quarta-feira, 5 de junho de 2019

[David Wiles]

Gravo as palavras momentaneamente, depois desaparecem como se não tivesse um local onde as arrumar. Neste dia-a-dia, no turbilhão de passageiros onde estou inserida, não sei se te sinto, se me movo. Correm rios de esperanças e sinto-me perdida.
            Fazes-me falta e não te digo. As palavras enrolam-se e nenhum momento se proporciona às diversas emoções. Dizes-me alheia, talvez nas minhas divagações o seja, mas nem todas as palavras são para ti. A espera. As curvas. As exigências. As fantasias onde as fadas habitam. As estrelas iluminam o meu caminho e sigo-lhes o rasto sempre com esperança, longa a estrada, longa a espera dos dias quentes.
Digo-te, passam as nuvens cheias de formas, dizes-me, anda, vem para ao pé de mim. Quero ver as águias-reais, o olhar negro de um corvo que traz mensagens para além do além e tu queres-me aí, pés na estrada negra em direção aos caminhos mil vezes calcorreados.
Não sei onde nos encontrámos, por aí certamente ao acaso. Não te posso falar de amor, tanto que queria, mas não posso mesmo. Sei que não saio daqui, mil vezes mo disseste, talvez não passe de um sonho por acabar. Mas não estás nele, não trilhas bosques, não vês além as cores das folhas a mudarem como por magia nem reparas nas rochas lisas pelo tempo.
Dizes-me, onde estás, por onde andas que ninguém te vê, vem, vem ao meu encontro.
            Não, não sei o que é amor.

segunda-feira, 3 de junho de 2019


[Paula Rego]

Chegaste ao pé de mim e falaste na cor das tulipas, quiseste arrancar uma, mas dei um passo atrás e recusei. O que é da terra, à terra pertence, tu sabias disso, mas a sofreguidão pela beleza devorava os teus olhos.
Sentei-me na erva à espera não sabia do quê, esperar é tudo o que não suporto, mas esperei, agarrei os dedos até ficarem brancos e balancei o corpo até me acalmar.
O pôr-do-sol veio por fim, com ele as carriças soaram o seu canto final. Esperei e nada aconteceu, levantei-me e fui para casa. Talvez te quisesse comigo com a tulipa arrancada, fingiria que não era nada, pediria um abraço apenas para esquecer tanta tristeza acumulada. Não, isto não é amor, antes solidão.  

sexta-feira, 31 de maio de 2019


[Júlio Pomar]

Não quero mais ouvir essa palavra tão gasta que é o amor, rasga as frases proferidas por ti porque me mentiste. Diz-me apenas que foste embora para a terra dos desaparecidos.
Nas estrelas da noite pousavas para mim, deleitava-me ser espectadora desse corpo que era teu. Nunca to disse, nunca existia tempo para sermos. Das vezes em que demos as mãos e entrelaçamos os dedos, lembras-te? Tão fugidio, tão aquém de todo o amor que inventaste para mim e que acreditei ser possível.
Não são os céus que nos ensinam o caminho e tu eras o meu. Esperei a noite toda e não apareceste. Entreguei-me ao voo da coruja branca que habita na minha chaminé. Impagável, caça todas as noites, repeti os seus gestos, consumi roedores, animais notívagos, devorei sombras para descobrir que essa palavra tão gasta não existia na escuridão. Até que parei.
Deitei-me debaixo de uma árvore no meio das ervas. A orvalhada infiltrava-se nos meus ossos cansados de tantos gestos desesperados. Tinha perseguido fantasmas, violado a minha sanidade. Neguei a existência desse malfadado estado, não passava dum malabarismo de reflexos imaginários. Não, não me fales mais dos laços que tínhamos encontrado.
O vento passou, os girassóis cresceram, despontei para a corrente do rio ladeado de amieiros. Os pés descalços que pisavam a terra sentiram o vibrar do mundo. À minha volta apareceu o povo dos bosques, nas suas mãos as insígnias dos Deuses antigos.
Não sei o que é o amor, mas deixei-me ir na paz da floresta.

quinta-feira, 30 de maio de 2019



[Fotografia do Hubble]


Não me virei para te ver partir. Das estrelas roubadas, umas foram soltas, outras largadas ao acaso. Não tentei apanhá-las, não me pertenciam. Cintilaram no escuro, agora posso contá-las, mas perdi a vontade; fazem parte da natureza inalcançável e essa parte de mim está perdida numa bruma densa. Descobrir o passo seguinte. Dizem que é para a frente que se caminha: dir-te-ei para dentro.
            Percebi que em breve poderei soltar a minha loucura sem que alguém a veja. Tu não estarás para assistir nem te quero por perto, finalmente serei livre, sabias? Livre de todos os estigmas, livre daquilo a que me obrigam a ser. Não, não sou igual, quero céu e terei céu, quero árvores e terei árvores.
            Por isso não me virei para te ver partir. Roubaste as estrelas, terias levado tudo mais se não me tivesse apercebido e falaste em amor enquanto estiveste comigo.      


[António Soares]
Anda, hoje vamos esquecer. Partimos no silêncio do vento, murmurar dos remos
das águas que será a música para nós cantada. Só quero ternura, a tua. Perder-me
 na inconstância dos afectos e no resto pensarei um dia. Agora não.

segunda-feira, 27 de maio de 2019


[Almada Negreiros]


O intenso aroma das flores, as vestes negras, o silêncio. Sei que te custa compreender, o teu corpo cresceu, mas há mistérios para além de nós. Pousas a cabeça no meu ombro, nada dizes e abraço-te desejando que fosse possível embalar-te nos meus braços. A morte é estranha, as palavras falham-me, não sei como te reconfortar. Pego na tua mão tentando passar-te todo o amor que nos une. Estás calado e nos teus olhos, a tristeza. Podia dizer-te que precisamos de sentir a dor da perda para renascermos, mas nada digo porque nunca quiseste saber disso.
É mentira, os anos não passam depressa, não cheguei a esta idade num instante apesar de já me falhar a memória em muitas coisas, nunca no que senti, nunca nas vezes em que contigo ri. Posso ter construído um caminho difícil no meio da confusão que são os dias, mas vejo-te sentado, triste, mas homem.  
            O silêncio da igreja impõe-se. Já não precisas de amparo diário, vives muito longe, há tanto tempo que quase estranho a tua presença. Os pássaros voam para longe quando aprendem a voar e assim o quis para ti, mas nada impede que estenda o braço à tua procura.

quarta-feira, 22 de maio de 2019


[Dali]

Entrou num bar e pediu três shots, alinhou-os crescentemente, fez vibrar a escala e bebeu um a um de um trago só. Com um gancho do cabelo, abriu a porta dum volvo, entrou na auto-estrada para o Algarve e eufórica pisou com violência no acelerador. Nem parou, as árvores apareciam e desapareciam vertiginosamente, ligou o rádio, cantarolou em voz alta e abandonou-o numa praia de Lagos
 Já não dormia há dois dias quando conheceu um pintor. Pousou para ele, beijou, amou e deixou-o. Entrou num bar e dançou tango pela noite fora, a chuva furiosa inundava a terra ensopada, o vento batia com violência nas janelas, noite negra, o frio esvaziando os corpos.
Estendeu-se na cama sorrindo enquanto os trovões calavam as vozes humanas, os relâmpagos destruíam o absurdo dos passos maldados, a natureza devastava os restos de uma civilização mal construída. O dia iria amanhecer calmo, os pássaros voltariam a cantar, as ervas invadiriam tudo e ela poderia, finalmente, dançar sobre os escombros e soltar o grito há muito tempo guardado.