segunda-feira, 24 de novembro de 2014





Tropeções na elipse do tempo,
as rodas dentadas sem permissão continuam a ser alimentadas.
Vem o fogo, vem a água,
vêm todos os elementos tentando apaziguar os lestos pensamentos.



sexta-feira, 21 de novembro de 2014


[Kandinsky]



Salta o muro, salta o cerco,
corre colinas com alento.
Vai de vento, vai de vento,
vai de tempo em tempo.
Tem depressa de chegar,
entregar-se ao movimento.


terça-feira, 18 de novembro de 2014




Hoje respirei a manhã
sabendo que todas são diferentes entre si,
o abraço gélido fez-me despertar os sentidos
como se fosse a primeira vez.
Senti-me dentro de mim
e deixei-a navegar no meu sangue.






quinta-feira, 13 de novembro de 2014

[Dali] 




Tragam o corpo envelhecido,
tentam a essência dobrar.
Que se esconde em paredes esféricas,
solo no solo, reserva de ar,
espreitando lentamente,
ansiando o resgatar.
Feijão a feijão, a natureza a brincar.



sábado, 8 de novembro de 2014

Lentamente, lentamente queimando o ar.
Como uma vela. Persistente.
Sim, uma vela, dessas que nos dão ilusões,
nas sombras fantasmagóricas,
no odor da natureza longínqua,
no movimento mudo.
Ao sabor de uma brisa inexistente.




terça-feira, 4 de novembro de 2014


[Anna-Ancher]




Vai de vento, vai de bote
Vai sem que já suporte.
Vai desencantada perguntar à Deusa
Onde está o pote da clareza.


(vai tão pobre)



sexta-feira, 31 de outubro de 2014









Fala-me
Traz-me o sol pelas palavras
Sê o calor que já não sinto
Uma pintura renascentista
Num piquenique à beira de um lago
Com alegres raparigas a tagarelarem
Despreocupadas
Enquanto as águas brilham reflectindo
Ramos de frondosas árvores
Barcos passeando casais
Cheios de segredos escondidos
Onde mais ninguém tem acesso

Recorda-me
Melodias esquecidas
Em jogos de crianças
Nos terreiros banhados de luz
Em terra poeirenta
Das tardes quentes de verão
Onde passávamos as nossas férias
E acabávamos deitados na erva
A observar a verdade na noite

Apazigua-me
Com as imagens
De todas as luas que visitámos
Enquanto nos descobríamos
Nas noites quentes da nossa adolescência
Procurando a verdade
Encontrando sempre a mentira

Não me fales
Deste novo som de agora
Complexo demais
Para as simples cantilenas antigas

Das palavras ásperas que aprendemos
Que não existiam na
Fantástica meninice
Onde corríamos com a brisa

As imagens que retiramos
Do quotidiano que não conseguimos
Perceber para onde foi
A antiga pintura

Teresa Durães

in "“Entre o Sono e o Sonho - Vol III - Antologia de Poesia”