terça-feira, 9 de julho de 2019



“O cetro do Guardião”, Saga “Os castros”, #2,Teresa Durães

Um novo livro ou encaixotar a tralha que tenho em casa porque me vou mudar? A escolha não foi muito difícil, ignorar o presente como se tudo acabasse por se resolver. Papéis para aqui, papéis que caducam, meses que passam, bancos e compradores, não quero saber disso, entrego-me à fantasia, à mitologia portuguesa, à magia.

A minha filha diz que só escrevo coisas do passado que ninguém quer saber. O livro passa-se na época dos castros, dos lusitanos, considerando a sua estrutura social, os seus costumes, a sua religião. Mas é um livro de literatura fantástica, o segundo livro da saga “Os castros” sendo o primeiro “O encantamento do vento”. Este relata a segunda geração.

O que seria da nossa vida sem os encantamentos e as aventuras fantásticas em luta pelo bem, em luta pelo que está certo? Não sei, sei que vagueio por bosques, sinto o aroma dos pinheiros, vejo as folhas castanhas, colho fetos onde me deito e sinto-me feliz.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

[fotografia de Luís Stuart, edição Teresa Durães]

Outrora amei-te lá, lembras-te? Corremos a serra tão bem nossa conhecida, saltámos de rocha em rocha, mergulhámos os pés nos riachos, sabíamos estar perto dos Deuses por isso percorremos os caminhos em S. João d'Arga, sentimos a brisa, deitámo-nos na relva como em milénios foi feito e amámos sob o olhar da lua, selámos a nossa união mais uma vez, nesta vida como em tantas outra o fizemos.

Agora pedem pedras, vamos dar pedras, pedem água e água vamos dar.

Nunca mais nos encontraremos neste lugar sacralizado, não neste, teremos de procurar outra serra onde o intocável permaneça, onde os Deuses não precisem de se esconder.



(* a exploração do litium, para além de ir abrir uma cratera na serra, irá desviar cursos de água e contaminá-la
Petição pública https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT93607&fbclid=IwAR21HCPonCu1iJNas4yma7pOyBqE-j_DsankkoY_MyCzT_rBn5dRHIK0PS4)

quinta-feira, 4 de julho de 2019




[David Wiles]

Quando voguei nas estrelas e entreguei-me ao universo soube que havia mais para além de mim, para além de todos nós. Espreitei a noite, as corujas sussurraram-me, os roedores caçaram, a natureza equilibrou-se. Entreguei-me aos sons, aos reflexos, a todas as cores brilhantes que se destacavam na noite.

Queria paz, tive paz, queria solidão, solidão tive, consegui abraçar toda a existência, de tão grande que era subjugou-me as palavras, a música, as cores.

Fiquei presa às pedras que ligavam os dois mundos, aguardava a busca do Homem pelo infinito, guardava as insígnias que retificavam o mundo, esperava a procura pela magia e confiava no ser que sempre vingou pela arte.

Perguntava, onde estavam os filósofos e os pensadores? Onde paravam as religiões?  Onde buscavam os adoradores da natureza que não acreditavam que esta tinha alma?

terça-feira, 2 de julho de 2019

[Tela de Silvestre Raposo]

Hoje voei pelo campo, apanhei bagas e descansei num tronco de uma árvore. Foi um voo afoito, procuram por mim os caçadores, os rapazes com as fisgas, os loucos. Tenho as madrugadas para ser livre enquanto os Homens dormem, enquanto a natureza respira. Não sei quando isto começou, perde-se a memória nas fugas, nos esconderijos, na sobrevivência. Amanhã recomeçará tudo de novo, a espera, a incerteza, o medo. Preciso de continuar para sobreviver, esconder-me, procurar, não sei quanto tempo aguentarei, estou só, estou escondida.

sábado, 29 de junho de 2019

[Futura exploração de lítio na serra de Arga]

Sei, escrevo, vivo, respiro, o mundo inunda-se de cores e quero viajar nas fotografias, no irreal que me rodeia. Tens medo do presente, dizem, tenho medo da crueldade, respondo, há mais além, além de todas as notícias, de toda a ignorância, além onde as águias-reais voam, onde os falcões tentam resistir e os lobos ibéricos fogem dos caçadores. Temos castanheiros, temos teixos em extinção, temos árvores para viver, temos tudo para sermos felizes. Não, digam não ao trago da terra, digam não à civilização destruidora, neguem o dinheiro fácil, ao ouro branco, porque somos pequenos, mas a serpente vive entre nós.

Não, digam não, deixem-me respirar, deixem-me viver.

sábado, 22 de junho de 2019

diz-me tu, o que é o amor?







Não te digo que para além dos muros não existam prados, não os saltei, permaneci neste sofá fumando calmamente enquanto percorri as pinturas das paredes que contam todas as histórias que escrevi. Continuas a não estar, mas já foste desenhada num padrão que reconheço.
Viste um retrato meu desbotado e por ela apaixonaste-te. Percebo-te, corri pelas ruas, gritei poemas de José Régio e cantei Xutos e Pontapés como outrora o fazíamos. Mas isso era antes, antes das vozes me cansarem e os olhos estarem gastos de histórias mil vezes pintadas.
Olho através da janela, lá fora as oliveiras estão carregadas. Outrora não teria reparado nisso, essa, a do retrato. Não, não me olhes assim só porque sei que os grifos existem e a plumagem é castanha. Queres que voe daqui, para lá, para um mundo que nada me diz. Digo-te que não, esse amor de que falas não me chega para voltar a uma luta onde já perdi. Encontrei o meu caminho no trilho das ervas, nos ramos retorcidos das oliveiras que estão carregadas e não sei o que faça quando as azeitonas estiverem maduras, eu mulher da cidade.
Gostava de amar dessa maneira, tal sofreguidão que largaria tudo só para te seguir. Mas não, chamam-me os gatos e os cães, tudo o que sei sobre natureza, mas tenho a certeza de que subirei a montanha ladeada das minhas cadelas. 

“diz-me tu, o que é o amor?”. Teresa Durães


domingo, 16 de junho de 2019



Enquanto deambulo no meu computador, enquanto ouço música, enquanto escrevo, enquanto vejo fotografias e histórias dos outros, entranha-se uma loucura de querer mais, viajar pela arte e alcançar o estado de amor profundo pelo mundo, pela humanidade. Não, não somos só cruéis, não somos só destruidores dum planeta que quer sobreviver e vai nos matar por estarmos a mais. A arte ficará imersa nas águas, mas soará em todo o universo, uma estrela que nunca se apagará, uma galáxia que se foi construindo e será infinita.
Sim, sonho, vibro e vivo isso que é a criação do Homem porque é tão bela como a que os Deuses fizeram.