quinta-feira, 25 de julho de 2019


"diz-me tu, o que é o amor?", gratuito https://www.kobo.com/pt/pt/ebook/diz-me-tu-o-que-e-o-amor



"Deixei de ter passado ou futuro, somente existia. A pouco e pouco fui perdendo a noção do corpo e a minha mente deslizava por águas calmas e seguras. Somente um eu desconhecido que parecia que estava a reencontrar-se, cheia de nada, cheia de tudo, um complemento da existência. O espaço perdera o seu significado, os pensamentos eram ruídos, sentir, vento, calor, frio, a Deusa que me acarinhava e sorria. Pedras saltitando num lago, uma folha a mexer-se com a brisa, o suave cantar das ondas do mar, o chilrear de um pássaro. O início e o fim do mundo numa dança intemporal. Pó, eu era um grão tão pequeno dentro da grandiosidade existente, mas ao mesmo tempo abrangia como se fosse possível tocar um pouco por todo o lado.
Já não era eu, era de novo pequena, num descampado, uma trovoada intensa sobre mim, cheia de medo a gritar, eu de novo adulta. O tambor ritmado, depois, um espaço subitamente silencioso, somente uma luz difusa e nada mais. Nada mais. Repousei.
Peter encaminhou-me de novo para a carrinha, abriu a porta, deixou que entrasse e entrou também. A minha mente ainda girava com as sensações da noite, mas Peter começou levemente a acariciar-me e a murmurar palavras encantadas que começaram a sossegar-me. Acariciou os meus cabelos ao de leve enquanto, com a outra mão desenvencilhava-se das roupas que estava a usar. Quando mais nenhuma restava olhou-me fixamente e sempre, sempre murmurando, foi-me acariciando até que o meu corpo começou a ter espasmos de antecipação.
- Hoje é a noite em que os Deuses se unem na grande dança que são os ciclos de vida. Hoje é a noite em que a noite vai-se sobrepor à luz, o feminino vai imperar sobre o masculino e eu serei o teu consorte."

quarta-feira, 24 de julho de 2019







Ontem fui ao monte para colher frutos, apesar de ser início de verão estavam todos maduros. Enchi um cesto, há muito tempo que não os tinha fresco, dariam para umas compotas para o inverno. Os fogos haveriam de chegar, a sede aumentar, a fome a acrescentar, talvez não conseguisse fazer mais pelos demais, talvez só tivesse o suficiente para mim e os meus animais.

Resguardei-os onde pensava ser o melhor sítio escondido para os bandos salteadores que iriam aparecer, sobreviver era a regra, reparei o meu arco e as flechas, as armas de fogo tinham as munições gastas, as galinhas foram roubadas, restava-me pouco para sobreviver.

Não sei porque continuava esta luta, talvez o instinto de sobrevivência, talvez a minha teimosia, corria para as árvores para salvar comida, para a horta, para os bosques. Não iria continuar mais tempo, a sós nunca, o mundo estava largado ao acaso, a lei do mais forte imperava e eu não era um deles.

Escavei um abrigo, um refúgio que fosse defensável. Por quanto tempo?

domingo, 21 de julho de 2019


[Anta de Adrenunes, Sintra]


Tentei tudo, o grito, a marcha, o poema. Tentei e fui vencida. Quantas palavras engolirei para ver que as uvas maduras pertencem a setembro e não agora?  Quantas escadas subirei para ver o extremo do mundo, erguer a minha bandeira e esperar o milagre que não virá? Descerei ao inferno, dez círculos infernais sem saber se existirão as dez esferas celestiais. Percorrerei as treze pedras da Regaleira e esperarei no Adrenunes que os Deuses regressem. Ninguém virá, eu sei, os Deuses abandonaram-nos cansados da nossa existência. E eu com eles.  

sábado, 20 de julho de 2019




[Dali]

Olho em redor, queria não ver a loucura humana, vejo-a em todo lado, grito, quero salvar os meus filhos, grito, deixem-me em paz. Mas paz não tenho, ponho música nos ouvidos, talvez consiga voar para longe, ser livre, alcançar o sossego dos mundos por desbravar. Digo e repito, porque não me deixam em paz, desliguem a televisão, desliguem o mundo, desliguem a imbecilidade que me rodeia, não, não sou especial, sofro com isto e não quero, quero heróis e heróis não existem, quero luta e luta não existe, quero ser e ser não posso.

Digo, deixem-me, deixem os meus filhos, deixem-nos viver, o que se passa convosco que se entregaram à loucura e não reconhecem o nascer do sol? Perderam a noção neste vaivém de desinformação, neste consumismo que consome a vida.

Digo, porquê? Digo, porque não param para pensar? E sim, digo, engolem a existência, a coerência e sim digo, digo cem mil vezes, levarão a minha vida sem importância, mas tragarão os meus e essas não perdoarei.




#PortugalSemMinas


"De todo o lado, sinos e telhados. O frio construíra uma nuvem gelada em torno da união das pequenas janelas que sobressaíam dos amarelos, verdes e azuis dos edifícios. O vento gelou-lhe o nariz, as mãos escondeu-as nos bolsos. Sinos e sinos, a cidade parecia que enlouquecera. Luís pôs o braço em cima dos seus ombros e puxou-a para si.
- Aqui não há engarrafamentos nem pressas. Subimos à época medieval onde a igreja é mais importante e o centro. Onde Deus impõe a sua presença para que nunca O esqueçamos. Certo? Errado? Deus não existe e apenas fomos alienados? Ou será a nossa pressa que nos leva a ignorar? Escute os sinos, Ana, sinta cada vibrar, ouça a conversa que surge entre eles. Feche os olhos, concentre-se no som, só no som. Esqueça esta paisagem, esqueça tudo à sua volta, o vibrar ao longe, o metal frio, os diferentes sons reproduzidos. Um, outro, vários, de todo o lado. É impossível negar que lhe é indiferente porque os ouve e os sente vivos, como se o seu badalar não fosse produzido por seres humanos, mas por autorrecriação. Mas os sinos que ouve são várias vozes, não uma só. Um deus multiplicado em vários."

"diz-me tu, o que é o amor?". gratuito https://www.kobo.com/pt/pt/ebook/diz-me-tu-o-que-e-o-amor

quinta-feira, 18 de julho de 2019



Acredito que Portugal pode-se manter num país ecológico se todos nos envolvermos. Recuso baixar os braços, não será a mim que afectará, morrerei antes disso ou estarei velha demais para me preocupar com a subida do mar e da temperatura. Digam-me, terei netos? Irá resistir a nova geração? Digam-me, porquê tudo isto? Digam-me, porque encolhem os braços e recusam-se a ver o que está a acontecer?

Não, desta vez não é Helena de Troia que gritará, nem eu, são os cientistas. O que querem da vossa vida porque não entendo a vossa posição?

Enquanto estão sentados nas vossas cadeiras, as uvas amadurecem um mês antes, a água escassa, os pássaros estão aflitos, as abelhas em extinção, os ursos polares procuram refugio nas populações, quantos mais gritos precisarão?

https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=alertalitiopeticao&fbclid=IwAR0zvHeigbwE1pXjiCcjq_5Dpv0zjDGuTmGIJi8SVFiZZQcGrNv4QKMhpsQ


(uma das coisas curiosas dos blogs é que sei quem visitou a minha página e ignorou o meu apelo. Cada um tem o direito da sua opinião, mas terão de saber que serão os assassinos de todos nós porque nada fizeram.

as uvas estão maduras dentro de uma semana, só deveriam estar em Setembro. 
40% do gelo da Gronelândia derreteu.
Os pólos estão a derreter.
Os animais a morrer.
Para que serve um poema se ninguém estará vivo para ler?)