sábado, 14 de novembro de 2015

Entre o silêncio dos dedos
nasce outro tão grande
que carrega memórias de seres
anteriores a nós.
Sabem-no as cotovias,
escondem-no árvores antigas,
dizem-nos os antigos
àqueles que ainda querem escutar.
Palavras prenhas de antiguidades,
preciosidades quase escondidas.
Renascê-los, torná-los companhia,
pinto-lhes uma tela onde eternizam. 


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Tens o teu futuro nas mãos,
diziam-te enquanto a tua vida lambiam,
tocavam-te na fonte e te benziam,
esfregavam as costas e sorriam.
Tens sóis, cores que desconheces,
voos rasantes e outros feitos.
Mas vieram as trepadeiras,
os muro ficaram sobrecarregados,
as janelas, anseios de liberdade.
Tomaste nas mãos as pedras soltas
que em tua volta caíram sem saber
onde pousava o leito do rio.
Não existe, disseram-te por fim,
quando a roupa do corpo não passava
de memórias tão antigas quanto mãos de mãe
a acariciá-las novas.
Eram de rosas, sem espinhos nem agruras
feitas de novelos frescos vendidos como seguros.
Eram ferozes, rompiam a terra amanhada,
seca agora de tão usada.
Pego em adubo fresco ao toque,
inspiro o odor a natureza no seu forte,
não sei onde aporte
mas levo pedaços de mim.


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Voz segura de quem tem a distância
dos enredos que acabam por acontecer,
mãos de veludo, corpo manso,
imagens do presente de clareiras floridas.
És vida, és gente,
corpo diferente de uma vida iniciada,
sopro de voz que requer caminhada.


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Deitada a um canto
enquanto a longa manhã
espraia nas ondas do mar.
Desistes de todas as paisagens
desenhadas numa memória tão antiga
quanto essa dura melancolia,
esmagando as ameijoas na areia.
Não foste de mão erguida,
antes punho e teimosia,
rompendo as auroras incautas,
cantando o anoitecer em histórias.
Quiseste carvalhos, tiveste freixos
sem saber tão pouco
ouvir um instrumento.
Sobraram-te mãos tão vazias,
mesmo com essa magia que sabes existir
e estendes-te tão sozinha.








quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Sentavas-te na beira do lago,
pés desertores nos juncos
enquanto as pedras formavam caminhos.
Não tinhas pressa,
ainda não a tinhas inventado,
antes escorrias areia dominando as leis
feitas pelos Homens adultos.
As mãos aveludadas pela inexistência
do tempo que não te era pedido,
grotesco desenho de uma realidade
imaginária qualquer.
Mais tarde alongarás os dedos,
pedirás estes e outros segredos,
resgatarás volúpias e enredos,
perderás o tempo do tempo.
mas as árvores continuarão no seu enlevo.



sábado, 31 de outubro de 2015

Quero desejar ser vida entre os teus dedos,
saber que te vivo na muralha do silêncio,
ondo povoam os nossos contornos
feitos de ramagem verdejante.
Quero procurar e encontrar-te
nas noites aglomeradas de pontos cintilantes
onde fazemos nascer histórias só nossas
contadas num livro imaginado qualquer.
Viver-te em glória e por fim
escrever-te em ardosa.



sábado, 24 de outubro de 2015

Não te pedi que soprasses as nuvens
para o horizonte longínquo da minha sombra.
- Daria tudo por o fazer.
Não misturei o odor dos meus cabelos
nas grinaldas que te queria oferecer.
- Soprei-as mansamente.
Estendo-te as cores de um coral escondido,
quero contigo ser,
um ponto firme no linho.
Rodam os remoinhos dos medos antigos,
secam as pálpebras e faço-me a um qualquer caminho
tentando ter-te e ser sem ti.
Quebram amarras neste alvoroço,
dar-te e nada esperar ter,
poetizar e amar.