Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Recortes de Um País Moribundo



Apresentação da Obra: "Recortes de Um País Moribundo", de Teresa Durães (2011), escrita e apresentada por: Margarida Madureira

Bem-vindos a todos. Após um ano da publicação de «Návia», cá nos encontramos de novo, e curiosamente, no mesmo local, desta vez para o lançamento de «Recortes de um País Moribundo», escrito por Teresa Durães, entre 2008 e 2011.

A autora que faz o favor de ser minha amiga há já vários anos, convidou-me a fazer a apresentação deste seu novo livro. Claro que, de imediato e, com agrado, aceitei

Porém, tenho consciência que a narrativa ambígua e a forma desassossegada característica da escrita de Teresa Durães, que roça e reclama o absurdo preconizado por Camus é sempre um “presente envenenado” para quem pretenda apenas fazer um pequeno “brilharete” de modo elegante, eloquente, isto é, «politicamente correcto», recorrendo ao velho cliché Português.

É que a vida, anseios, amores, medos e desejos de Teresa Durães e, por consequência, toda a sua prosa ficcional, nada têm de politicamente correcto. Antes pelo contrário… «Recortes de um País Moribundo» é o último exemplo desta máxima. Começando pelo título que, como suspeitareis é sobre o nosso falido, corroído e moribundo Portugal.

No entanto, a autora não se limita à crítica política dos dias que, actualmente, nos cobrem de céu cinza.

Indo à fundação do condado Portucalense, passando por várias épocas históricas, mas sobretudo, por uma análise exaustiva da idealizada mas frustrada revolução dos Cravos, geradora de meros capitães esquecidos e corrompidos e de toda uma panóplia de gerações posteriores de yuppies e jovens materialistas em que o bom emprego, a casa própria, a casa-de-férias, o carro e o rentável casamento, foram, segundo as suas palavras, o único leitmotiv e a verdadeira razão de ser do 25 de Abril de 74.

Porém, também a 1ª e 2ª guerra mundial, os anos 70, 80 e 90, bem como a União Europeia, a CEE, o FMI não ficam de fora da crítica, em forma de recortes, surgindo a autora como o alter-ego ou como uma autêntica “Troika” na sua análise dura e crua sobre a actual situação política do nosso País.

Contudo, não é somente Portugal que está moribundo.
A autora, ou melhor, a sua personagem principal, de cariz, nitidamente, autobiográfica, também se inclui nesta denominação proscrita e maldita. Contraditória, caótica, visceralmente recortada pelas agruras dos dias sem sentido e vazios, ela tem uma vida absurda tal como o Mito de Sísifo há muito nos alerta.

Escrito de forma honesta, densa, agitada, cíclica, como que por ondas ou vagas de maior ou menor intensidade, crueldade e/ou sensibilidade, acompanhamos em “Recortes de um País Moribundo” a vida de uma mulher que nasceu no dia em que o Homem foi à lua e, que «por não ter vivenciado a ditadura, nem lutado pela democracia» (nas palavras da própria autora) se deixou esmorecer e se desencantou pelo milagre da vida em si mesmo.

Num estado de quase sobre-vida e usando a loucura como um facho ou como um disfarce esguio e acutilante perante o mundo, fica-nos a sensação após a leitura do mais recente livro da engenheira informática Teresa Durães que, afinal, os loucos, somos nós, os outros… e não a personagem central, não «ela

“Loucos” são afinal, todos os outros e «outras» com quem esta mulher, da década de sessenta, por sintonia e semelhança ou pelo seu contrário, por puro mecanicismo e determinismo, se vai cruzando, casando e divorciando, envolvendo e desfazendo, ao longo da sua vida.

Pautando a sua vida por uma pulseira imaginária indicadora do estado de urgência médica com que poderá ser internada, «ela», a personagem central, quiçá a própria autora, que preferia ter um bar de alterne a ser funcionária pública e que continua em busca do amor, da pessoa «certa», divina, independentemente do seu género sexual, coloca-nos à beira dum abismo, a um passo entre a vida e a morte, fazendo-nos reconhecer em nós, meros leitores que – tal como ela- somos todos o “Louco”, a carta não numerada do Tarot, em determinadas fases da nossa existência.
Este último livro da autora tem assim a extraordinária capacidade de nos fazer recuar pelos cantos mais obscuros e moribundos da vida do nosso País (e ainda não entrámos em 2012), como tem também o admirável engenho de nos fazer reflectir e voar- em termos pessoais - pelo espaço e pelo tempo, na procura da realização dos nossos sonhos, de nos fazer acreditar no futuro, apesar do medo, da dor ou da solidão.

“Quem sou?”. Quem sois vós? «Operários em construção» ergam-se e sejam. Já! Ou um dia. Ou quando puderem… Mas sejam vocês próprios. Mesmo que de pulseira amarela no pulso. E se possível façam teatro, pintem, dancem, escrevam, cantem, ou simplesmente tenham rosas no quintal e deixem os cães latir e roçar-se nas vossas pernas que, certamente, ajudará a que a vossa pulseira não fique tão rapidamente cor de laranja.

Obrigada Teresa, pelo teu convite. Pela tua coragem e inteligência.
Obrigada a todos os presentes pela vossa paciência. Bem hajam. Boa leitura.

Margarida Madureira
(01/12/2011)