segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Casei três vezes,
três vezes recolhi,
amei mais três,
nunca me vi.
Tentei um manto de rosas,
colhi dálias num jardim roubado.
Não as aceitaste,
antes querias um verbo desconhecido,
que não te podia dar.
Reguei o jardim
consciente que não me amavas.
Não era tempo para te as dar,
tão pouco histórias para contar.

Queria-me só,
terra por cultivar,
espaço por sonhar.

Ocupaste todo o lugar
sem caminho para explorar,
eternamente sem esperar.

Precisei de ocultar-me
das palavras por falar,
ventos agrestes a desvanecer
as sombras por desvendar.



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Escutei a noite
como se de dia tratasse:
não reconheci os verbos,
o manto negro escondia
a mais frágil emoção.
O tempo é disforme
mesmo ouvindo cada som,
cada tela
cada imagem.

Nem sempre fui assim,
os meus dedos pegavam
cada palavra murmurada
preenchendo a memória
de infinitos búzios.

Agora espreito, escondida,
a calçada indiferente aos passos,
as paredes brancas de histórias,
a praia vazia de sussurros.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Vejo as velas ao longe
celebrando a outra margem.
Não vingo as águas
tão pouco as apreendo.
Falta-te acreditar,
dizem comprando
os passos que não eram,
rebentos de raízes enegrecidas
pela espera de todos os tempos.

Tenho fonte que não desejo,
odores de outrora
que caíram no tempo.

domingo, 27 de agosto de 2017

Procurei o rosto
nas planícies que percorri.
Estava pálido,
urgente de todos os advires,
urgente do cálido sol,
da água nas raízes,
preso em malhas temporais.

Disseste-me,
tudo é uma ilusão,
as palavras que vêm com o vento,
o fogo da paixão.

Não estavas certo
- sei-o bem demais.
As sombras são rostos,
o brilho da água, os seus olhos,
as margens do rio,
a multidão que aplaude.

Não estavas certo
mas certamente senti-me só.
O tempo não é a medida,
o espaço, mortal.

Não estavas certo,
certamente,
contudo perdi a força
na negação das tuas palavras.

Hoje conheço o mundo,
mais esférico que outrora
elemento frágil, só,
a despedida do agora.



sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Passo a mão sobre o tojo,
não há serpentes de água,
os mistérios tornaram-se obsoletos.

Mataram Deus sem que este saiba.

Corro as planícies, a natureza persegue-me.
Abrando o ritmo, deito-me no campo.
Hei-de percorrer os espaços traiçoeiros
mergulhar no infinito
sem que as divindades suspeitem.





segunda-feira, 10 de abril de 2017

Quando morrer
Serei um caixão único
Apodrecido antes do fogo
Purificado na noite

Até não ter nome