o que se passa convosco que se entregaram à loucura e não reconhecem o nascer do sol? Perderam a noção neste vaivém de desinformação, neste consumismo que consome a vida.

Digo, porquê? Digo, porque não param para pensar? E sim, digo, engolem a existência, a coerência e sim digo, digo cem mil vezes, levarão a minha vida sem importância, mas tragarão os meus e essas não perdoarei.