quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

[Miró]



É no silêncio que se houve a voz dos Deuses antigos.
Deito-me num altar de pedra, escondido por entre a serra,
procurando o murmúrio e sonhos escondidos.
Não me sei louca, sei o que sinto,
as imagens que percorro no saber perdido
arrebatam com tudo que até então tenha vivido.
As árvores falam? Linguagem tão distante
cujo saber foi alienado, recortado, distorcido
em nome do poder, da civilização,
de algo retorcido. Onde cai a poesia,
a sensibilidade, o espraiar dos dias?
Restam-me poucos versos,
repetem-se os gestos, o corpo comprime-se.
Rasgo as mãos em inquietude, quero-me firme,
afasto-me da multidão, deito-me na erva.
Ela fala-me, sim, não vou negar quem eu sou,
fecho os olhos, estou. Sei-me feliz.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Contam-me histórias antigas
como se o ribeiro recuasse
à fonte do conhecimento primordial.
Não há tempo, não há advento,
requer-se o curso normal
esquecido em contratempos.
Passam nuvens baixas,
ergue-se o vento,
estão esquecidas as rosas
na jarra de cerâmica.
Quem não as alimentou?
Ergue-se o protesto,
perdeste o caminho reto
nas malhas da conquista.
Falas em solidão,
não antevejo uma solução,
sopra o vento Norte,
cai neve na serra erguida
paro em consternação.


sábado, 2 de janeiro de 2016

Erguem-se bolhas de água transbordando o tanque
forrado de musgo viscoso molhando as folhas caídas
em terreno seco.
As vozes foram proferidas em dia invernoso
desvendando saberes tão antigos
quanto a natureza encerra.
Descansa o guerreiro num tronco de árvore
que tem mais de mil histórias para contar.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Esquecem-se os espinhos
guardados em segredo,
escondidos num novelo,
enredado nas suas histórias.

Perdi o medo, perdi a memória,
tenho ânsia de vento,
recebo aguarelas.

Quero ter-te,
dar-te em glória
as minhas imagens,
pequenas vitórias.

Tropeço em seixos,
sei-os lisos pelas águas,
molham as ondas,
canto glórias.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

                    A todos, umas boas-festas!


A voz foi rasgada num ímpio gesto
afogando os dedos bruscamente.
Diz a sabedoria, volta, é certo
esquecendo as horas no caminho.
Espinhoso é o silêncio que silencia.
Mais um passo, mais um dardo,
tarda o amanhecer.
Violam-se regras, quer-se alegria
mesmo temperada, é viva.
E escuta-se os pássaros no seu recolher,
amanhã é outro amanhecer.


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Pedem-me os dedos, dou a mão,
velozes os acontecimentos,
nada pode ter sido em vão.
Reguem-me as flores,
carreguem-me o caixão,
hei de vencer no mar
não importa a transformação.
Velozes os acontecimentos,
nada foi em vão.