domingo, 9 de junho de 2019


[Cezanne]
Chovem flores soterrando a relva de diversas cores. Os transeuntes olham, atónitos, os automóveis param e os condutores saem assombrados. São milhentas as pétalas que se desprendem formando uma cortina macia, não há nada no céu que anuncie acontecimento tão insólito, mas chove, chove mansamente.
Não se sabe se foi o vento que as trouxe arrancando-as de um campo qualquer, ou um desígnio inexplicável. Mas o certo é que já não há recanto do chão que não seja um manto de cores, o cinzento do alcatrão desapareceu e a chuva inaudita continua mostrando na sua glória a vontade suprema da natureza.

sábado, 8 de junho de 2019


[Munch]

Trago os dias em caixinhas coloridas para repousar o cansaço. O sol fraco a aquecer os braços, a brisa roça a face e tantas histórias a empacotar.
Olhaste-me pedindo respostas que não conseguia dar. Disseste-me que me amavas e que não compreendias porque me afastava. Olhei para o horizonte, para o mundo onde as vozes estão caladas e as ruas não existem, além de toda esta demência. Sei que nada tens a ver com a culpa do Homem ou com a minha loucura, só procuro aquele bosque onde consiga passear e sentar-me numa pedra para sentir a vida, não esta loucura. Posso imaginá-lo, posso encontrá-lo, mas tenho de ir para a terra do silêncio, para onde os pensamentos correm livres, chegar a casa por fim.
Não te disse, fiquei silenciosa e esperei as palavras amargas onde tinhas rasão. Eu queria, sabias? Queria saber amar, poder estar nesta terra e assentar, chama-me o vento e não consigo descansar enquanto não for, diz-me que estou mesmo louca, talvez estejas certa, mas não consigo ficar.

sexta-feira, 7 de junho de 2019



Cheguei a casa, um daqueles dias ondes as horas más foram estendidas. Procurei o teu sorriso, era tudo o que queria na solidão que sentia, mas encontrei-te zangada como se as horas fossem minhas e as tivesse vendido por aí. Procurei nos bolsos respostas para o absurdo que não compreendia, a porta da saída atrás de mim.
            Saí, saí para a noite desagradável como companhia, nem as estrelas via escondidas pelas nuvens. Não me sentia zangada ou incompreendida, estava numa estranha paz. Talvez o amor não seja nada do que é dito, talvez não passe de um vago momento de tão curto na nossa existência que nos esquecemos do arrebatamento inicial, do momento que de tão fugaz se conjuga no passado. 
O vento estava frio, sentia-me cansada e não queria ir para casa. Continuei a caminhar na rua deserta. Talvez a solidão fosse a resposta. Só com as corujas da chaminé da casa, só com os meus silêncios porque não, não queria amar.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

[David Wiles]

Gravo as palavras momentaneamente, depois desaparecem como se não tivesse um local onde as arrumar. Neste dia-a-dia, no turbilhão de passageiros onde estou inserida, não sei se te sinto, se me movo. Correm rios de esperanças e sinto-me perdida.
            Fazes-me falta e não te digo. As palavras enrolam-se e nenhum momento se proporciona às diversas emoções. Dizes-me alheia, talvez nas minhas divagações o seja, mas nem todas as palavras são para ti. A espera. As curvas. As exigências. As fantasias onde as fadas habitam. As estrelas iluminam o meu caminho e sigo-lhes o rasto sempre com esperança, longa a estrada, longa a espera dos dias quentes.
Digo-te, passam as nuvens cheias de formas, dizes-me, anda, vem para ao pé de mim. Quero ver as águias-reais, o olhar negro de um corvo que traz mensagens para além do além e tu queres-me aí, pés na estrada negra em direção aos caminhos mil vezes calcorreados.
Não sei onde nos encontrámos, por aí certamente ao acaso. Não te posso falar de amor, tanto que queria, mas não posso mesmo. Sei que não saio daqui, mil vezes mo disseste, talvez não passe de um sonho por acabar. Mas não estás nele, não trilhas bosques, não vês além as cores das folhas a mudarem como por magia nem reparas nas rochas lisas pelo tempo.
Dizes-me, onde estás, por onde andas que ninguém te vê, vem, vem ao meu encontro.
            Não, não sei o que é amor.

segunda-feira, 3 de junho de 2019


[Paula Rego]

Chegaste ao pé de mim e falaste na cor das tulipas, quiseste arrancar uma, mas dei um passo atrás e recusei. O que é da terra, à terra pertence, tu sabias disso, mas a sofreguidão pela beleza devorava os teus olhos.
Sentei-me na erva à espera não sabia do quê, esperar é tudo o que não suporto, mas esperei, agarrei os dedos até ficarem brancos e balancei o corpo até me acalmar.
O pôr-do-sol veio por fim, com ele as carriças soaram o seu canto final. Esperei e nada aconteceu, levantei-me e fui para casa. Talvez te quisesse comigo com a tulipa arrancada, fingiria que não era nada, pediria um abraço apenas para esquecer tanta tristeza acumulada. Não, isto não é amor, antes solidão.  

sexta-feira, 31 de maio de 2019


[Júlio Pomar]

Não quero mais ouvir essa palavra tão gasta que é o amor, rasga as frases proferidas por ti porque me mentiste. Diz-me apenas que foste embora para a terra dos desaparecidos.
Nas estrelas da noite pousavas para mim, deleitava-me ser espectadora desse corpo que era teu. Nunca to disse, nunca existia tempo para sermos. Das vezes em que demos as mãos e entrelaçamos os dedos, lembras-te? Tão fugidio, tão aquém de todo o amor que inventaste para mim e que acreditei ser possível.
Não são os céus que nos ensinam o caminho e tu eras o meu. Esperei a noite toda e não apareceste. Entreguei-me ao voo da coruja branca que habita na minha chaminé. Impagável, caça todas as noites, repeti os seus gestos, consumi roedores, animais notívagos, devorei sombras para descobrir que essa palavra tão gasta não existia na escuridão. Até que parei.
Deitei-me debaixo de uma árvore no meio das ervas. A orvalhada infiltrava-se nos meus ossos cansados de tantos gestos desesperados. Tinha perseguido fantasmas, violado a minha sanidade. Neguei a existência desse malfadado estado, não passava dum malabarismo de reflexos imaginários. Não, não me fales mais dos laços que tínhamos encontrado.
O vento passou, os girassóis cresceram, despontei para a corrente do rio ladeado de amieiros. Os pés descalços que pisavam a terra sentiram o vibrar do mundo. À minha volta apareceu o povo dos bosques, nas suas mãos as insígnias dos Deuses antigos.
Não sei o que é o amor, mas deixei-me ir na paz da floresta.

quinta-feira, 30 de maio de 2019



[Fotografia do Hubble]


Não me virei para te ver partir. Das estrelas roubadas, umas foram soltas, outras largadas ao acaso. Não tentei apanhá-las, não me pertenciam. Cintilaram no escuro, agora posso contá-las, mas perdi a vontade; fazem parte da natureza inalcançável e essa parte de mim está perdida numa bruma densa. Descobrir o passo seguinte. Dizem que é para a frente que se caminha: dir-te-ei para dentro.
            Percebi que em breve poderei soltar a minha loucura sem que alguém a veja. Tu não estarás para assistir nem te quero por perto, finalmente serei livre, sabias? Livre de todos os estigmas, livre daquilo a que me obrigam a ser. Não, não sou igual, quero céu e terei céu, quero árvores e terei árvores.
            Por isso não me virei para te ver partir. Roubaste as estrelas, terias levado tudo mais se não me tivesse apercebido e falaste em amor enquanto estiveste comigo.