sexta-feira, 19 de abril de 2019

- Mas... O meu carro pode levar gasolina 98?
- Claro, minha senhora - disse sorrindo - é gasolina.
- Mas... O vendedor disse...
- Ó minha senhora, a água não anda.
Saio da bomba nada convencida, mas com o carro atestado, maldita mecânica que não percebo! Vou para Lisboa e se paro no raio da ponte?
- Ó pá, isso são só mais três octanas!
  (como se soubesse o que isso significa e repito, maldita mecânica!)

quinta-feira, 18 de abril de 2019

"Prólogo

Chovia torrencialmente na noite de 17 de Janeiro de 1937. As ruas no Chiado estavam praticamente desertas, viam-se apenas os últimos convivas à porta do Grémio Literário. 

Um carro preto parou no Largo da Biblioteca Pública, na estrada enlameada. De lá dentro, saíram quatro homens de gabardina até às orelhas para evitar a chuva. 

Em passo apressado dirigiram-se ao número catorze e com os punhos desataram a bater violentamente contra a porta.

- Abram imediatamente em nome da DGS!  - gritaram.

Ouviram-se passos apressados, a luz de um candeeiro a petróleo fez-se ver e um homem alto abriu a porta.

- Sr. António?
- Sim, sou eu.
- O senhor está preso por crime contra a Pátria. Faça o favor de vir connosco.

Uma mulher apareceu por detrás com uma barriga proeminente. Assim que os viu empalideceu.

- O que fez o meu marido?
- Como se fosse necessário explicar - disse um deles em tom de desprezo. - O seu marido é comunista, foi apanhado a assobiar a Internacional. Um traidor e os traidores da nossa nação não têm lugar entre nós."

Nini, Teresa Durães

(um livro a ser escrito)

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Quis tudo. Um mundo sustentável,  uma planície para correr. Uma imagem maravilhosa que não existe. Uma condição de vida inexistente, eu acabada de nascer. 

Rezam savanas antigas, memórias antigas onde animais viviam livremente, desconhecedores de sombras, caçadores de prémios, uma sociedade virgem.

Onde estamos? Onde nos erguemos? Onde nos situamos? 

Queremos tudo, mas tudo é impossível.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Hoje não há poesia!

Justine, estes são os meus gatos!



Kiko (gatinho mau!)


Lila (um doce, como todas as meninas!)



Zé (o bebé de 7 meses!)


quarta-feira, 10 de abril de 2019


Se dizem que é trovoada os pássaros recolherão. Tu terás medo, eu sei, aninharás e agarrarás a almofada querendo que tudo passe. Não passará e as cortinas serão fraca substituição.

Um, dois, três, anda, pula, consegues, o muro é pequeno.

Anda, dá-me a tua mão, nada passará, mas podemos ir ver o mar furioso com os raios. Está tão possesso que lança ondas contra o pontão. Destruí-lo-á se não a vencer. Anda, anda ver. Não podemos perder. Vê e vais perceber mas anda ver.



De onde vieste? Descobriste o caminho encoberto aos viajantes cuidadosamente tapado para não ser perturbado. Quem és que queres desvendar o que não permito? Traço um círculo com um pau, isolo-te das primaveras, mães dos seres únicos, crio padrões de invisibilidade, a floresta protegerá o mundo invisível que os Homens nunca deverão pisar. Quem és que nos vens importunar? 

quarta-feira, 3 de abril de 2019



"Disseram-me, estão a matar as árvores. Estremeci, talvez já soubesse, talvez já tivesse sentido. Cada golpe um sonho perdido, uma conversa calada, uma falha no gume das 7 espadas acima que os Deuses guardam. Matam-nas sem saber quem matam, as folhas, os caules, as raízes que são vozes barulhentas conversando ininterruptamente sobre todas as gotas de água que absorveram, sobre a vida dos que viram passar ao longo das décadas da sua existência. Têm mais memórias que os olhos baços dos Homens que se julgam gigantes nas suas terras. Vivem no esplendor dos dias infinitos, abraçam os pássaros nos seus ninhos contando-lhes histórias de predadores, abrigam os pequenos roedores nas suas tocas. Por vezes, em dias de vento, cantam lamentos que lançam pelas serras, tão longe, que os gigantes de pedra acordam e ouvem-nas.    
Ignoram os Homens as vozes escondendo os olhos na terra fecunda. Querem tomar o lugar dos Deuses ignorando as 7 espadas acima que forjaram os cumes. Querem a sabedoria antiga desprezando a leveza de uma brisa. Querem ser reis nos seus castelos erguidos. Em ruínas."

Teresa Durães, "7 espadas acima", 2019