terça-feira, 2 de julho de 2019

[Tela de Silvestre Raposo]

Hoje voei pelo campo, apanhei bagas e descansei num tronco de uma árvore. Foi um voo afoito, procuram por mim os caçadores, os rapazes com as fisgas, os loucos. Tenho as madrugadas para ser livre enquanto os Homens dormem, enquanto a natureza respira. Não sei quando isto começou, perde-se a memória nas fugas, nos esconderijos, na sobrevivência. Amanhã recomeçará tudo de novo, a espera, a incerteza, o medo. Preciso de continuar para sobreviver, esconder-me, procurar, não sei quanto tempo aguentarei, estou só, estou escondida.

sábado, 29 de junho de 2019

[Futura exploração de lítio na serra de Arga]

Sei, escrevo, vivo, respiro, o mundo inunda-se de cores e quero viajar nas fotografias, no irreal que me rodeia. Tens medo do presente, dizem, tenho medo da crueldade, respondo, há mais além, além de todas as notícias, de toda a ignorância, além onde as águias-reais voam, onde os falcões tentam resistir e os lobos ibéricos fogem dos caçadores. Temos castanheiros, temos teixos em extinção, temos árvores para viver, temos tudo para sermos felizes. Não, digam não ao trago da terra, digam não à civilização destruidora, neguem o dinheiro fácil, ao ouro branco, porque somos pequenos, mas a serpente vive entre nós.

Não, digam não, deixem-me respirar, deixem-me viver.

sábado, 22 de junho de 2019

diz-me tu, o que é o amor?







Não te digo que para além dos muros não existam prados, não os saltei, permaneci neste sofá fumando calmamente enquanto percorri as pinturas das paredes que contam todas as histórias que escrevi. Continuas a não estar, mas já foste desenhada num padrão que reconheço.
Viste um retrato meu desbotado e por ela apaixonaste-te. Percebo-te, corri pelas ruas, gritei poemas de José Régio e cantei Xutos e Pontapés como outrora o fazíamos. Mas isso era antes, antes das vozes me cansarem e os olhos estarem gastos de histórias mil vezes pintadas.
Olho através da janela, lá fora as oliveiras estão carregadas. Outrora não teria reparado nisso, essa, a do retrato. Não, não me olhes assim só porque sei que os grifos existem e a plumagem é castanha. Queres que voe daqui, para lá, para um mundo que nada me diz. Digo-te que não, esse amor de que falas não me chega para voltar a uma luta onde já perdi. Encontrei o meu caminho no trilho das ervas, nos ramos retorcidos das oliveiras que estão carregadas e não sei o que faça quando as azeitonas estiverem maduras, eu mulher da cidade.
Gostava de amar dessa maneira, tal sofreguidão que largaria tudo só para te seguir. Mas não, chamam-me os gatos e os cães, tudo o que sei sobre natureza, mas tenho a certeza de que subirei a montanha ladeada das minhas cadelas. 

“diz-me tu, o que é o amor?”. Teresa Durães


domingo, 16 de junho de 2019



Enquanto deambulo no meu computador, enquanto ouço música, enquanto escrevo, enquanto vejo fotografias e histórias dos outros, entranha-se uma loucura de querer mais, viajar pela arte e alcançar o estado de amor profundo pelo mundo, pela humanidade. Não, não somos só cruéis, não somos só destruidores dum planeta que quer sobreviver e vai nos matar por estarmos a mais. A arte ficará imersa nas águas, mas soará em todo o universo, uma estrela que nunca se apagará, uma galáxia que se foi construindo e será infinita.
Sim, sonho, vibro e vivo isso que é a criação do Homem porque é tão bela como a que os Deuses fizeram.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

            Os meus avós fizeram mais de cinquenta anos de casados e foram apaixonados até ao fim das suas vidas, nunca vi um amor assim.
Não consigo deixar de ver a vida moderna, mal ou bem, como algo que esmigalhada tudo em volta, incluindo o amor. Há muitos tipos de amor, os que vencem, os que perdem. O dos meus avós, outros tão intensos que vão além da paixão, mas vivem num espaço curto tempo. Outros, aqueles que foram abandonados porque sim, sem uma palavra. Ou simplesmente espíritos que não se tocam.
            Sou divorciada, mas tive a sorte de amar, amar profundamente, para além de tudo, para além do além. Entre contos e histórias, algumas publicadas aqui, algumas rebuscadas no baú que se chama pastas do computador, deixo-vos mais um livro gratuito, basta fazer o download, "diz-me tu, o que é o amor? "




domingo, 9 de junho de 2019


[Chagall]

Numa manhã fresca igual a tantas outras, um dia de primavera de sol ténue e gente calma, enquanto um barco de vela enfunada cortava o rio uma mulher sentou-se na amurada, rosto distraído, mãos no colo pousadas. Não sabia se se sentia desamparada ou a falta da presença dele. Os movimentos do corpo foram cortados quando falou de outra. Talvez soubesse quando as mãos deixaram de ser ansiosas e os olhos tornaram-se vagos, mas tinham jurado amor numa juventude fugidia.
Fora um acaso, dissera-lhe, e acreditara, notara nas mãos, no rosto tão bem conhecido e que já não era seu. Continuava a amá-lo por isso dizia-lhe adeus junto ao rio, uma despedida silenciosa, a sós, porque a sós ficaria.


[Cezanne]
Chovem flores soterrando a relva de diversas cores. Os transeuntes olham, atónitos, os automóveis param e os condutores saem assombrados. São milhentas as pétalas que se desprendem formando uma cortina macia, não há nada no céu que anuncie acontecimento tão insólito, mas chove, chove mansamente.
Não se sabe se foi o vento que as trouxe arrancando-as de um campo qualquer, ou um desígnio inexplicável. Mas o certo é que já não há recanto do chão que não seja um manto de cores, o cinzento do alcatrão desapareceu e a chuva inaudita continua mostrando na sua glória a vontade suprema da natureza.