quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Vejo as velas ao longe
celebrando a outra margem.
Não vingo as águas
tão pouco as apreendo.
Falta-te acreditar,
dizem comprando
os passos que não eram,
rebentos de raízes enegrecidas
pela espera de todos os tempos.

Tenho fonte que não desejo,
odores de outrora
que caíram no tempo.

domingo, 27 de agosto de 2017

Procurei o rosto
nas planícies que percorri.
Estava pálido,
urgente de todos os advires,
urgente do cálido sol,
da água nas raízes,
preso em malhas temporais.

Disseste-me,
tudo é uma ilusão,
as palavras que vêm com o vento,
o fogo da paixão.

Não estavas certo
- sei-o bem demais.
As sombras são rostos,
o brilho da água, os seus olhos,
as margens do rio,
a multidão que aplaude.

Não estavas certo
mas certamente senti-me só.
O tempo não é a medida,
o espaço, mortal.

Não estavas certo,
certamente,
contudo perdi a força
na negação das tuas palavras.

Hoje conheço o mundo,
mais esférico que outrora
elemento frágil, só,
a despedida do agora.



sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Passo a mão sobre o tojo,
não há serpentes de água,
os mistérios tornaram-se obsoletos.

Mataram Deus sem que este saiba.

Corro as planícies, a natureza persegue-me.
Abrando o ritmo, deito-me no campo.
Hei-de percorrer os espaços traiçoeiros
mergulhar no infinito
sem que as divindades suspeitem.





segunda-feira, 10 de abril de 2017

Quando morrer
Serei um caixão único
Apodrecido antes do fogo
Purificado na noite

Até não ter nome

sábado, 8 de abril de 2017

Há um álbum que me faz voar. Vivê-lo é ser-se construtor de palavras, ter medo das mesmas, necessitá-las para a explosão inicial, perpétua, necessária.

Há trejeitos nos gestos das palavras que nos consomem.

Há morte perante a morte que nos questiona a vida.

Há um princípio e um fim. Teremos a sorte de dominarmos ambos?

Há versos que nunca caberão porque o espaço é estreito demais.
No meu quintal brincam os gatos alheios às intempérias. Todos devíamos ser assim, natureza e ar, terra e canteiros, leveza de espírito. Quiseram os Deuses que tudo fosse diferente ou tornaram-se alheios ao deambulear de corpos.

Pouco resta da terra deserta, das flores selvagens, dos homens de palavra.

Temo que sugamos a água a todas as raízes até não sobrar nada.

Temo sermos um poço abandonado sem nada nas nossas mãos, somente a descrença e ambigu

quinta-feira, 23 de março de 2017

Chove mas chove tanto que as minhas raízes apodrecem. O mar podia florir e cantar a canção de toda a sua orquestra. As folhas das árvores perenes deixariam as gotículas de água escorregarem umas para outras. Mas chove e não quero saber disso. Nem das cataratas de água, tão pouco do caudal do rio, das ausência dos miúdos do bairro. Chove violentamente e eu desejo quietude.