segunda-feira, 29 de abril de 2019


Ontem choveu. Apesar das grossas pingas que molharam a terra libertando o aroma a fresco, não me transtornou. Choveu e reavivou as cores esmorecidas pelo pó que tragava o ar. Talvez já sentisse a sua falta; é sempre bom vê-la cair através da janela abafando o ruído com o seu manto. Enquanto a lareira ardia espalhando um suave calor à minha volta, enquanto pousava a mão no vidro frio, olhei pensativa lá para fora. Há algo de misterioso nas nuvens carregadas, no céu cinzento que esconde o sol. Tenho sempre memórias que recordo, os dias de infância onde me sentia presa por não poder brincar lá fora, o regresso a casa sentindo o desconforto da roupa húmida. A areia da praia e o voo das gaivotas; as pegadas apagadas. Choveu e o presente foi dissolvido na água que se infiltrou nas fendas do muro.

terça-feira, 23 de abril de 2019

A casa das corujas


          
            A casa das corujas, altiva, branca como as habitantes da chaminé da cozinha. As memórias dos dias antigos onde em garoto passava o longo verão com os avós. Representação da liberdade. Total. Devaneios solitários por entre a vinha; os pés descalços do pequeno citadino que, quando chegava, as pedras pequenas afiadas rasgavam a pele nova. A pouco e pouco já nem se lembrava e o neto da aristocracia rural facilmente era confundido com os outros: dos filhos dos jornaleiros que rodeavam as mães enquanto estas, de sol a sol, trabalhavam a terra cantando para passar o tempo.
            Pele tisnada ao fim de uns tempos, calções remendados, infiltrava-se nas outras quintas para roubar fruta – tinha mais sabor, dizia. O da aventura de ser livre nas tardes quentes onde a brisa não soprava e os adultos não o tinham de baixo de olho.
        Os da terra troçavam dele. Não tinha habilidade para trepar árvores, diziam. Tão pouco distinguia rãs de sapos. O que percebia de pássaros? Por acaso teria uma fisga com ele? Ele, num ataque de fúria, demonstrava a sua valentia (que não tinha), mas recusava-se matar animais. Bárbaros. Como o que faziam aos cães; mantinham-nos presos todos os dias à casota e isto o ano inteiro. Coitados dos bichos que nem festas levavam. Os avós faziam o mesmo alegando que serviam de guarda e para mais nada. Ele fechava as mãos em violência, mas calava. Não se podia contrariar os mais velhos, tinham-lhe ensinado. Sabiam mais sobre os mistérios da vida e ele apenas tinha de aprender. Velhos, mas detentores do conhecimento e moral. Calava, mas roubava carne da mesa às escondidas e dava ao infeliz animal. Festas e mais festas durante a sua permanência. Durante a sua estadia nada lhe faltaria. Só não podia passeá-lo, o avô avisara-o em tom severo lendo o pensamento que tentara ocultar. Sem sucesso.
            As noites deslumbravam-no. Estrelas e tantas estrelas. Todas acompanhadas pelo cântico dos grilos. Ao longe a água que caía no tanque e um ligeiro coaxar (de uma rã ou sapo?). Quando o calor era totalmente insuportável passavam um pouco de tempo no alpendre a conversar. Os avós falavam sobre as terras, as colheitas que em breve seriam feitas, as previsões para as vindimas. Ele escutava atentamente como se percebesse a conversa dos adultos. De galinhas ia entendendo; bastava dar-lhes de comer e no fim do dia verificar se tinham ovos. Os coelhos estavam fechados durante a noite e dia; diziam que eram felizes com um punhado de erva.  
            Ou não. Talvez assim não fosse. Nem os porcos no curral ou as vacas na leitaria. Afinal os animais estavam encarcerados o tempo todo para a engorda com exceção do cão que não passava de instrumento de guarda.
            Pela primeira vez o garoto percebeu que a liberdade da casa das corujas não passava de uma ilusão. Seriam todos os paraísos assim? Mesmo aquele que o padre da aldeia tanto apregoava quando falava na ressurreição de Cristo? Não sabia, afinal era novo demais para questões complicadas e foi deste modo que modificou o seu comportamento.
            Nunca mais andou descalço nem se misturou com os filhos dos jornaleiros. O absurdo estava em querer ser quem não era. Tinham razão os miúdos do campo: não era ligeiro, não conhecia os pássaros e jamais mataria um. Fez festas aos coelhos, ao cão e alimentou as galinhas. Do porco e das vacas não se aproximou. A verdade é que tinha medo, não estava acostumado.
         Assim que soube que o vinham buscar para regressar à cidade aproximou-se de todas as gaiolas. Num profundo pesar por ir de novo para o seu cativeiro, abriu a porta dos coelhos e deixou-os sair. As do galinheiro. Pocilga. Leitaria. E no fim, depois de ter a certeza de que nenhum animal se iria ferir, o cão (que numa louca correria desapareceu dali para fora).
            Nunca mais voltou à casa das corujas. O pai, indignado com o seu ato, colocou-o de castigo. A mãe tentou que a pena fosse abrandada. Mas ele, ele que os tinha soltado, com nada se importou. Escutou todas as recriminações, as descrições do prejuízo causado. Aguentou os castigos infligidos.
Os anos passaram e esqueceu a casa. Retomou os estudos, a vida da cidade, o seu próprio caminho. Mais tarde, depois de passar os devaneios próprios da adolescência, acertou na namorada e quase esteve para casar. Não se concretizou, afastou-se. Ainda viajou, trabalhou, conheceu muitas realidades. Boas, más e outras que são simplesmente indiferentes. Entretanto, o mundo deu as suas voltas sem querer saber das tragédias humanas até que retornou à cidade onde por lá ficou a viver e a trabalhar numa atitude solitária. Um homem novo habituado ao silêncio e ao pensamento.
Até ao dia em que foi ao funeral dos avós.
          Entrou na Casa das Corujas. Parecia estar tudo na mesma não fora a procissão de gente que aparecera para dar o último adeus.
            Estava um cão preso a uma corrente. Lembrou-se do que tinha feito quando era miúdo. Sorriu, o tempo passara e não era o mesmo. A ilusão dos tempos, prisões e liberdades transformaram-no, mas continuava a sentir-se num cativeiro e tinha o mesmo olhar do animal encurralado, resignado, por mais sítios longínquos que tivesse visitado.
            Entrou na casa. O seu corpo esticara e os olhos apanhavam dimensões diferentes das paredes brancas, os móveis mantinham o mesmo perfume e juraria que os verões nas noites quentes teriam o mesmo som. Do coaxar das rãs, já aprendera. Reparou que alguns dos miúdos de outrora estavam presentes com rosto de homens. Apertou-lhes a mão em sinal de reconhecimento, mas acabou por ficar quieto a um canto enquanto os seus pais e os tios faziam as honras da casa herdada.
Era noite quando tudo terminou. As tias que mal as reconhecia e a respetiva prole reuniram-se na mesa de jantar onde os avós costumavam vigiar as suas maneiras muitos anos antes. A pouco e pouco notou as vozes a subiram de tom até ao ponto do desentendimento total. Olhou para a mãe, distante, em jeito de pergunta. Aproximou-se e apercebeu-se. Começara o festim dos abutres. A herança, a disputa.
            Saiu sem que ninguém desse por nada. Já tinha entrado no carro para voltar a casa quando olhou para o cão. Estaria na lista da distribuição dos pertences da herança? Será que ninguém se tinha lembrado que o animal estava a sofrer também pela perda dos donos? Lentamente aproximou-se. O cão. cujo nome desconhecia, ao vê-lo aproximar-se, não se mexeu. Ganiu apenas. Fez-lhe uma festa e em troca recebeu uma lambidela. Retirou-lhe a corrente e colocou-o no carro. Partiu.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

- Mas... O meu carro pode levar gasolina 98?
- Claro, minha senhora - disse sorrindo - é gasolina.
- Mas... O vendedor disse...
- Ó minha senhora, a água não anda.
Saio da bomba nada convencida, mas com o carro atestado, maldita mecânica que não percebo! Vou para Lisboa e se paro no raio da ponte?
- Ó pá, isso são só mais três octanas!
  (como se soubesse o que isso significa e repito, maldita mecânica!)

quinta-feira, 18 de abril de 2019

"Prólogo

Chovia torrencialmente na noite de 17 de Janeiro de 1937. As ruas no Chiado estavam praticamente desertas, viam-se apenas os últimos convivas à porta do Grémio Literário. 

Um carro preto parou no Largo da Biblioteca Pública, na estrada enlameada. De lá dentro, saíram quatro homens de gabardina até às orelhas para evitar a chuva. 

Em passo apressado dirigiram-se ao número catorze e com os punhos desataram a bater violentamente contra a porta.

- Abram imediatamente em nome da DGS!  - gritaram.

Ouviram-se passos apressados, a luz de um candeeiro a petróleo fez-se ver e um homem alto abriu a porta.

- Sr. António?
- Sim, sou eu.
- O senhor está preso por crime contra a Pátria. Faça o favor de vir connosco.

Uma mulher apareceu por detrás com uma barriga proeminente. Assim que os viu empalideceu.

- O que fez o meu marido?
- Como se fosse necessário explicar - disse um deles em tom de desprezo. - O seu marido é comunista, foi apanhado a assobiar a Internacional. Um traidor e os traidores da nossa nação não têm lugar entre nós."

Nini, Teresa Durães

(um livro a ser escrito)

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Quis tudo. Um mundo sustentável,  uma planície para correr. Uma imagem maravilhosa que não existe. Uma condição de vida inexistente, eu acabada de nascer. 

Rezam savanas antigas, memórias antigas onde animais viviam livremente, desconhecedores de sombras, caçadores de prémios, uma sociedade virgem.

Onde estamos? Onde nos erguemos? Onde nos situamos? 

Queremos tudo, mas tudo é impossível.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Hoje não há poesia!

Justine, estes são os meus gatos!



Kiko (gatinho mau!)


Lila (um doce, como todas as meninas!)



Zé (o bebé de 7 meses!)


quarta-feira, 10 de abril de 2019


Se dizem que é trovoada os pássaros recolherão. Tu terás medo, eu sei, aninharás e agarrarás a almofada querendo que tudo passe. Não passará e as cortinas serão fraca substituição.

Um, dois, três, anda, pula, consegues, o muro é pequeno.

Anda, dá-me a tua mão, nada passará, mas podemos ir ver o mar furioso com os raios. Está tão possesso que lança ondas contra o pontão. Destruí-lo-á se não a vencer. Anda, anda ver. Não podemos perder. Vê e vais perceber mas anda ver.